Luiz Fernando Cirne Lima

 

A nova MOLA do agronegócio

“Podemos dobrar nossa produção sem tocar nos 400 milhões de hectares da Amazônia. A ideia do desmatamento zero tende a se tornar dominante”

Luiz Fernando Cirne Lima, livre docente em Zootecnia e produtor rural, ex-ministro da Agricultura

Há poucos meses, em uma palestra para agricultores em Santa Rosa/RS, o berço da soja no Brasil, na conversa depois do almoço perguntei qual a expectativa deles para o rendimento da soja. Um agrônomo-produtor, sorridente, disse que tirar menos de 70 sacas por hectare virou motivo de “vergonha” naquela região, onde já se trabalha com a meta de produzir 100 sacas por hectare ou, seja, seis mil quilos.

Ora, isso é quase o dobro do que se produz em Illinois e Iowa, os estados que iniciaram a fixação da soja no continente norte-americano, um século atrás. Por aí se vê a realização dos agricultores brasileiros no cultivo da oleaginosa, a partir do final dos anos 1960. Com um eficiente crédito rural e a tecnologia, principalmente gerada pela Embrapa, o plantio de soja resultou em uma revolução que tornou produtivas as terras do Cerrado brasileiro, antes consideradas impróprias para a agricultura.

Guardadas as proporções, a soja está se constituindo para o Brasil o mesmo que o milho foi, e é, para os EUA. Mas não devemos olhar a situação isoladamente e, sim, como parte da integração lavoura-pecuária, que vem dando uma nova dinâmica ao agronegócio brasileiro. Temos um rebanho bovino estimado em 190 milhões de cabeças que utiliza uma área de outros tantos milhões de hectares, mas nossa pecuária não precisa dessa área toda, sobretudo se nossas pastagens continuarem melhorando e se prosseguir o mesmo avanço zootécnico que tem se verificado nos últimos anos.

Hoje, o incremento da produção de soja, milho e algodão no Centro-Oeste já ocorre em áreas de pastos degradados. A agricultura está concentrada em 72 milhões de hectares – 55 milhões de hectares de lavouras anuais e 17 milhões de culturas permanentes. E, segundo os dados disponíveis, ainda existiriam 70 milhões de hectares a serem incorporados ao processo produtivo, sem entrar no bioma amazônico. No Cerrado, os solos foram melhorados pela soja, que faz uma rotação extraordinária com outros grãos e com o gado. Temos mercado. O Brasil exporta carnes para 130 países – mercados conquistados com produtos de menor preço. Agora nos preparamos para exportar carne mais qualificada por maior valor. É assim que podemos dobrar nossa produção sem tocar nos 400 milhões de hectares da Amazônia. A ideia do desmatamento zero tende a se tornar dominante.