Maurício Lopes

 

A REVOLUÇÃO agropecuária é parte da história d’A Granja

“A revista A Granja cumpriu de forma magistral o papel de bem comunicar os avanços substantivos da agropecuária brasileira ao longo dos últimos 70 anos. A Embrapa tem a honra e o orgulho de também ser parte desta história”

Maurício Antônio Lopes, presidente da Embrapa

Quando a revista A Granja iniciou sua trajetória, ainda nos anos 1940, nosso País era conhecido apenas como grande produtor de açúcar e café, e até os anos 1970, importávamos alimentos básicos como arroz, leite e feijão. Naquela década, o Brasil fez a opção por criar e consolidar um modelo de agricultura baseada em ciência, na busca de alcançar sua segurança alimentar. Investimos no fortalecimento do nosso sistema de inovação agropecuária, combinado com políticas públicas de estímulo ao desenvolvimento e expansão da produção – e nos tornamos líderes na produção de alimentos no cinturão tropical do globo.

A grande revolução agropecuária que produzimos assentou-se em três grandes conjuntos de mudanças, muito bem documentadas e divulgadas em diversas e excelentes reportagens da revista A Granja ao longo das últimas quatro décadas. O primeiro foi o desenvolvimento de conhecimentos e tecnologias que permitiram a transformação de grandes extensões de solos ácidos e de baixa fertilidade em solos férteis, aptos a uma agricultura moderna e competitiva. Isso transformou a região dos Cerrados, que até os anos 1970 representava um grande vazio econômico, em área nobre para produção de alimentos, contribuindo de forma marcante para a interiorização do desenvolvimento no País.

Outro marco foi a tropicalização e a adaptação de plantas e de animais originários de todas as partes do mundo aos biomas brasileiros. Boa parte dos cultivos e criações animais hoje em destaque no Brasil não se adaptavam às regiões tropicais e tinham seu plantio e criação limitados a regiões de clima temperado ou em períodos restritos do ano. Esse trabalho de melhoramento genético teve impacto relevante na produção de grãos, na adaptação de gramíneas e leguminosas forrageiras e no desenvolvimento de raças animais adaptadas à região tropical.

A revolução agropecuária brasileira contou também com o desenvolvimento de uma plataforma inédita no mundo de práticas conservacionistas e de defesa ambiental. Nenhum modelo de produção agropecuária avançou tão rapidamente na direção da sustentabilidade. Há, por exemplo, a fixação biológica de nitrogênio, processo que garante a competitividade da soja brasileira pela possibilidade de economizar fertilizantes nitrogenados. Hoje essa tecnologia é utilizada nos 30 milhões de hectares cultivados com soja anualmente e proporciona uma economia de cerca de US$ 7 bilhões por ano ao País.

É importante lembrar ainda das tecnologias de controle biológico e Manejo Integrado de Pragas e Doenças, que ajudam a garantir a sustentabilidade da agricultura brasileira. O plantio direto também se constitui em uma revolução construída pelos agricultores, capitalizando tecnologias de melhoramento vegetal, manejo de solo e fertilidade desenvolvidas por nosso sistema de inovação agropecuária, que inclui a Embrapa, as universidades, organizações estaduais de pesquisa e empresas privadas. Assim, podemos afirmar que a pesquisa contribuiu, de maneira fundamental, para a diversificação e desenvolvimento dos sistemas de produção agropecuária, ajudando o País a garantir segurança alimentar e produzindo excedentes que são exportados para centenas de mercados em todo o mundo.

Mas ainda há muitos caminhos a serem percorridos pela agropecuária brasileira. As próximas décadas serão estratégicas para o Brasil se consolidar como grande player global no que se refere às cadeias produtivas agropecuárias. Além de fortalecer a capacidade de prover para sua população alimentos acessíveis e de qualidade, que garantam a segurança alimentar, dois desafios são particularmente importantes.

O primeiro é representado pelas perspectivas positivas de expansão do comércio global para produtos agropecuários a curto e médio prazo. O Brasil precisa se preparar para aproveitar essa oportunidade e expandir suas exportações. Um segundo desafio está centrado na importância de avançarmos no desenvolvimento de novos processos e produtos, de modo a agregar mais valor à produção agropecuária e florestal, ampliando a competitividade e o dinamismo do setor no mercado doméstico e internacional.

A Embrapa e suas instituições parceiras estão atentas para a crescente necessidade de conhecimentos, processos e produtos em áreas críticas para ampliar a competitividade e o dinamismo do setor agropecuário brasileiro no mercado doméstico e internacional, de forma sustentável. Teremos que contribuir para aumentar a produção e a produtividade da agropecuária brasileira focando ganhos econômicos e sociais e a conservação da nossa base de recursos naturais. As novas exigências do Código Florestal, quanto à redução do desmatamento, à recuperação de áreas degradadas e à minimização dos impactos da agricultura na emissão de gases de efeito-estufa e no processo de mudanças de clima, são uma realidade.

Mudanças de clima demandarão mais atenção à intensificação de estresses térmicos, hídricos e nutricionais. Espera-se aumento da ocorrência de pragas e doenças, bem como eventos extremos como secas, calor excessivo e enchentes, particularmente no cinturão tropical do globo, onde os ambientes são desafiadores para a agricultura e produção de alimentos. Precisamos ter claro que os aumentos na produção agropecuária devem ser obtidos, prioritariamente, por meio de ganhos de eficiência e aumento da produtividade, sempre intervindo nos sistemas produtivos com foco na sustentabilidade.

A pesquisa deverá, portanto, avançar na oferta de soluções para diversificação, agregação de valor, produtividade, segurança e qualidade, com velocidade e eficiência superiores àquelas alcançadas no passado. Ao mesmo tempo, o aumento da demanda por alimentos, fibras e bioenergia e matériasprimas para diversos ramos industriais exigirá sofisticação tecnológica que racionalize o uso dos recursos naturais como água, solo, biodiversidade e dos serviços ambientais necessários à produção agropecuária e florestal.

É necessário, também, investir em inovações para agregação de valor às commodities, criando oportunidades para a agroindústria brasileira, em especial em mercados mais competitivos, sofisticados e rentáveis. A agricultura brasileira do futuro precisará contribuir na promoção da saúde e qualidade de vida das pessoas, com oferta de alimentos de maior densidade nutricional e com novas funcionalidades, ajudando o mundo a lidar com o desafio da segurança alimentar e nutricional.

Para enfrentar todos esses desafios e abraçar novas oportunidades, a agropecuária brasileira deverá se sustentar em forte capacidade de antecipação de riscos e desafios e em processos coordenados de decisão e ação. A pesquisa agropecuária precisará de processos cada vez mais sofisticados de prospecção, análise e decisão das linhas de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) a priorizar.

Em 2013, a Embrapa lançou o Sistema Agropensa, uma plataforma de A Granja documentou uma grande mudança na agricultura, o desenvolvimento de conhecimentos e tecnologias que permitiram a transformação de grandes extensões de solos ácidos e de baixa fertilidade em solos férteis na região dos Cerrados Leandro Mariani Mittmann inteligência estratégica dedicada à coleta, à organização e à análise de informações relevantes que permitam orientar, de maneira mais elaborada, o desenvolvimento tecnológico da agricultura brasileira. Estamos confiantes de que este novo sistema de inteligência estratégica ampliará a nossa capacidade de antecipação e antevisão, permitindo que a Embrapa e suas organizações parceiras aprimorem seu planejamento e sua capacidade de responder, de forma tempestiva e eficiente, às necessidades da agricultura e da sociedade brasileira.

A Granja documentou uma grande mudança na agricultura, o desenvolvimento de conhecimentos e tecnologias que permitiram a transformação de grandes extensões de solos ácidos e de baixa fertilidade em solos férteis na região dos Cerrados

Por fim, é importante destacar que a incorporação da comunicação na visão estratégica e em toda a cadeia de processos que compõem a agricultura brasileira não é apenas uma opção. Mais ainda quando se descortinam cenários sinalizando forte crescimento da demanda por uma sociedade cada vez mais preocupada com a sustentabilidade e ávida por informações. A parceria entre os setores agroalimentar e agroindustrial com os órgãos de comunicação é, portanto, fundamental para que a agricultura brasileira siga em direção ao futuro firmando cada vez mais suas vantagens comparativas e seus atributos de sustentabilidade junto à sociedade.

A revista A Granja cumpriu de forma magistral o papel de bem comunicar os avanços substantivos da agropecuária brasileira ao longo dos últimos 70 anos. A Embrapa tem a honra e o orgulho de também ser parte desta história. Estamos seguros de que seguiremos juntos, dando contribuições ainda mais significativas para que a agricultura brasileira possa cumprir, de forma cada vez mais eficiente, a sua missão de bem servir a sociedade brasileira.