Plasticultura

 

Possibilidades ILIMITADAS

As variadas tecnologias com o uso do plástico na atividade agrícola
incluem a proteção do cultivo e da colheita

Denise Saueressig
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Material versátil, com muitas possibilidades de uso, o plástico surge como solução em diferentes áreas da agricultura, acompanhando as novas demandas do setor e atendendo a variados perfis de produção. A estimativa do Comitê Brasileiro de Desenvolvimento e Aplicação de Plásticos na Agricultura (Cobapla) é de que a área com estruturas de cultivo protegido, como estu- Viviane Zanella fas, viveiros e túneis, seja de mais de 22 mil hectares no País. Esse tipo de sistema está presente em todas as regiões, mas alguns polos merecem destaque.

No estado de São Paulo, por exemplo, há uma maior concentração no Cinturão Verde no entorno da capital, onde são cultivadas hortaliças como folhosas, tomate, pimentão e pepino. Em municípios como Holambra, Atibaia e Arujá, essas estruturas abrigam principalmente a produção de flores. “No sul de Minas Gerais, produtores de morango vêm trabalhando muito com os chamados túneis baixos e, no Rio Grande do Sul, além da produção do fumo, também há investimentos em hortaliças. Nos demais estados, há maior presença principalmente no entorno das capitais”, cita o engenheiro agrônomo Antonio Bliska Júnior, vice-presidente do Cobapla e pesquisador no Laboratório de Controle Ambiental da Faculdade de Engenharia Agrícola da Universidade Estadual de Campinas/SP (Feagri- Unicamp).

Maior segurança na atividade e qualidade diferenciada do produto final são alguns dos atrativos das técnicas de cultivo protegido

Na opinião do agrônomo, existe uma tendência de forte expansão para a tecnologia, considerando a especialização de empresários rurais na produção de mudas e projetos focados em nichos de mercado. A maior segurança na atividade e a qualidade diferenciada do produto final são alguns dos atrativos das técnicas de cultivo protegido. No entanto, os desafios também são importantes e incluem a profissionalização do empreendedor e a capacitação da mão de obra.

Com o objetivo de suprir essas carências, o Cobapla, em parceria com a Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati), organismo de extensão rural da Secretaria de Agricultura de São Paulo, está implantando a Rede Paulista de Plasticultura. “Nossa intenção é disseminar a tecnologia de forma correta, parando com a malfadada prática de ‘copiar o vizinho’. Para isso, serão implantadas 40 unidades de demonstração em todo o estado”, detalha Bliska. Além do suporte técnico por meio da Cati, as empresas que atuam no setor poderão divulgar seus produtos e serviços, desde que apoiem o programa.

Planejamento e acompanhamento — Os produtores paulistas também têm apoio ao cultivo protegido por meio de recursos do Fundo de Expansão do Agronegócio Paulista (Feap). Empresários iniciantes podem acessar uma linha de até R$ 200 mil, enquanto os que já têm experiência na área podem solicitar até R$ 500 mil.

O investimento em uma unidade de cultivo protegido é bastante variável e vai depender, entre outros fatores, da tecnologia que será empregada. O valor do metro quadrado de estufas está na faixa de R$ 65, informa Bliska. Segundo ele, se a comercialização estiver garantida, por meio de canais de venda definidos, normalmente o produtor conseguirá amortizar em dois anos o seu investimento. Independentemente do objetivo, da cultura e das técnicas que serão adotadas, é essencial buscar acompanhamento profissional e estabelecer um plano de negócios. A Feagri oferece uma ferramenta de gestão conhecida por MIGG para auxiliar em todo o processo de gerenciamento das atividades. Para os interessados, é só acessar o site www.feagri.unicamp.br/ migg.

Guarda-chuva para a videira — Experiências com o cultivo protegido em videiras tiveram início na década de 1990 por iniciativa de produtores de Ivoti, pequeno município da Serra do Rio Grande do Sul. Acostumados a utilizar a plasticultura nas hortaliças, os imigrantes japoneses decidiram testar a tecnologia também nos parreirais. Aos poucos, a técnica foi chamando a atenção de agricultores do principal polo de uvas do Brasil, no entorno de Caxias do Sul. “Observamos o aumento do interesse por esse cultivo, mas percebemos que não havia subsídios técnicos para os produtores”, recorda o pesquisador da Embrapa Uva e Vinho Henrique Pessoa dos Santos. Ele conta que os estudos na área começaram em 2003 e abrangeram as diferentes etapas e necessidades do cultivo.

Nessa época, a área de videiras em cultivo protegido era de aproximadamente 40 hectares. Agora, a estimativa é de que fique entre 1 mil e 2 mil hectares, principalmente na Serra Gaúcha, em parreiras de varielhamos intensamente o tema e realizamos uma série de eventos com técnicos e produtores, como dias de campo, palestras e treinamentos”, relata Santos. O pesquisador ressalta que o mais importante é deixar claro que o cultivo protegido não é apenas um parreiral coberto, mas sim um novo sistema de produção, onde há uma mudança de microclima, com temperaturas entre 1,5 e 2 graus acima do ambiente externo.

As novas condições aceleram o ciclo da planta. Também há uma uniformidade da maturação e maior proteção da ação do vento. A folha perde uma menor quantidade de água e, consequentemente, a demanda hídrica será menor. Na fruta, a maior quantidade de água retida resulta em uma baga de tamanho maior. O efeito do cultivo protegido na videira é o de um guarda-chuva. Mesmo que a água das precipitações consiga penetrar nas entrelinhas, onde há a abertura da cobertura plástica, o grande benefício é que não há molhamento da folha e da fruta. Como o efeito molhado é a porta de entrada dos fungos, a ocorrência de doenças como o míldio é bastante reduzida. “Ainda que a planta apresente esporos do fungo, a doença não se desenvolve”, explica Santos.

Mais produtividade — O aspecto fitossanitário é uma das grandes vantagens do cultivo protegido. Como a ocorrência de doenças é muito baixa, a necessidade do uso de agroquímicos também é reduzida, segundo observações feitas pela Embrapa na Serra Gaúcha. “Nos cultivos convencionais, em média, são 17 aplicações a cada ciclo. Na videira coberta, a média é de 1,5 pulverização por ciclo”, enumera o pesquisador. Além de a demanda ser inferior, a redução no uso de agroquímicos deve ocorrer necessariamente nos cultivos protegidos. Em sistemas convencionais, o produtor costuma utilizar o defensivo como ação preventiva. No caso da videira coberta, a prevenção será feita pelo próprio plástico. “Se um tratamento similar for feito, aumenta o risco de acúmulo de resíduos e o período de carência passa a ser três vezes maior em comparação com o cultivo convencional”, detalha Santos.

A análise de produtividade feita a partir dos cultivos protegidos também mostrou resultados importantes. Um estudo com a variedade Niágara conduzida em sistema orgânico resultou em rendimento de 12 toneladas por hectare no parreiral convencional e de 27 toneladas por hectare no parreiral coberto.

Para o produtor que planeja investir na plasticultura, o custo de implantação para a videira é calculado entre R$ 80 e R$ 100 mil o hectare. A estrutura que sustentará a cobertura pode durar cerca de 20 anos, enquanto o plástico terá vida útil entre seis e sete anos. O retorno para o investimento é variável e vai depender, entre outros fatores, do tipo de uva cultivado e do sistema de produção adotado. “Se for uma uva Itália, por exemplo, o produtor pode conseguir esse retorno a partir do segundo ou terceiro ano de produção. É i m p o r t a n t e lembrar que a estrutura plástica será instalada apenas depois do parreiral já estar formado”, salienta o pesquisador.

O custo de produção em sistema protegido é praticamente o dobro do convencional, ou seja, em torno de R$ 1 o quilo. “O produtor deve analisar bem o mercado que pretende atingir. Se a intenção for comercializar um suco orgânico de uma uva mais barata, pode ter uma boa lucratividade. O mesmo vale para a uva Niágara orgânica, que pode ser vendida entre R$ 2,50 e R$ 3 o quilo”, acrescenta Santos. No momento da venda, contam pontos a favor do produtor o alto padrão e a atratividade da fruta, que tem uma aparência mais uniforme e sem manchas.

Pesquisador Henrique Pessoa dos Santos: estrutura nos parreirais ajuda a reduzir a ocorrência de doenças provocadas por fungos

Independentemente do mercado e do tipo de uva que será cultivado, o fundamental, antes da decisão por um cultivo protegido, é buscar orientação técnica junto a profissionais de instituições como a Embrapa e a Emater. “Não podemos esquecer que esse é um novo sistema de produção, com custo mais alto e manejo diferenciado. Se o processo for conduzido de forma equivocada, pode haver prejuízo”, completa o pesquisador. Para os produtores interessados na tecnologia, a Embrapa Uva e Vinho, em Bento Gonçalves, disponibiliza materiais que podem ajudar. O site da unidade www.embrapa.br/uva-evinho mantém informações atualizadas sobre o assunto.

Opção de armazenagem — O uso do plástico na agricultura vai além das estruturas que protegem culturas. O material está presente em equipamentos como tubos de irrigação, sacarias para fertilizantes, mourões feitos de plástico reciclado, revestimentos de reservatórios e canais, telas de sombreamento, cortinas de aviários, caixas de transporte, vasos e embalagens de hortaliças. “Até componentes de tratores, implementos agrícolas e EPIs são confeccionados com polímeros industriais. O lançamento de novas aplicações ou soluções envolvendo os plásticos é constante”, destaca o engenheiro agrônomo Antonio Bliska Júnior.

Outra estrutura com vantagens e flexibilidade é o silo bolsa. Em um país em que o déficit de armazenagem é de cerca de 40 milhões de toneladas e as condições de escoamento da safra são precárias, o equipamento que serve para preservar os grãos após a colheita tem um grande potencial de uso. “É uma tecnologia altamente competitiva quando comparada ao armazenamento convencional. Se o processo for conduzido de maneira correta, com o grau de umidade recomendado e seguindo as demais especificações técnicas, o produtor passa a dominar um ponto da comercialização sobre o qual não tinha controle”, observa o especialista.


HIDROPONIA: COM PLÁSTICO E SEM SOLO

Outra tecnologia em que os plásticos são componentes essenciais –a hidroponia – também tem crescimento no País. Pelo sistema, as plantas são cultivadas fora do solo e recebem uma solução de nutrientes de acordo com suas necessidades. Segundo o professor Jorge Barcelos (foto), especialista na área e coordenador do Laboratório de Hidroponia (LabHidro) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o avanço ocorre principalmente pelo grande número de pequenos e médios produtores que percebem a necessidade de estar próximos do consumidor e estabelecer uma relação de confiança na comercialização. “Vendendo em pequenas quantidades e na redondeza, os investimentos e custos podem ser menores, além da maior facilidade para escoar o produto”, assinala.

Mudanças de hábitos alimentares também têm influência sobre esse cultivo. “Acredito que o sabor e a apresentação do alimento hidropônico combinam com o perfil da população atual. E as boas notícias não se restringem somente ao produto. As condições de trabalho em uma horta hidropônica são diferenciadas. É um ambiente mais organizado e com mais segurança”, argumenta o especialista.

Entusiasta da tecnologia, Barcelos lembra que as atividades diárias do cultivo hidropônico absorvem por completo, pelo menos, uma a duas pessoas envolvidas no trabalho. “No entanto, essas tarefas são infinitamente mais leves do que a agricultura feita na terra. Além disso, os operadores se sentem protegidos da chuva e do vento, podendo trabalhar mais à vontade. As plantas também crescem mais, porque estão mais protegidas das variações do clima e do ataque de insetos”, constata.

Segundo o professor, os filmes plásticos utilizados nas coberturas das hortas hidropônicas evoluíram muito ao longo dos anos. Existem materiais disponíveis com características variadas conforme o clima, a planta, o manejo e o produto final. Os filmes transparentes são os mais comuns de se encontrar. Sua aparência lembra um vidro, pois dá para enxergar bem de dentro para fora da estufa e vice-versa. “Estes não são muito recomendados para locais de extrema insolação. Podem ser utilizados sim, mas seria melhor acompanhado da instalação de uma tela próxima ao teto da estufa, internamente. Nas horas de extrema insolação, a tela pode ser esticada para amenizar a radiação sobre as plantas”, menciona.

Há também os filmes difusores que não são tão transparentes, mas com uma vantagem interessante, já que seu poder de difusão uniformiza a radiação dentro da estufa. Assim, as plantas acabam recebendo a luz difusa de todos os lados. As folhas de baixo do tomateiro, por exemplo, recebem muito mais luz dessa forma, o que é fundamental para a fotossíntese e para que os frutos fiquem mais adocicados.