Reportagem de Capa

 

A (eterna) APOSTA no risco

A segunda safra de milho no Brasil costumeiramente se desenvolve à mercê do clima – de falta de chuvas à geada. E em 2015, antes mesmo de ir ao solo no Mato Grosso, principal produtor, a safrinha já foi prejudicada pelo atraso nas chuvas no plantio da soja de verão, que vai retardar o plantio do cereal. Da mesma forma, há muitas incertezas quanto a cotações, até porque os americanos têm colhido muito, mas muito milho. Felizmente, o real desvalorizado e a previsão de alta no consumo interno pelas carnes dão um refresco ao mercado do cereal

Thais D'Avila

A falta de chuvas no início do plantio da safra de soja está deixando produtores de milho da segunda safra preocupados. Como a janela ideal de plantio ficou menor e, assim, com a possibilidade de colheita mais tardia da oleaginosa, o cultivo do cereal poderá ocorrer mais tarde, entrando em período de maior risco. Entretanto, no maior produtor do Brasil, Mato Grosso, a ideia é plantar mesmo assim. Com sementes e demais insumos na fazenda, alguns produtores até já iniciaram a semeadura. O relato é do diretor da Federação da Agricultura do Mato Grosso (Famato) e produtor, Nelson Piccoli. "A área prevista será plantada, já está tudo comprado, semente, adubo... ele vai plantar independentemente do risco. A dúvida é sobre o comportamento da produtividade, que depende das próximas chuvas."

Piccoli, diretor da Famato e produtor em Vera/MT: "Temos que ter muito cuidado porque o clima está irregular e plantar com seca pode dar problema de germinação"

Conforme Piccoli, os produtores matogrossenses estão vivendo um período atípico. "É bem delicado, muito diferente dos últimos cinco ou seis anos. Temos um período de chuvas muito pequeno, com pancadas mais regionalizadas. E isso está fazendo com que os produtores que estão colhendo a soja e iniciando o plantio do milho temam por causa da germinação. O milho não germina em solo muito seco", descreve.

Piccoli também é produtor de milho safrinha – 700 hectares em Vera/MT – e é um exemplo dos produtores prejudicados pelo clima. "Eu tenho uma certeza, como produtor, que será um ano bem diferente em produtividade na minha propriedade. Já deveríamos estar com 15% da safra de soja colhida e não colhemos nenhum grão. A expectativa é de começar a colheita somente em 5 de fevereiro", revela. "Temos que ter muito cuidado porque o clima está irregular e plantar com seca pode dar problema de germinação. O ano será complicado e delicado na segunda safra, por fatores climáticos", testemunha. "Se de agora em diante o clima for favorável para a colheita da soja e que não atrase mais para podermos colher e plantar o milho imediatamente, ainda tem a perspectiva de uma produtividade regular, mas as plantadeiras praticamente vão atropelar as colheitadeiras".

A meteorologista Cátia Valente, da Somar Meteorologia, afirma que mesmo com redução no volume de chuvas a partir de abril, "o que é normal para esta época do ano em Mato Grosso e Goiás, podem ocorrer episódios de chuvas que se tornam fundamentais para o fechamento da lavoura". Conforme ela, para esses estados o risco está associado à falta de chuvas na fase final do cultivo, cujas consequências e impactos vão depender muito da data de plantio, justamente a principal preocupação dos produtores.

Meteorologista Cátia: "Se o pessoal do Paraná, de Mato Grosso do Sul e do Sul de Mato Grosso plantar mais cedo, consegue fugir da geada, mas pode faltar chuva no final. Se planta depois, pega o risco de geada"

No Paraná, segundo maior produtor de milho, também deverá ocorrer o atraso na colheita da soja e, por consequência, no plantio do milho segunda safra. A preocupação se repete e os produtores não estão tão certos do plantio como em Mato Grosso. O presidente do Sindicato Rural de Londrina e também produtor de milho, Narciso Pissinati, afirma que tradicionalmente os produtores paranaenses plantam 100% da área com milho na segunda safra. E alguns podem trocar para o trigo. "O atraso terá reflexos lá na frente, porque vai permitir uma janela bem curta para fazer o plantio do milho. Vai haver uma queda na região de Londrina, talvez haja a substituição pelo trigo", explica.

O dirigente já prevê algum prejuízo ou desvantagem, visto a umidade no solo. "Eu tenho a impressão de que não seja uma boa ideia plantar milho. Mas como o produtor não deixa de plantar, não quer deixar o solo descoberto, vai para o trigo", afirma. Ele acredita que, em condições normais, o milho seria sempre a melhor opção, por causa do preço e da facilidade de venda. Com o trigo, "a gente vai ter que contar com a ajuda do Governo, para que não faça as importações na época em que o produtor brasileiro está colhendo. A gente vai precisar que o Governo não faça essa barbaridade, que é importar trigo sem taxação. Tem que manter o trigo em um valor compatível".

Mas no estado paranaense as chuvas devem estar mais presentes. Conforme Cátia, para as lavouras do Paraná e de Mato Grosso do Sul, as frentes frias devem manter certa regularidade, oferecendo boas condições de umidade do solo para o desenvolvimento da cultura. "Nesses dois estados, assim como já observado na safra passada, o principal risco está associado ao frio, visto que a condição de neutralidade climática em relação às águas do Pacífico Equatorial aumenta o risco de geadas a partir da segunda quinzena de maio", alerta. Da mesma forma, explica, o risco aumenta conforme atrasa o início do plantio.

"O produtor vive um momento de cobertor curto", avalia Cátia. "Se o pessoal do Paraná, de Mato Grosso do Sul e do Sul de Mato Grosso plantar mais cedo, consegue fugir da geada, mas pode faltar chuva no final. Se planta depois, pega o risco de geada". A situação climática encontrada na safra 2014/2015, com atraso nas chuvas pré-plantio da soja, repete-se sempre que anos neutros são registrados no Brasil. "Embora o Oceano Pacífico esteja levemente mais aquecido, desde meados do ano passado, em nenhum momento tivemos um aquecimento suficiente e generalizado a ponto de gerar um El Niño" afirma a meteorologista. Por outro lado, o Atlântico mais aquecido é o que está segurando as chuvas no Sul da Região Sul e impedindo que se desloquem para as áreas produtoras do Centro-Oeste, como ocorreu na safra anterior.

A dica, conforme a meteorologista, é apostar, sempre que possível, no escalonamento. "Na safra passada tivemos praticamente o mesmo comportamento do clima na época do plantio. Quem correu o risco e plantou teve perdas isoladas, especialmente quem semeou em diferentes períodos", lembra. Pissinati está cauteloso e, na sua propriedade, dos cem hectares cultivados, 60 vão para o trigo e o restante para o milho. "Nesta atividade tudo é risco. Depende de cada um", justifica.

Produção — As consultorias que já apresentaram suas previsões para a safra ainda não mexeram nos números apresentados em dezembro. Conforme a analista da Céleres, Aline Ferro, a estimativa é de uma área de plantio estável em relação ao ano passado com quase 1% de aumento. Já a produtividade, considerando a média histórica dos últimos 15 anos, pode crescer 10%. A previsão da consultoria para 2015 é de 49 milhões de toneladas, contra 44,4 milhões de 2013/14. "Ainda não mexemos nesta previsão por dois fatores: a incerteza em relação à janela de plantio e os preços mais remuneradores que ainda podem estimular o produtor daqui para a frente", afirma Aline.

"Hoje temos o valor do frete para o milho equivalendo a 91% do valor da saca. Quem compra, paga quase duas sacas para ter o milho no destino", descreve Ozelame, do Imea, a realidade do produtor do MT

O analista Paulo Molinari, da Safras & Mercado, aposta no aumento de produção nos estados do Paraná, São Paulo, Goiás e Mato Grosso do Sul, e algum recuo em Mato Grosso. "A questão básica são os preços de exportação que cederam para níveis inferiores a R$ 30 por saca no porto. Com fretes altíssimos, a matemática de preços para o Mato Grosso não é boa. O câmbio tem sido o ponto de equilíbrio nesse quadro". Os fretes altos em Mato Grosso também foram destacados pelo gestor técnico do Instituto Matogrossense de Economia Agropecuária (Imea), Ângelo Luis Ozelame. "Hoje temos o valor do frete para o milho equivalendo a 91% do valor da saca. Quem compra, paga quase duas sacas para ter o milho no destino", sintetiza.

Em Mato Grosso, deve haver uma redução de área em 12% – de 3,2 milhões para 2,8 milhões de hectares. A produtividade deve cair um pouco mais, de 91,6 sacas por hectare em média na safrinha passada para 86 nesta, ou -17,6%. Os dados informados por Ozelame, do Imea, levam em conta que tudo se trata de uma previsão. "O que interessa mais para o milho safrinha é a chuva em abril e maio. Aqui no Mato Grosso, estamos visualizando chuvas abaixo da média, diferente do que ocorreu no ano passado, que teve chuvas menores, mas não tão abaixo como está aparecendo agora. Mas ainda são previsões, tudo pode mudar. A gente tinha previsão de muita chuva pra fevereiro e agora já não está mais apontando isso... as previsões acabam mudando", explica.

No Paraná, para a segunda safra, a expectativa é de que sejam colhidas dez milhões de toneladas, redução de 5% em relação à safrinha anterior. E a tendência de redução de área é de 1%, para 1,87 milhão de hectares. Os dados fazem parte da primeira estimativa do Departamento de Economia Rural do Paraná (Deral). Conforme a pesquisadora do Deral, Juliana Yagushi, a safra 2013/14 registrou o recorde de produtividade no estado, chegando a 5,5 mil kg/ha, devido às boas condições climáticas. "Trabalhamos com a manutenção do nível de tecnologia. Esperamos um potencial semelhante ao trabalhado na safra anterior, com 5,3 mil kg/ha", conta.

Para a produção nacional, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) manteve, em janeiro, o mesmo número do informativo apresentado em dezembro. Os primeiros dados serão levantados a campo em fevereiro. São esperadas 49,4 milhões de toneladas para a safrinha, contra 48,2 milhões apresentados no levantamento anterior. A produtividade apontada pela Conab em 2015 é de 5,3 mil quilos por hectare, contra 5,2 mil da safrinha anterior.

E os preços? — A previsão de uma boa safra norte-americana mexeu com a vontade dos produtores brasileiros para a safrinha de milho, ainda ao longo do cultivo da safra de verão. A promessa de remuneração não era animadora, por conta da previsão de tanta oferta no Hemisfério Norte. Entretanto, em dezembro, mesmo com o final da colheita dos Estados Unidos e a manutenção da previsão de superssafra, os preços reagiram, chegando ao Mato Grosso a R$ 15 ou R$ 16, considerados bem remuneradores já que a expectativa inicial era de menos de R$ 13.

Em Mato Grosso, a movimentação para travar o preço em dezembro foi grande. Até a virada do ano, pelo menos 23% dos produtores já haviam fechado contratos para comercialização com o milho valendo R$ 15,60, na média de dezembro. A previsão, segundo o Imea, era fechar o mês de janeiro com 28% da produção comercializada. Nesta época, segundo Ângelo Ozelame, na safra passada, pouco havia sido vendido antecipadamente. Mas no Paraná, conforme o Deral, menos de 1% da produção havia sido negociada até meados de janeiro. Ozelame explica, porém, que em Mato Grosso o costume dos produtores é outro. "A lógica do produtor do Sul é um pouco diferente. Aqui ele tenta vender mais antecipadamente. Quando ele vê um preço que percebe uma possibilidade de lucro ou ao menos que veja a possibilidade de custear o cultivo, ele negocia".

Mesmo assim, os negócios de forma antecipada vêm crescendo na safrinha. Molinari, da Safras & Mercado, afirma que neste momento há compradores nos portos para embarques em julho, agosto e setembro, mas não há vendedores. "Na verdade, os produtores ainda não aprenderam a negociar o milho de forma antecipada, ou sempre estão apostando em algo a mais ou no apoio do Governo na comercialização", diz. Conforme o analista, no momento da colheita, e com grandes produções, os preços cedem e a lógica de rentabilidade muda. Além disso, ele explica que existem muitas informações distorcidas no mercado brasileiro. "Falam que a demanda será o grande ponto de equilíbrio, e que vai levar os preços para cima em plena colheita recorde de safrinha e recorde norte-americano. Isso atrapalha a comercialização por parte do produtor", informa.

Apoio importante do câmbio — Os analistas são cautelosos em falar sobre preços na colheita. Molinari aponta 2015 como um ano diferente. "Temos preços mais alinhados a uma nova média, estoques recompostos e demanda em recuperação. A demanda sozinha não é capaz de gerar altas fortes de preços. Então, o mercado precisará de fatos novos no ambiente da oferta para uma nova volatilidade de alta. Algum problema ainda na safra sul-americana ou na metade do ano com os Estados Unidos, e as demais produções nos grandes produtores. Fora isso, a única alternativa para o equilíbrio de preços será a taxa de câmbio no Brasil", descreve o analista o cenário.

Molinari explica ainda que os estoques mundiais estão atingindo os níveis do início da década de 2000, perto de 190 milhões de toneladas após safras recordes nos Estados Unidos e no Brasil. "Com isso, os preços em Chicago têm retomado os níveis normais, ou seja, entre US$ 3 e US$ 4 por bushel. Então, com essa pressão externa sobre os preços, o mercado interno sente o impacto negativo devido ao grande excedente brasileiro gerado a cada ano e a necessidade de exportação. Se não tivéssemos a desvalorização do real no segundo semestre de 2014, a situação brasileira não seria favorável para o milho".

Demanda por aves e suínos — Os setores de aves e suínos trabalham com uma expectativa de redução na oferta de milho no mercado interno. Conforme o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Francisco Turra, essa expectativa existe pela queda do preço que foi registrada em várias regiões do País. "O preço sempre determina safra maior ou menor, além do clima", argumenta. Entretanto, o dirigente afirma que não espera desabastecimento. "O Sul, que é mais carente, está com safras boas. No Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, a produtividade está elevada. Bastante chuva, clima muito bom. Então, nesse sentido não vai haver grande mudança de comportamento de preço do milho", fala.

A ABPA espera um crescimento de 3% a 4% na produção de aves e suínos. "Isso obviamente se reflete no consumo de milho e farelo de soja em 2015", afirma Turra. Em 2014, os dois setores absorveram em torno de 40 milhões de toneladas de milho. Em relação ao preço do grão, Turra é enfático: "Nós precisamos de preços estimulantes ao produtor. Para nós é ruim quando o produtor recebe mal pela produção, é o prenúncio de uma safra ruim. Se as commodities estiverem mais caras, mas o setor estiver bem, está ótimo. Antes era impossível remunerar melhor o produtor porque o preço era vil. Hoje suínos e aves vêm melhorando tanto no mercado interno quanto no externo e isso é bom para todos".

A Céleres prevê um crescimento de 5% no consumo de milho para a produção animal, envolvendo aves, suínos e gado. "Vimos um crescimento no setor de carnes em 2014 e acreditamos que vai continuar crescendo tanto na exportação quanto no mercado interno" analisa Aline Ferro.

Exportações e a terceira safra — A safra cheia nos Estados Unidos, com boa produtividade neste ano e estoques altos desde a safra anterior, representa maior competição para o exportador brasileiro. "Este cenário acaba atrapalhando um pouco, mas a gente acredita que as exportações devem se manter em 20 milhões de toneladas – que foi o que fechou 2014. Acreditamos na manutenção em 2015 em função de uma demanda firme. O Brasil já conquistou esse espaço no mercado internacional e já está consolidado", avalia Aline.

Segundo Francisco Turra, a ABPA espera um crescimento de 3% a 4% na produção de aves e suínos, o que naturalmente refletirá no consumo de milho e farelo de soja em 2015

O Brasil tem condições de exportar muito mais milho, com a implantação da terceira safra, através do uso da irrigação. A afirmação é do presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho), Alysson Paolinelli. Segundo ele, o Brasil está consolidado como exportador, pois tem padrão de oferta e qualidade. "O que eu considero mais importante é que o Brasil está na área tropical do globo. Não é como o americano ou o europeu que só pode plantar na janelinha de 12 dias; nós plantamos em 12 meses", justifica.

Paolinelli lembra que inicialmente a safrinha brasileira foi cultivada para fazer palha para a produção de soja ou milho, e acabou virando uma grande safra, maior do que a de verão. "Isso porque o produtor está descobrindo que o clima tropical é diferente, e ele tem uma janela de 12 meses pra plantar. Fez a segunda e vai fazer a terceira safra, irrigada. Com estrutura de irrigação, o Brasil vai se posicionar muito mais firme nos mercados internacionais. Seremos imbatíveis", prevê.

No principal estado produtor, as exportações representaram mais da metade da venda do produto: 58% do milho matogrossense vai para fora do País. A logística que atrapalha o escoamento da safra também prejudica o crescimento de outras atividades como a produção de suínos e aves. "Nosso consumo interno ainda é pequeno (3,6 milhões de toneladas), comparando com outros estados", diz Ângelo Ozelame do Imea.

Além da previsão para a exportação desta segunda safra, o presidente da Abramilho aposta em um crescimento futuro da demanda mundial, que irá abrir muitos mercados para o Brasil. "A nossa expectativa é com o crescimento do consumo nos países mais populosos. Quem tem condições de atender essa demanda é o Brasil. Nós temos tecnologia, temos recursos naturais, temos capacidade inclusive de fazer recuperação de solo com integração lavoura de milho e pecuária. E expandir a produção", projeta Paolinelli.

E o crescimento do consumo poderá ser direto, como para os países africanos, que utilizam o milho na alimentação humana, ou indireto, como para a Ásia, que usa o grão para alimentar frango, suíno e gado de corte e leite. A própria ABPA está no aguardo do aumento do consumo de frango por parte da China, com a aprovação de várias plantas para exportar ao país asiático. Em 2014, o crescimento das vendas para a China foi de 30%.

Logística — A logística continua sendo um problema para quem produz no Centro-Oeste. Entretanto, para esta safra alguns passos foram dados e já começam a melhorar a situação dos produtores. Um deles, destaca o diretor da Famato, Nelson Piccoli, é a privatização da BR 163, no trecho de Sinop a Rondonópolis. "Iniciaram os trabalhos em junho, julho do ano passado e já melhorou. Está bastante avançado.

As duas pistas estão quase na totalidade sem buracos. Acredito que em no máximo 60 dias já teremos as duas pistas em ótima condição. São cinco equipes trabalhando", conta.

O trabalho está sendo acompanhado de perto pelo grupo de logística da federação, que sinalizou os pontos frágeis da rodovia ao longo de outro trecho, para melhorar o escoamento da safra pelo Norte. "Na BR 163, de Trairão/PA a Pirpirituba/PB tem um trecho de 280 quilômetros que não tem asfalto e lesa o escoamento. O DNIT garantiu que quando a chuva parar eles vão dar essa possibilidade de escoamento". A ideia, conforme Piccoli, é escoar de 25% a 30% da safra por ali. O restante sairá para o Sul, via portos de Santos/SP e Paranaguá/ PR.

O presidente da Abramilho concorda que a logística ainda é um desafio que tira a competitividade do produtor brasileiro. "Nós temos um problema interno de infraestrutura. Os nossos custos do milho – que é um produto de baixo valor – pesam muito. Isso nos prejudicou especialmente nas safras de Mato Grosso e do interior de Goiás, pois estão distantes dos portos e o custo do transporte às vezes fica muito caro", avalia Paolinelli. Entretanto, ele entende que as coisas estão melhorando. "O Governo tem feito esforços no sentido de amenizar um pouco isso, e tem ajudado os produtores a levar esse milho para colocar no mercado tanto interno quanto externo".

Apoio à comercialização — Se o mercado se mantiver como o previsto, o Governo Federal não precisará interferir com leilões e aquisições. A expectativa é do diretor da Famato. "Nós acreditamos que, com esse indicador de que os preços vão se sustentar no milho e na soja, não vai haver necessidade de intervenção do Governo. Praticamente podemos descartar a necessidade Prêmio Equalizador Pago ao Produtor (Pepro) como no ano passado, temos quase certeza", entende Piccoli. Entretanto, o dirigente espera que o Governo entre comprando uma parte para a regulação dos estoques com preços acima do mínimo, já que o mercado está valendo à pena para o produtor.

Na safra passada, conforme o analista de mercado da Conab, Leonardo Amazonas, foram comprados, através de Aquisições do Governo Federal (AGF), em maio de 2014, 43,2 mil toneladas de milho no valor de R$ 35,34 milhões. Outra medida de apoio à comercialização foi a subvenção de Pepro no volume de 5,80 milhões de toneladas no valor de R$ 255,53 milhões. Ainda segundo Amazonas, para 2015 – dependendo do tamanho da safra – poderão ser feitos contratos de Prêmio para Escoamento de Produto (PEP) e Pepro, além de AGF, caso os preços fiquem abaixo do mínimo. "Mas essa é uma situação muito difícil de acontecer, diante do panorama atual e futuro de preços para o milho".


Milho de segunda safra agora tem tecnologias próprias

Milho é sempre milho, mas a safrinha exige atenções diferentes do milho verão no seu cultivo. A seleção de cultivares de milho mais adaptadas ao clima da segunda safra vem proporcionando cada vez melhores produtividades para a cultura nas diferentes regiões produtoras. Conforme o pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) Rodolfo Bianco, da mesma forma a indústria sementeira de soja trabalhou para um resultado que se adaptasse às duas safras, com cultivares da oleaginosa com ciclo mais curto, que possibilitassem a entrada da safrinha do cereal mais cedo.

Isso, segundo o pesquisador, fez com que o milho perdesse uma situação de maior risco com temperaturas mais baixas no Paraná. "Quando ele é plantado mais cedo, reduz a possibilidade de geada e aspectos como esse vêm tornando a segunda safra muito compensadora, com algumas propriedades atingindo até 7,5 mil quilos por hectare, enquanto a média estadual vai de 5 mil a 5,5 mil quilos", afirma. Bianco destaca que nos últimos anos a tecnologia utilizada a campo cresceu, com adubação de cobertura com nitrogênio e a adequação da população de plantas. "No começo do plantio da safrinha, há alguns anos, não dava para plantar mais do que 45 mil pés por hectare. Hoje o recomendado, dependendo da cultivar, varia entre 50 mil e até 60 mil, sem comprometimento da produtividade".

Bianco, do Iapar: safrinha atingindo até 7,5 mil quilos/hectare em propriedades do Paraná

A escolha da cultivar mais ajustada para a região, segundo Bianco, é um dos principais pontos de sucesso. "Obedecer às instruções técnicas das empresas, tratar sementes e controlar doenças são recomendações básicas para obter o máximo. Na hora da escolha, não se informar apenas sobre produtividade, mas buscar saber sobre sanidade, tolerância à competição, se tem maior exigência por adubação ou não. Não adianta escolher uma boa cultivar se não seguir as recomendações para melhor desempenho", adverte.

Para os produtores do Centro-Oeste, as recomendações são parecidas. O pesquisador Rafael Zeni, da Fundação MT, explica que o plantio da safrinha em Mato Grosso vem contribuindo com o sistema em geral, pois colabora com a soja na safra seguinte. "Queremos manter as áreas planejadas, mas o produtor precisa ter cuidado com a escolha dos produtos. O investimento deve ser com o pé no chão. Principalmente quando falamos em genética. Ele precisa optar por itens que tenham estabilidade maior em períodos de mais risco em condições não ideais", ressalta. Zeni alerta que hoje existem mais de 400 materiais de milho no mercado, e buscar as informações sobre as cultivares e alocá- las onde se encaixam melhor.

No que diz respeito a doenças, a equipe da fundação realizou acompanhamentos e verificou que para algumas cultivares transgênicas é preciso utilizar manejo mais arrojado, voltando a controlar a lagarta-do-cartucho. "De dois a três anos para cá vem ocorrendo a perda de eficácia nas tecnologias e ele vai precisar fazer uma aplicação de inseticida. Tem que monitorar e fazer a aplicação quando precisar. As perdas de eficiência estão acontecendo com as tecnologias que já estão há mais tempo no mercado e que apresentam uma só proteína", destaca.

Já tecnologias que têm outras proteínas, com resistência cruzada, não perderam eficácia ainda. São recomendações básicas, que o produtor deveria sempre ter em mente. "Intervir sempre que necessário, fazer a área de refúgio – que ainda é a principal estratégia para evitar a perda da tecnologia –, e adquirir produtos convencionais para preservar", ensina Zeni. Ele observou também que alguns produtores fazem o refúgio, mas não da forma adequada, pois é preciso observar as distâncias e preparar a área de acordo com as recomendações da indústria.

Rafael, da Fundação MT: milho safrinha colabora com o sistema, como a soja da safra seguinte

"Todos saem ganhando se o procedimento for feito corretamente e o produtor terá a tecnologia a sua disposição por mais tempo".