O Segredo de Quem Faz

 

O líder da COOPAVEL

Quando Dilvo Grolli iniciou sua trajetória na Diretoria da Coopavel, na década de 1980, a cooperativa referência do Oeste paranaense enfrentava sérias dificuldades financeiras. De lá para cá, a situação mudou radicalmente e hoje a cooperativa fundada em 1970 por um grupo de 45 agricultores é uma das maiores empresas do agronegócio brasileiro, com mais de 5 mil funcionários e faturamento de R$ 1,6 bilhão. Diretor presidente da Coopavel desde 1995, o administrador de empresas e produtor rural Dilvo Grolli conta que dedica 95% do seu tempo para o trabalho na cooperativa e projeta crescimento e novidades para os próximos anos. No início deste mês, entre os dias 2 e 6, Grolli também é o anfitrião da 27ª edição do Show Rural Coopavel, tradicional evento de tecnologia agropecuária realizado pela cooperativa em Cascavel.

Denise Saueressig [email protected]

A Granja – Qual é a origem da sua ligação com o meio rural e com a Coopavel?

Dilvo Grolli - Sou filho de agricultores gaúchos. Meus pais vieram para o Paraná em 1951 e eu já nasci em Cascavel em 1953. Sou formado em Administração de Empresas na Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), mas nunca deixei de manter o vínculo com a agricultura. Meu pai é sócio desde a fundação da cooperativa e, portanto, tenho essa ligação importante com a Coopavel e com o cooperativismo desde criança. Eu e meus irmãos somos produtores rurais no Oeste do Paraná, onde produzimos soja, milho, trigo e bovinos de corte. Sempre participei ativamente na comunidade de Cascavel, desde a época de estudante na universidade. De 1985 até 1989, fui diretor secretário da Coopavel, de 1989 a 1994, trabalhei como diretor vice-presidente e, desde 1995, estou na presidência, ou seja, cumprindo o sexto mandato. Dedico 95% do meu tempo à Coopavel. Mantenho as minhas propriedades, com as atividades agrícolas, mas tenho uma organização e uma equipe de trabalho que me dá tranquilidade para me dedicar ao trabalho na cooperativa.

A Granja – Quais foram as mudanças e evoluções mais significativas que ocorreram na cooperativa desde o início da sua trajetória na Diretoria?

Grolli – Em 1985, a Coopavel era uma cooperativa com sérios problemas ocasionados por erros administrativos e pela falta de projetos. O resultado foi um processo de extrema dificuldade financeira. Tanto que a minha entrada foi com a função de trazer pessoas novas para a cooperativa para tentar salvá-la. De lá pra cá, muita coisa mudou. Na época, eram 700 funcionários e, hoje, são mais de 5 mil funcionários. Trabalhamos em seis campos específicos: insumos, grãos, carne de frango, carne suína, carne bovina e processamento de trigo. O próximo projeto, entre 2020 e 2040, é o crescimento desses setores e a possibilidade da entrada de um ou dois novos setores. A cooperativa cresceu, como empresa eficiente e competitiva, e em parceria com o produtor rural, que também precisa de mais eficiência na sua produtividade, escala de produção e melhorias tecnológicas.

A Granja – O senhor já tem uma ideia de quais podem ser esses novos segmentos de atuação da cooperativa?

Grolli – Acredito que temos que viver em busca de novos desafios para que possamos crescer e criar oportunidades de renda e negócio para o produtor rural. Se hoje temos seis campos consolidados, não podemos ficar deitados em berço esplêndido sem buscar novas oportunidades para a cooperativa e para o produtor. É uma necessidade de uma empresa que busca o crescimento. Vários produtos estão em análise, mas não temos nada concreto ainda. É um processo demorado, que também demanda pesquisa de mercado.

A Granja – O senhor comentou sobre os problemas financeiros que afetavam a Coopavel na década de 1980. De que forma essas questões foram trabalhadas e resolvidas?

Grolli – Primeiro adotamos um novo modelo de administração, com participação mais ativa dos associados. Nosso objetivo era tornar a cooperativa mais eficiente, com redução de custos, escala de produção e competitividade no mercado nacional e, depois, internacional. Trabalhamos por eficiência na área comercial e industrial com projetos de rentabilidade para o produtor e para a cooperativa. Até 1985, por exemplo, a exportação era apenas de grãos. A partir de 1990, passamos a exportar também óleo e farelo e, a partir de 1995, iniciamos na exportação de carnes. Assim, abrimos oportunidades com diversificação. Hoje, dos nossos seis segmentos de atuação, nenhum pode ultrapassar os 25% do faturamento. Essa é uma atitude que visa ao equilíbrio das contas e à tranquilidade caso um produto entre em crise em um determinado momento.

A Granja – Qual é a estrutura da Coopavel atualmente?

Grolli – A Coopavel conta com 4.250 produtores rurais e 26 filiais de recebimento e distribuição de insumos no Paraná. Nossos associados produzem em uma área de cerca de 400 mil hectares. Movimentamos mais de 720 mil toneladas de grãos ao ano e mantemos um complexo industrial com dez indústrias: três de ração, um frigorífico de frango, um frigorífico de suínos, uma planta de bovinos, uma unidade de beneficiamento de sementes, uma indústria de esmagamento de soja, uma indústria de fertilizantes e uma indústria de moagem de trigo. Este ano, teremos a abertura de mais duas filiais e a ampliação de 20% no segmento da avicultura. As indústrias de ração produzem mais de 400 mil toneladas ao ano. O abate de frango é 200 mil frangos ao dia, o abate de suínos é de 1 mil cabeças ao dia, e o de bovinos soma 200 cabeças ao dia. Além disso, são produzidas 260 mil sacas de sementes ao ano, o esmagamento de soja soma 240 mil toneladas ao ano, a produção de fertilizantes é de 120 mil toneladas ao ano e a moagem do trigo é de 130 mil toneladas ao ano. Para os próximos anos, até 2020, vamos crescer de 200 mil para 300 mil frangos ao dia e de 1 mil para 1,5 mil suínos ao dia. A produção de fertilizantes deve passar para 170 mil ou 180 mil toneladas ao ano. Algumas indústrias estão no limite, mas outras podem crescer. Essa é mais uma razão para procurarmos investir em novos projetos.

A Granja - Qual é a previsão de crescimento para o faturamento da cooperativa em 2015?

Grolli – Em 2014, nosso faturamento somou R$ 1,64 bilhão, um crescimento de 5% sobre 2013. Para este ano, a expectativa é de um faturamento de R$ 1,8 bilhão.

A Granja - Quais são as expectativas para esta edição do Show Rural?

Grolli – O Show Rural é um evento tradicional, estamos na 27ª edição e esperamos reunir em torno de 220 mil pessoas este ano. O número de empresas participantes, que foi 440 no ano passado, agora é de 480. E há uma lista de espera de mais de 80 empresas. Limitamos a participação, porque é um evento de tecnologia. O visitante deve vir e encontrar as melhores tecnologias e inovações. As pessoas terão a oportunidade, como jamais tiveram, de encontrar tecnologias que serão incorporadas às propriedades rurais nos próximos anos. O produtor precisa ter essa visão para se preparar para o futuro. O Show Rural é um dos maiores eventos da América do Sul e já é reconhecido mundialmente. Tem por base uma boa prestação de serviços aos expositores e visitantes. Cabe à Coopavel fazer com que o evento apresente tecnologias de última geração, porque é isso que o nosso agronegócio precisa: inovação, produtividade, escala de produção, sustentabilidade, diversificação, e utilização do meio ambiente com preservação e de maneira muito produtiva.

A Granja - Em 2014, as vendas de máquinas agrícolas apresentaram retração. Muitos avaliam que foi um movimento normal em função de 2013, que foi excepcional. O que o senhor espera para esse mercado em 2015, considerando que uma das atrações do Show Rural é o negócio envolvendo máquinas agrícolas?

Grolli - As vendas em 2013 cresceram acima da média e, em 2014 entramos em uma normalidade. Esse cenário não deverá ser diferente em 2015, considerando também uma realidade de incorporação entre 1 milhão e 2 milhões de hectares de novas áreas. Por isso, acredito em um número muito parecido com o do ano passado ou até um pouco superior a 2014.

A Granja – Quais são as perspectivas para a atual safra para o produtor paranaense?

Grolli - O Paraná é o segundo maior produtor de grãos do Brasil e devemos colher uma safra próxima de 38 milhões de toneladas. O clima é de regular para bom. Devemos ter boas produtividades de soja e um menor plantio de milho na primeira safra, mas que deve ser compensado com aumento no cultivo do cereal na segunda safra. Na região da Coopavel, já temos pedidos que indicam alta de 30% na área com milho na segunda safra. O preço da soja está bom e o do milho está em recuperação. Na lavoura de trigo, onde o Paraná é o maior produtor, foram colhidas cerca de 4 milhões de toneladas no ano passado. O preço do cereal está em recuperação e deve servir de estímulo para o plantio em abril e maio. O Paraná é líder na produção de frangos e deve continuar nesse ritmo. A produção de leite também deve ficar boa em 2015, mas com algumas dificuldades no preço. O estado é o terceiro maior produtor de suínos do Brasil, estamos com bons preços e assim deve permanecer o cenário para os próximos meses. Na bovinocultura de corte, somos apenas o 10º produtor, mas temos um mercado em torno de 10 milhões de consumidores para abastecer. De uma forma geral, as perspectivas são positivas para o agronegócio este ano. O valor do dólar, em torno de R$ 2,60 ou R$ 2,80 também deve ajudar na atividade, já que somos fortes na exportação.

A Granja – E quais são as principais dificuldades e reivindicações dos produtores da região?

Grolli – Nossos problemas são aqueles enfrentados em praticamente todas as regiões produtoras do País. Temos uma questão séria, que é a deficiência na estrutura logística. Precisamos de um modal mais eficiente e de custos menores para o escoamento da safra e, por isso, precisamos ampliar as ferrovias. Outro entrave é a burocracia quanto às nossas exportações, à colocação das mercadorias no mercado. A carga tributária no Brasil, de 36%, também afeta o desempenho de toda a economia. Na agropecuária, a carga tributária fica entre 12% e 15%, enquanto temos países que têm entre 4% e 6%. O seguro rural é outra questão que preocupa. A subvenção precisa ser suficiente para atender todos os produtores, tanto no verão, quanto no inverno. O Plano de Safra não pode ser resumido no anúncio de recursos. Precisamos de um seguro compatível com a atividade e da garantia de preços mínimos no dia e na hora que o produtor precisa, como o momento da colheita.

A Granja - O que o senhor espera desse novo mandato da presidente Dilma Rousseff? E, ao mesmo tempo, quais as expectativas em relação à ministra Kátia Abreu?

Grolli - O agronegócio é a alavanca da economia nacional, exportando entre US$ 90 e US$ 100 bilhões ao ano e importando menos de US$ 20 bilhões. Nos últimos quatro anos, deixamos um saldo positivo na balança comercial acima de US$ 80 bilhões. No entanto, esse dinheiro está sendo gasto com a importação de outros produtos, pagamento de dívidas do Governo e também transferência de recursos de multinacionais para fora. Hoje produzimos em torno de 200 milhões de toneladas de grãos, mas podemos crescer mais 30% até 2020. Temos os recursos para isso, como terra disponível, vocação dos produtores e um bom parque de máquinas. O que precisamos é que o Governo olhe para as questões de logística, excesso de burocracia e carga tributária. Afinal, o agronegócio, além dos resultados das exportações, ainda cresce entre 3% e 5% no mercado interno. Se não fosse o agronegócio, o crescimento brasileiro não seria zero, mas sim menos 4 ou menos 5. Queremos o reconhecimento do trabalho do agronegócio para a economia e a resolução dos gargalos. Existe uma grande demanda mundial por alimentos, mas essa demanda está limitada aos países que têm competitividade, ou seja, que sejam capazes de atender os mercados com eficiência. Esperamos do Governo esforços para inserir de forma mais intensa nossos produtos em outros países, com novas aberturas de mercado.

Muitas vezes recebemos anúncios de abertura, mas o que ocorre é uma longa demora para o processo ser concretizado. Sobre a nomeação da ministra, acredito que foi um ato pessoal da presidente, e as cooperativas não foram ouvidas sobre o cargo. É uma pessoa ligada ao agronegócio, mas nós gostaríamos de ter falado em alguns nomes, ter a oportunidade de ter feito isso. De qualquer forma, desejamos muitas felicidades a ela e sucesso no cargo.