Glauber em Campo

 

OS DESAFIOS DA SOJA EM 2015

Asafra de soja de 2014/15 está deixando uma grande parte de produtores muito preocupados no Brasil afora. Primeiro, a falta de chuva no final de setembro e no início de outubro impactou de forma negativa o plantio, que seguiu atrasado em boa parte das regiões produtoras do Brasil, com um impacto muito significativo no Mato Grosso. Os produtores da Região Central do Brasil, do Nordeste e em áreas isoladas no Sudeste iniciaram o ano sem chuvas. Sendo assim, o ano iniciou com preços baixistas e expectativa de perdas.

Claro que a redução da expectativa de produtividade nacional, até o momento, não refletiu nos preços, afinal, em algumas regiões a produtividade será elevada, como é o caso do Rio Grande do Sul, que segue com uma safra muito boa. Ou seja, mesmo uma redução de 2 milhões ou 3 milhões de toneladas nenhum impacto terá no mercado. Sendo assim, como sempre na agricultura, alegria de uns, tristeza de outros. Mas a realidade é uma safra de margens muito apertadas em virtude dos mais altos custos da história. Ou seja, seguem os velhos problemas e desafios, entre eles, o principal é a logística que pouco avança neste País.

Com esse cenário nada positivo e com a desvantagem do velho Custo Brasil, o produtor brasileiro deve colocar as barbas de molho, pois o futuro no curto prazo não é nada favorável para os produtores sul-americanos. Afinal, os norte-americanos têm vantagens competitivas relevantes, dólar em alta, preço de energia e commodities industriais em baixa, o que faz com que os produtores dos EUA optem por aumentar a área de soja em 3% a 5%, o que pressiona os preços da soja para baixo. Portanto, temos um cenário de rentabilidade para o produtor do Brasil – e em particular do Centro-Oeste – bem apertado.

Com esse cenário nada favorável para 2015, o produtor brasileiro tem como sempre o desafio de ser mais eficiente que os demais produtores mundo afora. As desvantagens competitivas aqui são maiores. Clima tropical com alto nível de pragas, logística de transporte precária, com alto custo de frete, preço do combustível, ferrugem, etc. Com tudo isso, resta apontar o lápis e fazer as contas para achar uma fórmula mágica de baixar custos e aumentar a produtividade.

A cada ano vemos aumentar a dificuldade de controle sanitário das lavouras. Pragas resistentes têm deixado os custos com inseticidas a níveis absurdos, tendo-se que usar um coquetel para se obter um controle satisfatório. A ferrugem torna-se um outro desafio, com o qual perdemos mais de R$ 10 bilhões ao ano com controle e perdas. E o pior é que o Governo que deveria ter uma política de controle sanitário com prioridades de pesquisa e aprovação de produtos de defesa, se faz ineficiente, o que penaliza a produção brasileira.

Fora os problemas e desafios dentro da porteira, temos que olhar e buscar avanços de fora da porteira. Precisamos avançar nas legislações e regulamentações que impactam na atividade agrícola. O registro de agrotóxicos é um tema prioritário. Já foi elaborada uma lista de produtos prioritários para a soja e o milho. O que se espera é que esses produtos tenham prioridade na fila de processos. A maioria busca equilíbrio de mercado por serem genéricos, precisamos buscar o aumento de competitividade dos produtos a fim de reduzir custos. Hoje os custos com defensivos ultrapassam os custos com fertilizantes.

Outro tema que precisamos de uma vez por todas ter um marco legal é referente ao trabalho rural. O PLS 432, que regulamenta o trabalho escravo, está na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. O projeto de lei estabelece conceitos claros do que é trabalho escravo, evitando que acúmulos de inconformidades de normas trabalhistas sejam usadas para enquadramento. É preciso de uma vez por todas deixar muito claro na lei, pois o produtor não pode continuar sujeito à subjetividade e à mercê do fiscal trabalhista.

A busca incessante da logística adequada será eterna. Imaginar que se tivéssemos ferrovias e hidrovias suficientes para escoar nossa produção, mesmo com o preço de Chicago em baixa, estaríamos pelo menos recebendo US$ 3 a mais na saca de soja. O importante é não desistir e através de nossas instituições continuar cobrando. Aí quem sabe um dia tenhamos o seguro rural que merecemos e a logística digna de um país exportador de alimentos.

Presidente da Câmara Setorial da Soja, diretor da Aprosoja e produtor
rural em Campos de Júlio/MT