Na Hora H

 

2014, FIM DE ANO OU ANO DO FIM?

Enfim terminamos o ano de 2014. Foi um ano diferente. Além das secas no Centro-Sul e no Nordeste, ainda tivemos a supersafra americana a atazanar a vida do agricultor brasileiro. Junto com elas, um ano de definições marcado fundamentalmente pelas eleições de outubro, em que tanta coisa rolou. Não gostamos das apresentações e dos discursos eleitorais. Eles foram muito mais eivados de acusações, defesas e principalmente omissões. O setor mais importante da economia brasileira no auge das disputas parecia não existir. Quem ouvia de “longe”, tinha a impressão de que o Brasil era só rombos, malandragens, mentiras e omissões. Ninguém falava efetivamente do produtor rural que à sua distância exercia a tarefa de plantar com fé o futuro do Brasil, desconhecendo as brigas, as omissões, as roubalheiras, os assaltos aos cofres públicos de onde ele sempre esperava um crédito racional, oportuno, suficiente e adequado. Parece que não sobrou muito para ele.

O seguro prometido ficou apenas em alusões festivas. O produtor continuou a pagar ao banco e à seguradora em torno de 8% do custo da sua safra para, na realidade, não segurá- la em nada. Os bancos e as seguradoras ficaram satisfeitos. O preço mínimo destruído desde o primeiro Plano Cruzado foi apenas uma ficção, substituído por confusas medidas que não aliviaram em nada, especialmente a quem produziu. Os custos dos serviços em algumas áreas até diminuíram, mas na média nacional pagamos muito mais. Onde a seca apareceu, o produtor teve de arcar com os prejuízos sem reclamar. Os tributos só aumentaram, na produção agrícola de forma indireta, mas aumentaram e muito, e parece-nos que ainda ficou muita coisa para aumentar, como, por exemplo, a energia, o combustível e tantos outros bens de produção.

O dólar teve pena do produtor. Aumentou depois da safra colhida, o que não é muito normal, e está nos ajudando bastante. Podemos contar que seremos cobrados em dobro pelas consequências do aumento do dólar na próxima safra. As nossas esperanças na realidade se voltam para o mercado externo com sua exuberante demanda nos chamados alimentos de primeira linha: milho, soja, algodão, carnes, proteínas nobres, etc. Esse mercado já aprendeu a confiar no produtor brasileiro e conta com ele como uma das mais seguras alternativas para evitar a insegurança alimentar.

No campo político, estamos agora assistindo vergonhosamente as apurações dos fatos denunciados. Produtor rural não entende muito disso, mas está verdadeiramente atordoado com os valores com que descaradamente os “ladrões” vêm a público explicar de onde tiraram e para onde mandaram os recursos subtraídos da generosa “mãe brasileira”. Fica mais assustado quando vê que em uma só das jogadas confessadas os recursos dariam para resolver grande parte dos seus principais problemas. Não conhecem a Petrobras, mas vão ter saudade dela quando lembrarem os preços quem pagaram pelo combustível quando ela ainda era séria. O produtor está confuso. Essas apurações vão de fato chegar até os seus verdadeiros mandantes, idealizadores, beneficiários dessa falcatrua toda. Como conseguiremos efetivamente ficar livres dessas vergonhosas ações? Ou estão mais uma vez apenas nos enganando? Esse é o novo drama que viveremos no próximo ou nos próximos anos à espera que Deus, sendo brasileiro, não vá trocar de camisa.

No campo real, esperamos que o Ano Novo nos traga de fato um ministro ou uma ministra da Agricultura que venha mudar o quadro até hoje vivido: nomeações da base partidária colocando gente cujo objetivo não atende ao que desejamos. O Ministério da Agricultura foi tão desprestigiado que acabou virando moeda de troca com os partidos da base para que ganhassem as eleições às suas custas. Não é isso que esperamos para o novo ano. O que esperamos é que tenhamos um Ministério da Agricultura forte como já foi, administrando de fato a nossa política agrícola por pessoas que a conheçam bem e que ele volte a ser o que nunca deveria ter deixado de ser. Queremos um ministro de fato, que goze da confiança da Presidente e tenha o respeito e a confiança dos produtores e possa fazer tudo aquilo que há tanto tempo perdemos. Será que esperamos demais? Desejamos com muita fé e esperança um bom Fim de Ano de 2014 e não um triste ano do fim.

Engenheiro agrônomo, produtor e ex-ministro da Agricultura