Arroz

 

Pragas mais DANOSAS das lavouras irrigadas

No enfrentamento das pragas do arroz, deve-se manejar adequadamente a lavoura por meio de uma série de estratégias a serem adotadas desde antes da semeadura até durante o ciclo da cultura. O monitoramento da lavoura é um princípio fundamental

Engenheiros agrônomos Danielle Almeida e Rodrigo Schoenfeld, pesquisadores do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), e Engenheiro agrônomo Jaime Vargas de Oliveira, pesquisador da Unitec

A bicheira-da-raiz é um dos insetos-pragas mais importantes, uma vez que ocorre em todo o ano, podendo atingir altos níveis populacionais e causar a redução do rendimento de grãos

A lavoura de arroz irrigado é atacada por diferentes insetos-pragas que possuem potencial para atingir níveis populacionais de dano econômico. A planta de arroz pode ser atacada nos seus vários estágios de desenvolvimento, em diferentes partes e por diferentes grupos de insetos ou outros fitófagos. Desse modo, é muito importante manejar adequadamente a lavoura, não somente quando da ocorrência das pragas, mas através de estratégias que podem ser adotadas pelo produtor antes da semeadura e também ao longo do ciclo da cultura. A principal praga de ocorrência em lavouras de arroz irrigado é o gorgulho-aquático/bicheira-da-raiz (Oryzophagus oryzae), um dos insetos-pragas mais importantes, pois ocorre todo o ano, podendo atingir altos níveis populacionais e causar a redução do rendimento de grãos.

Os adultos são de cor acinzentada e alimentam-se das folhas, deixando marcas longitudinais brancas, mas são as larvas que causam maiores prejuízos. As fêmeas ovipositam nos colmos e após eclodirem, as larvas levam um a dois dias para chegarem às raízes, onde de fato se dá a interferência direta. As larvas podem ser encontradas cortando as raízes a partir de 15 dias após a entrada da água na lavoura, mas a maior infestação se dá entre 25 e 45 dias, sendo que após esse período pode haver uma nova infestação. As larvas preferem as raízes mais novas, que são mais eficientes na absorção de nutrientes.

Os principais sintomas nas plantas atacadas são tamanho reduzido, folhas com coloração amarelada e as plantas são facilmente arrancadas. A maior intensidade de infestação das larvas é verificada em locais próximos a entrada de água e em pontos da lavoura onde a lâmina de água é mais alta. Os adultos, após a hibernação, a partir dos meses de agosto a dezembro, com o aumento da temperatura, vão para a lavoura. Sendo assim, as primeiras lavouras de arroz instaladas dentro do período recomendado são as mais afetadas.

A planta de arroz pode ser atacada nos seus vários estágios de desenvolvimento, em diferentes partes e por diferentes grupos de insetos ou outros fitófagos

O pulgão-da-raiz (Rhopalosiphum rufiabdominale) é um dos principais insetos-praga da região da Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul. Ocorre nas áreas semeadas no início da estação de cultivo do arroz, nos sistemas de cultivo mínimo e convencional. Solos mais arenosos ou com muitos torrões favorecem a infestação de insetos. O ataque inicia antes da irrigação, principalmente nas plantas das taipas. Formam colônias nas raízes sugando a seiva, assim, as folhas apresentam clorose, murcham e morrem. Conforme o nível de infestação, pode haver redução da população de plantas, afetando o estabelecimento da cultura.

Lagartas — As principais lagartas que causam danos à cultura do arroz são a lagarta-da-folha (Spodoptera frugiperda) e a lagarta-da-panícula (Pseudaletia sequax e P. adultera). A lagarta-da-folha ocorre esporadicamente em todas as regiões orizícolas do Rio Grande do Sul. O ataque pode ocorrer tanto antes como também depois da irrigação da lavoura de arroz. Quando o ataque ocorre antes da inundação, as lagartas alimentam-se das folhas e também cortam os colmos no nível do solo, causando a redução do estande de plantas. Quando a lavoura já está irrigada, o dano está relacionado à diminuição da aérea foliar das plantas. Antes da irrigação, nos dias com altas temperaturas, as lagartas ficam sob torrões. As lagartas que apresentam tamanho entre 1 e 3,5 centímetro provocam maiores danos, podendo ocorrer redução de 1% no rendimento de grãos por lagarta por metro quadrado.

A lagarta-da-panícula preocupa pelos grandes prejuízos ao atacar as plantas desde a emissão da panícula até a colheita. Durante o dia, a lagarta se abriga na parte inferior das plantas, sendo difícil a sua identificação. À noite, sobem para atacar as panículas. A estimativa é de que a cada uma lagarta por metro quadrado pode ocorrer redução de produtividade de 3%.

Percevejos — Os percevejos são insetos sugadores e as principais espécies que ocorrem no arroz irrigado são o percevejo-do-colmo (Tibraca limbativentris) e o percevejo-do-grão (Oebalus poecilus e O. ypsilongriseus). O percevejo-do-colmo causa danos tanto na fase vegetativa como também na fase reprodutiva da cultura do arroz irrigado. Na fase vegetativa, o sintoma é conhecido como “coração morto”, onde se observa um ponto com coloração marrom, no local onde o percevejo suga a seiva, e ocorre a morte da folha central da planta de arroz. Quando o dano é na fase reprodutiva, provoca a formação da panícula branca ou a esterilidade parcial dos grãos de arroz. Áreas da lavoura não irrigadas podem favorecer o ataque do inseto. Quanto à hibernação, os adultos abrigam-se nos restos culturais, nas plantas daninhas ou cultivadas, sendo o principal hospedeiro o rabo-de-burro (Andropogon sp.). Em média, um percevejo por metro quadrado pode causar 1,5% de redução na produtividade de grãos.

O percevejo-do-grão ocorre em focos na lavoura, sendo que o ataque por ninfas e adultos acontece desde o início da formação do grão até o seu amadurecimento. Espiguetas atacadas no estádio de grão leitoso tornam-se vazias, quando o ataque ocorre no estágio de massa firme, os grãos apresentam- se gessados e com manchas escuras. Nos meses de temperaturas mais baixas, os adultos hibernam nas plantas daninhas próximas às lavouras e a partir de setembro pode ocorrer infestações nessas plantas daninhas, que posteriormente podem atacar as plantas de arroz da lavoura.

Na semeadura do arroz realizada no sistema pré-germinado, os caramujos têm causado danos severos. No Rio Grande do Sul, foram identificadas as espécies Pomacea canaliculata, Physa marmorata e Biomphalaria tenagophila, sendo que a P. canaliculata é a que mais causa danos. A ocorrência na lavoura é mais acentuada nos canais de irrigação, nas entradas de águas e em pontos onde há maior acúmulo de água na fase de implantação da cultura. Os caramujos atacam as plântulas durante o dia e durante a noite, comprometendo o estabelecimento da cultura. Apenas três caramujos podem acabar com uma área de um metro quadrado de plantas de arroz em apenas 24 horas.

Manejo e controle — Para evitar a ocorrência de insetos-pragas e outros fitófagos, é imprescindível o monitoramento da lavoura. Deve-se monitorar a lavoura abrindo as plantas para localizar os insetos, levantando os torrões de solo, arrancando plantas e verificando as raízes. As amostragens devem ser efetuadas no final da tarde, que é o momento em que os insetos estão mais visíveis, evitar dias com altas temperaturas, muita luminosidade e com vento. No controle de bicheira-da-raiz, manter a lâmina de água baixa e executar um bom preparo do solo, eliminando as depressões do terreno, para evitar acúmulo de água em maiores profundidades e destruir possíveis sítios de hibernação. No caso de controle químico, pode ser feito o tratamento de sementes ou pulverizações de inseticidas indicados para o controle do inseto, registrados para a cultura.

No caso de pulgões, por atacarem as plantas principalmente antes da inundação, havendo disponibilidade de água, é recomendado antecipar a irrigação para diminuir a população do inseto. Em relação à lagarta-da-folha, em ataques na fase inicial de desenvolvimento das plantas, se possível, promover a entrada da água para reduzir a população da lagarta. Quando necessário, pode ser realizada a pulverização de inseticidas específicos, registrados para a cultura. Já para evitar ataques da lagarta-da-panícula, em lavouras que já foram infestadas, os restos culturais devem ser destruídos por meio de preparo do solo ou pastoreio. Quanto ao controle químico, é necessário observar atentamente o período de carência do inseticida recomendado para o seu controle, a fim de evitar resíduos nos grãos.

Para controlar percevejos, é recomendada a eliminação de sítios de hibernação como restos culturais e plantas daninhas próximas à lavoura, durante e após o cultivo do arroz, a fim de eliminar focos e reduzir a infestação remanescente em áreas infestadas. Isso pode ser feito por meio de pastoreio, destruição de taipas e preparo antecipado do solo. O controle químico pode ser realizado com a pulverização de inseticidas específicos, registrados para a cultura.

No caso de caramujos, não existem produtos químicos registrados para o seu controle no Ministério da Agricultura. As principais práticas a serem seguidas são a coleta e eliminação de posturas, o preparo do solo com enxadas rotativas para destruir a população de moluscos, a limpeza e drenagem dos canais de irrigação e a colocação de telas nos canais de irrigação para evitar a entrada de caramujos via água de irrigação. Como alternativa, também é recomendada a implantação de poleiros nas lavouras para facilitar a captura de caramujos pelo predador gavião-caramujeiro e a introdução temporária do marreco-de-pequim em pós-colheita.

É muito importante proporcionar condições para que os inimigos naturais exerçam a ação de parasitar ou predar e assim manter a população dos insetos em equilíbrio, em níveis que não provocam danos, evitando que as pragas com maior potencial de migração ou reprodutivo ressurjam com alta intensidade. A ressurgência ocorre devido ao uso de inseticidas não seletivos. Portanto, o produtor deve aplicar produtos que ocasionem menor impacto no ambiente, eficientes e com registro para a cultura.