Eduardo Almeida Reis

 

SETENTA

Jacó, sobrinho de Labão, trazia de olho a prima Raquel, atento à lição de que primos e pombos é que sujam a casa. Labão, pai de duas filhas, empurrou a outra, chamada Lia, no colo do sobrinho, que só mais tarde conseguiu desposar Raquel. Labão era chefe dos arameus, povo semita que vivia em Aram, na antiga Síria, e na Mesopotâmia. Os arameus pintaram no pedaço histórico por volta de 1500 anos antes de Cristo, falavam aramaico e a sua língua teve papel destacado no mundo da cultura e da religião.

Tanto assim que Camões (1524- 1580) poetou: “Sete anos de pastor Jacó servia/ Labão, pai de Raquel, serrana bela/ Mas não servia ao pai, servia a ela/ que ela só por prêmio pretendia”. Antes que o leitor pense que fiquei maluco, devo explicar que os primeiros versos do soneto camoniano vêm a propósito do seguinte: Jacó serviu seu tio Labão durante sete anos, enquanto A Granja serve ao agricultor brasileiro há 70 anos, sendo a revista mais antiga em circulação contínua neste país.

Informado pelo editor e amigo Leandro Mariani Mittmann de que este número seria comemorativo dos primeiros 70 anos da revista, fui aos arquivos encadernados e descobri que minha primeira crônica data de abril de 1979, inteirando daqui a três meses exatos 35 anos de colaboração cordial e ininterrupta. Minha crônica cuidava do linguajar falado em nossa fazenda fluminense, diferente do ruralês usado em outras regiões do Brasil. Lida hoje pelo fazendeiro que a escreveu há tantos anos é um pavor, pelo tanto de vírgulas com que salpintei o texto. Por qualquer motivo e até sem motivo virgulei adoidado. Crônica imensa em letrinhas miúdas, diferente das atuais de 750 palavras, que permitem fontes maiores, mais fáceis de ler. “Escrever é cortar palavras”, disse o poeta Carlos Drummond de Andrade, mas o corte não pode ser muito grande sob pena de o cronista mandar a página em branco.

A diferença no linguajar persiste, mas as coisas mudaram muito nesses quase 35 anos. Escrita à máquina, a crônica seguia pelos Correios; hoje viaja pela Internet na velocidade da luz. As vacas tinham um filho por ano; hoje podem ter vários com as barrigas de aluguel. No Brasil, eram raríssimas as fazendas que produziam 8 mil quilos de leite/dia. Tempos atrás, fiz matéria aqui para A Granja sobre uma fazenda mineira que produzia mais de 50 mil quilos de leite/dia. Em todos os terrenos foi espantoso o aumento da produtividade graças à Embrapa, criação do ex-ministro Alysson Paulinelli, mineiro de Bambuí, hoje ilustrado colaborador de A Granja.

Através desta revista fiz um caminhão de amigos e, felizmente, uns poucos inimigos. Deles, disse o padre Vieira: “Mofino e miserável aquele que não os teve. Ter inimigos parece um gênero de desgraça, mas não os ter é indício certo de outra muito maior...”. Sêneca caprichou: “Miserum te judico quia non fuiste miser: transiisti sine adversario vitam”, algo assim como “eu te julgo por infeliz e desgraçado, porque nunca o foste: passaste a vida sem inimigos”. E Temístocles, em seus primeiros anos, andava muito triste. Perguntado pela causa, quando era amado e estimado por toda a Grécia, respondeu: “Por isso mesmo; sinal é o ver-me amado por todos que ainda não tenho feito ação honrada que me granjeasse inimigos”.

O texto de hoje está bíblico, poético e filosófico, até porque é preciso filosofar em um aniversário tão raro e importante. Sempre me lembro com muita saudade de Hugo Hoffmann. Seus filhos, que hoje dirigem a revista, conheci meninos. Várias vezes estive em Porto Alegre durante a Exposição de Esteio pela entrega do Prêmio Destaques A Granja do Ano.

Nessas andanças conheci duas belas gaúchas que me falaram à alma sempre carente de afeto. Casado, três filhas pequenas, resisti aos apelos emocionais menos pela sem-vergonhice, que sempre foi muito grande, do que pelo frio que faz no Sul durante o inverno. Detesto frio. Não por acaso, uma das cidades mais frias do RS chama-se São José dos Ausentes, 1.200 metros acima do nível do mar, que tem pouco mais de 3.000 ausentinos. Os outros se ausentaram fugindo do frio.

Este septuagésimo aniversário não é festa só da revista. É, também e muito, do agronegócio brasileiro, de todos os que trabalham no campo para exportar mantimentos e alimentar as cidades lutando contra as deficiências dos transportes, os sucessivos desgovernos, os impostos, a burocracia, a demagogia, as injustiças, a corrupção. Palmas para A Granja!