Roberto Rodrigues

 

Aos 70 anos e ADIANTE!

“Toda esta impressionante mudança da agricultura brasileira foi flagrada nas páginas de A Granja de forma desabrida e honesta”

Roberto Rodrigues, coordenador do Centro de Agronegócio da FGV, Embaixador Especial da FAO para as Cooperativas e Presidente da
Academia Nacional de Agricultura (SNA), ex-ministro da Agricultura

São poucos – raríssimos mesmo – os veículos da mídia escrita ligados ao campo que conseguem completar meio século de atividades contínuas no Brasil. Pois a revista A Granja está celebrando 70 anos, um feito extraordinário, durante os quais acompanhou os espetaculares avanços do nosso agronegócio.

A Granja nasceu em um tempo em que nosso país era grande importador de alimentos, destacando-se apenas na cafeicultura e na cana-de-açúcar, tendo passado por ciclos espasmódicos da borracha, do cacau e do algodão.

Ela viu o trabalho de organismos hoje centenários de pesquisa, como o Instituto Agronômico de Campinas, assistiu ao nascimento da Embrapa e a sua participação no avanço tecnológico nacional.

Nasceu quando a agricultura era predominantemente costeira, e foi testemunha dos avanços para o Centro-Oeste e Norte-Nordeste, conquistando o Cerrado e transformando o País no atual maior exportador de açúcar, suco de laranja, café em grão, carne bovina, carne de aves, tabaco e complexo soja, segundo colocado em milho e quarto em carne suína, com crescimento na fruticultura, na cotonicultura e na agricultura orgânica, além da floricultura.

Toda essa impressionante mudança foi flagrada nas páginas de A Granja de forma desabrida e honesta, sem preconceitos, denunciando erros quando havia, estimulando e premiando os acertos sucessivos, discutindo temas polêmicos e apontando caminhos de solução.

Nos últimos 20 anos, a área plantada com grãos cresceu 41% no País, enquanto a produção subiu 223%, números por si só alvissareiros, mas por detrás dos quais está o mais importante tema contemporâneo, a sustentabilidade. Com efeito, a área cultivada com grãos hoje é de 57 milhões de hectares e, se tivéssemos a mesma produtividade de 20 anos atrás, seriam necessários mais 66 milhões de hectares para conseguirmos a safra deste ano. Em outras palavras, preservamos 66 milhões de hectares de Cerrado ou florestas, notícia auspiciosa para um país insistentemente acusado de derrubar florestas, embora ainda tenha 61% do seu território ocupado com matas originais, enquanto a Europa tem apenas 1%.

A tecnologia tropical sustentável foi a grande responsável pelo aumento de nossa competitividade, especialmente no mercado externo, cujos números são também interessantes: em 2003, o agro brasileiro exportou US$ 30 bilhões, chegando dez anos depois, em 2013, a US$ 100 bilhões.

Políticas públicas tiveram papel relevante nesse avanço, sobretudo a criação do Moderfrota, e mais recentemente do Programa de Sustentação do Investimento (PSI), que permitiram a renovação de um parque motomecanizado agrícola sucateado do final do século XX. Muito positivo foi o aumento de oferta de credito rural a taxas razoáveis, em especial para as regiões da fronteira.

Outras ações estão chegando, sugerindo novos avanços, especialmente na área de infraestrutura. As concessões rodoviárias do final de 2013 foram um bom começo para o desbloqueio da logística, assim como a MP dos Portos. O Plano de Safra 2013 também colocou recursos para outro tema demandado, a armazenagem. Mas nem tecnologia e nem políticas públicas seriam suficientes para os saltos observados por A Granja em sua trajetória mais recente.

Os grandes heróis deste processo foram os produtores rurais que acreditaram em seu país e em sua capacidade empreendedora e, muitas vezes, deixando para trás suas raízes históricas, sua família e seus amigos, lançaram- se qual modernos bandeirantes à conquista do território nacional no Centro- Oeste, e no Norte-Nordeste, tirando o agro da área costeira, integrando e ocupando o território pátrio.

Esta é a tríplice coroa do sucesso do nosso agro: produtores rurais determinados que assimilaram tecnologia gerada por órgãos de pesquisa (públicos e privados) e, com apoio de boas políticas públicas, transformaram o interior brasileiro, criando regiões ricas que fazem morrer de inveja nossos concorrentes mais próximos, cujos merca- Divulgação A GRANJA | 69 dos conquistamos.

Porém, A Granja ainda tem muito que acompanhar.

Estudo da OCDE/FAO indica que a produção mundial de alimentos precisa crescer pelo menos 20% até 2020 para garantir a segurança alimentar a todos os terráqueos. E condição essencial para isso acontecer é o Brasil crescer 40%. Isso por causa dos três temas já citados e mais a disponibilidade de terras em nosso país, que hoje ocupa apenas 9% do seu território com todas as plantas cultivadas, e mais 20% com pastagem.

Portanto, há bastante por fazer. Mas o futuro dependerá de uma estratégia articulada de todo o Estado brasileiro, capaz de suportar um novo ciclo de crescimento que leve o País ao seu destino inequívoco de grande supridor mundial de alimentos, energia e fibras. Precisamos de mais concessões nas rodovias, modernizar logo os portos e cuidar das ferrovias e hidrovias: sem logística não haverá condições de crescimento sustentável.

É primordial uma política de renda com ênfase para o seguro agrícola (com atenção ao seguro de renda contra a volatilidade dos mercados), modernizar o crédito rural e reciclar a política de garantia de preços mínimos.

A política comercial precisa ser mais agressiva, sem depender apenas da Rodada Doha da OMC ou da boa vontade dos parceiros do Mercosul: acordos bilaterais com grandes países consumidores são imprescindíveis, como já fizeram há anos outros concorrentes até mesmo da América Latina.

Essencial é o apoio à ciência e à tecnologia, com mais recursos financeiros, materiais e humanos para nossos órgãos de pesquisa; à defesa sanitária, à agregação de valor, a atividades sustentáveis na Amazônia e em outros biomas nacionais. Atenção especial à água e à agricultura orgânica deve ser dada.

Além dessas questões todas, o Legislativo e o Judiciário terão papel fundamental na modernização de legislações obsoletas e sua correta aplicação.

O setor privado também precisa se organizar melhor, e cada vez mais em torno das correntes de produções – também chamadas cadeias produtivas – de forma que o produto final de cada uma delas seja competitivo em termos de qualidade e preço.

E isso passa por governança, consubstanciada em uma estratégia para o agro que seja uma política de Estado, e não apenas de Governo.

Mas o Governo Federal precisa ser o motor desse processo todo, e, diante de um novo mandato federal e de novos governadores estaduais que se iniciam ou reiniciam em janeiro de 2015, cresce a esperança de mais atenção ao campo brasileiro.

Só assim atenderemos aos reclamos da OCDE/FAO e o Brasil se tornará o paladino da Paz Universal, uma vez que não há paz com fome. Acabando com a fome, defenderemos a paz para toda a Humanidade.

E A Granja, mais uma vez, testemunhará este feito espetacular que nos fará os cidadãos mais orgulhosos do planeta.