Herbicida 2,4-D

A importância do uso do 2,4-D no PD

O herbicida à base do 2,4-D destaca-se em função do largo espectro de controle de daninhas de folhas largas e da baixa volatilidade, e tem sido considerada uma molécula essencial para a dessecação de manejo nas áreas de plantio direto

Robinson Antonio Pitelli, professor titular da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Umnesp, Jaboticabal/SP, e parceiro da Iniciativa 2,4-D

O plantio direto é fundamental para a melhoria dos solos agrícolas e conservação da natureza, e o 2,4-D é um herbicida essencial para esse sistema de plantio

O controle de plantas daninhas é, sem dúvida, o mais antigo desafio fitossanitário que o homem enfrentou em suas atividades agrícolas. Com o desenvolvimento da sociedade humana, as comunidades de plantas daninhas foram se tornando cada vez mais densas, diversificadas e especializadas na ocupação dos agroecossistemas, passando a interferir profundamente nas atividades agrícolas. O controle dessa vegetação passou a ser fundamental para que fosse mantido o potencial produtivo das culturas agrícolas e florestais e pastagens, pois competem diretamente pelos recursos de crescimento, interferem na colheita e depreciam a qualidade do produto.

Os métodos de controle das plantas daninhas passaram por grande evolução desde a catação manual (monda) até a introdução das plantas geneticamente modificadas para tolerância a herbicidas de largo espectro de ação. Todas as modalidades de controle tiveram seu impacto sobre a comunidade de plantas daninhas, desde a monda, que selecionou plantas morfologicamente similares; a capina e o cultivo, que permitiram a expansão das plantas com regeneração vegetativa; até os modernos herbicidas, que permitem a seleção de flora e o desenvolvimento de populações resistentes.

Nessa evolução das modalidades de controle de plantas daninhas, os métodos mecânicos que envolviam a mobilização do solo foram os que causaram maiores danos ambientais, especialmente pela exposição direta do solo aos raios solares e ao impacto das chuvas, promovendo rápida oxidação de matéria orgânica e intenso processo erosivo eólico e laminar. Várias consequências negativas foram observadas, como a redução da fertilidade natural dos solos, redução da biota edáfica e assoreamento dos corpos hídricos.

Essas perdas ambientais começaram a ser revertidas com a introdução do plantio direto, no qual não há qualquer mobilização física do solo, mantendo- o protegido contra a ação dos ventos e das enxurradas e há o retorno do acúmulo de matéria orgânica humificada na camada superficial.

A larga adoção de sistemas de produção agrícola baseados no plantio direto e da rotação de culturas foi responsável pela espetacular evolução da agricultura brasileira, a qual elevou a renda e a sustentabilidade nas regiões de agricultura intensiva do País. A Organização para Agricultura e Alimentação das Nações Unidas (FAO) considera o plantio direto como a mais importante prática de sustentabilidade ambiental até agora adotada em áreas de agricultura intensiva.

Sistema de plantio direto — O sistema de plantio direto aplica-se sem a mobilização de suas partes subterrâneas, mantendo a integridade da estrutura do solo. O controle de plantas daninhas é viabilizado mais efetivamente pelo uso de herbicidas que controlam totalmente essas plantas. A biomassa subterrânea morta contribui para o enriquecimento da matéria orgânica em profundidade, ou seja, a biomassa aérea morta fica depositada na superfície do solo, onde vai se decompondo aos poucos e enriquecendo as suas camadas superficiais.

A cobertura morta contribui para reduzir as incidências de determinadas plantas daninhas, constitui barreira física para a perda de água e reduz a amplitude de variação térmica na camada mais superficial do solo, com reflexos positivos na sua atividade biológica. O sistema de plantio direto, como afirma a FAO, apresenta uma série de benefícios ambientais, incluindo a maior retenção e infiltração da água no solo, a redução da erosão e da perda de nutrientes por arrasto para as partes mais baixas do terreno, evita o assoreamento de rios, ajuda a enriquecer o solo mantendo a matéria orgânica na superfície por mais tempo, reduz a compactação e aumenta a atividade biótica da camada superficial.

O plantio direto é um sistema que permite menor uso de combustíveis fósseis e aumenta o estoque de carbono no sistema, contribuindo para a sustentabilidade ambiental em nível global. Segundo observações de limnólogos que estudam a bacia do Rio Paraná, a adoção do plantio direto no estado do Paraná reduziu expressivamente a erosão laminar e, em consequência, houve significativa melhoria na qualidade da água, principalmente sua transparência, o que permitiu o aumento de colonizações de macrófitas submersas com efeitos bastante positivos à biota aquática.

Alguns agentes de controle químico atuam predominantemente nas partes atingidas pela calda, sem translocação expressiva na planta e são denominados de herbicidas de contato. Estes produtos são muito rápidos e eficientes na eliminação da parte aérea, mas com frequência não atingem o sistema radicular e permitem a rebrota de muitas plantas daninhas importantes. Outros herbicidas são translocados para as partes subterrâneas e a recuperação posterior das plantas daninhas é praticamente negligenciável. É muito importante que os restos culturais e plantas daninhas sejam totalmente eliminados antes do plantio da nova cultura para evitar competição com as plantas cultivadas em sua fase inicial de crescimento.

O uso do 2,4-D — Neste contexto do plantio direto, o 2,4-D é um herbicida muito importante em função de seu largo espectro de controle de plantas daninhas de folhas largas e baixa volatilidade, além da pequena dependência do estágio de desenvolvimento por ocasião da aplicação. Tem sido considerada uma molécula essencial para o sucesso da dessecação de manejo nas áreas de plantio direto na palha e é compatível para associação com herbicidas com outros espectros de ação, para uma dessecação mais efetiva.

O 2,4-D pode ser absorvido pelas folhas, caule e raízes e é de translocação sistêmica, acumulando nos meristemas apicais do caule e da raiz. É um herbicida do grupo das auxinas e provoca intensa divisão celular na planta, promovendo multiplicação e engrossamento de raízes, formação de gemas múltiplas, encurtamento das nervuras das folhas e curvatura dos ponteiros da planta resultante do maior crescimento da sua parte superior nas espécies de folhas largas, promovendo um sintoma conhecido por epinastia

No controle de infestações mistas constituídas por plantas daninhas jovens, o 2,4-D pode ser aplicado em combinação com herbicidas de contato, mas quando a dessecação é realizada em vegetação de maior porte, pode ocorrer o efeito guarda-chuva, e o 2,4- D deve ser combinado com outro herbicida de ação sistêmica, como o glifosato. Assim, o 2,4-D pode ser aplicado em ambas as condições. Esse comportamento do herbicida permite grande versatilidade ao agricultor e o torna independente de fatores aleatórios que levam a alterar as épocas de aplicação.

O plantio direto é fundamental para a melhoria dos solos agrícolas e conservação da natureza e o 2,4-D é um herbicida essencial para esse sistema de plantio. É utilizado em praticamente 70% das áreas de dessecação para o plantio direto no Brasil e é fundamental no manejo de certas plantas daninhas resistentes a outros herbicidas sistêmicos, como é o caso da buva (Conyza spp).

Segundo parecer do Ministério da Agricultura, Pecuária e do Agronegócio (Mapa), esse herbicida é registrado em mais de 70 países e é utilizado no Brasil desde 1960. Quando sua utilização segue as recomendações de rótulo e está inserida em boas práticas agrícolas, o 2,4-D não apresenta risco às culturas vizinhas ou subsequentes, ao meio ambiente e à saúde do trabalhador. Por exemplo, no plantio da soja, é recomendado estabelecer um intervalo de dez dias entre a dessecação e a semeadura dessa cultura. Obedecido esse intervalo, o risco de danos à soja é negligenciável. Na utilização de formulações modernas com tecnologia de aplicação recomendada, não há risco importante de deriva para outras culturas.

As indústrias produtoras do 2,4-D sempre procuraram aprimorar as formulações para minimização qualquer probabilidade de risco com o desenvolvimento de moléculas menos voláteis, formulações com menor possibilidade de deriva e maior facilidade de degradação microbiana no solo. O 2,4- D é bastante seguro e tem sido muito utilizado no plantio direto, durante o ciclo de culturas gramíneas e pastagens, sem relatos de problemas em culturas vizinhas ou subsequentes. O agricultor brasileiro hoje é suficientemente preparado para trabalhar com herbicidas altamente técnicos como o 2,4-D, fazendo o uso de modernas tecnologias de aplicação e respeitando as condições climáticas.

O 2,4-D tem registro para as culturas do arroz, aveia, café, cana-deaçúcar, centeio, cevada, milho, soja, sorgo e trigo, para dessecações de manejo e de pré-plantio e, em pós-emergência para as culturas gramíneas. Segundo dados do Mapa, em maio de 2014 essas culturas utilizaram uma área de 62,522 milhões de hectares, dos quais 60,211 milhões são ocupados com culturas anuais e cana-de-açúcar.

O herbicida 2,4-D é utilizado em praticamente 70% das áreas de dessecação para o plantio direto no Brasil e é fundamental no manejo de certas plantas daninhas resistentes a outros herbicidas sistêmicos

Recuperação da biologia do solo — Durante as décadas de uso do plantio direto no Brasil e no mundo, foi observada uma verdadeira recuperação da atividade biológica de solos agrícolas, com aumentos na atividade e diversidade da microbiota do solo, anelídeos, pequenos roedores, estruturas tróficas mais complexas e efetivas, aves, tatus e outros animais. Em todo esse período, a dessecação química foi efetuada e o 2,4-D utilizado na maior parte da área, sendo possível inferir que esse herbicida não impediu que o plantio direto manifestasse seus efeitos benéficos ao meio ambiente do solo. A recuperação não se restringe apenas aos organismos do solo. O exemplo bastante citado é o da coruja-buraqueira (Athene cunicularia), cuja população adap- O herbicida 2,4-D é utilizado em praticamente 70% das áreas de dessecação para o plantio direto no Brasil e é fundamental no manejo de certas plantas daninhas resistentes a outros herbicidas sistêmicos tou-se e aumentou bastante em áreas de plantio direto. Esse aumento populacional é decorrente da manutenção de nichos para nidificação e abundância de alimentos, como insetos e pequenos roedores.

Um dos grandes indicadores da segurança ambiental do 2,4-D é seu registro e uso para o controle de plantas daninhas aquáticas em lagos e reservatórios em muitos países, como os EUA, incluindo reservatórios para armazenamento de água para consumo humano. O 2,4-D tem grande importância para a agricultura brasileira em função de sua segurança ambiental, boa relação custo- benefício, eficácia no controle de plantas daninhas, incluindo as resistentes a outros herbicidas, e a viabilização do plantio direto, a mais importante prática de agricultura sustentável em grandes áreas de cultivo.

O plantio direto é fundamental para a melhoria dos solos agrícolas e conservação da natureza, e o 2,4-D é um herbicida fundamental para esse sistema de plantio.