O Segredo de Quem Faz

 

Motivação pela agricultura aos 100 ANOS

Denise Saueressig
[email protected]

Ele testemunhou e pode contar com riqueza de detalhes a evolução da agropecuária brasileira. Aos 100 anos, o incansável engenheiro agrônomo, empresário e produtor Fernando Penteado Cardoso presenteia A Granja e seus leitores com seus relatos e opiniões nesta edição. O currículo é extenso e não caberia nesta breve introdução, mas podemos contar que, desde a infância, Dr. Cardoso, como é respeitosamente chamado, destacou-se pelo desempenho intelectual, sendo o primeiro aluno da turma em suas classes. Assim foi também em 1936, quando recebeu o diploma de Agronomia na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq). Entusiasta de estudos sobre fertilidade e conservação do solo e dono de espírito empreendedor, ajudou a fundar o Grupo Manah e a difundir o uso de adubos no País. Cargos públicos, atividades internacionais e lideranças em instituições ajudam a contar a história do Dr. Cardoso, que em 2001 ainda criou a Fundação Agrisus, voltada a projetos de agricultura sustentável. Com motivação e persistência admiráveis, ele não pensa em parar de trabalhar e acompanha de perto a produção na fazenda que mantém no interior de São Paulo. “É como digo aos amigos e familiares: enquanto ‘tiver gás’ estarei lendo, escrevendo, discutindo e estudando a solução de problemas relacionados ao campo. Isso virou um vício”

A Granja - Com o seu trabalho, o senhor colaborou para que o Brasil tenha hoje uma das agriculturas mais competitivas do mundo. Qual é o caminho para o País se manter nessa rota sem desvios?

Fernando Penteado Cardoso - Obrigado por me incluir entre os colaboradores para o desenvolvimento da nossa agricultura. Para continuarmos a suprir um consumo crescente, devemos seguir o exemplo do passado e não criar obstáculos ao progresso. Governo e governados devem avaliar com realismo nossas vantagens climáticas e desvantagens fisiográficas que resultam em dificuldades logísticas. Demoras como a pavimentação da BR 163 são injustificáveis. O porto de Miritituba/PA, no Rio Tapajós, devia estar pronto há pelo menos dez anos. Entraves e inseguranças fundiárias e ecológicas são obstáculos muito sérios. Mais dia, menos dia, teremos que abrir novas áreas, cujos tocos e troncos levam 20 anos para se decompor. Temos que planejar, com antecedência, com os pés no chão e com os olhos nas estrelas.

A Granja - Alguns dos principais destaques da sua trajetória incluem seus trabalhos nas áreas de conservação e nutrição do solo. Como o senhor avalia que essas linhas de pesquisa caminham atualmente aqui no Brasil? E qual é o papel do produtor nesse trabalho?

Cardoso - Há muitos e muitos anos os agrônomos da pesquisa vêm estudando as bases de um eficiente e econômico sistema de nutrição das plantas através da adubação. O grande avanço se deu ao suprir de cálcio os solos pobres desse elemento e, assim, ácidos e improdutivos. A calagem possibilitou o aproveitamento de extensas áreas de cerrado e de campo nativo. A área tornada fértil tem um significado internacional ao proporcionar os volumes de soja e outros cereais que satisfazem não só as necessidades domésticas, bem como as de outras regiões. Tornar produtivo o solo e, a seguir, conservá-lo fértil é a principal tarefa dos agricultores de hoje.

A Granja - Um dos marcos da agricultura brasileira nas últimas décadas foi o sistema de plantio direto. Como o senhor avalia a evolução dessa tecnologia no País? É possível imaginar a agricultura brasileira sem o uso do sistema?

Cardoso - O plantio direto, tornado viável pela invenção dos herbicidas e consolidado graças aos OGMs (Organismos Geneticamente Modificados), é um passo gigantesco para uma agricultura sustentável.

Deve-se entender que a cobertura por resíduos é mais importante do que o não revolvimento da terra. Nem sempre é fácil obter uma boa cobertura, mas ela é indispensável. Mesmo em terrenos nivelados e livres de erosão, a cobertura favorece o equilíbrio da umidade e assegura a entrada no solo (input) de matéria vegetal capaz de assegurar bom nível de matéria orgânica humificada. É assim que acontece na floresta.

A Granja - Como o senhor avalia o processo de migração que originou algumas das regiões mais prósperas da agricultura brasileira? Um exemplo são os gaúchos que viajaram para o Centro-Oeste.

Cardoso - Os gaúchos já conheciam a calagem nos campos nativos, quando foram atraídos pelos baixos preços da terra ácida e improdutiva mais ao Norte. Eram ousados, diligentes e empreendedores. A saga desses pioneiros está bem representada pelo conjunto de esculturas existente em Lucas do Rio Verde/MT. Alguns tiveram pouca sorte, outros se consolidaram, tendo alguns se tornado gigantes pelas áreas cultivadas. Em diversas oportunidades tenho proposto uma estátua em Brasília para comemorar o trabalho ingente dos produtores sulinos. Eu os conheço desde os anos 1980, quando lhes oferecia os adubos da Manah.

A Granja - Hoje falamos muito da região conhecida como Matopiba, que é a nova fronteira agrícola do País. O senhor apostaria em alguma nova e próxima fronteira?

Cardoso - Acredito que existem áreas consideráveis dentro dos limites do Matopiba, que se avizinha de regiões mais secas recobertas de caatinga ou de solo muito arenoso com baixa retenção de água. Acredito igualmente que haverá extensa conversão de pastagem de baixa capacidade de suporte, ditas degradadas, resultando em contração da pecuária de corte. Mais para o futuro, teremos que expandir a produção em áreas ora florestadas, lembrando sempre que a floresta é um efeito das chuvas, calor e fertilidade. Não é causa de efeitos ambientais adversos, em que pese a discussão mal fundamentada do assunto. É preciso planejar o futuro sob a restrição prática que tocos e troncos levam mais de 20 anos para se decomporem. Se acharmos que em 2040 a demanda mundial irá justificar mais área, temos que cuidar desde já de novas aberturas além dos 20% fixados pela legislação. O Brasil é grande e requer que se pense grande.

A Granja - O senhor imaginava que a soja brasileira conquistaria o posto que ocupa hoje, com uma produção estimada em 95 milhões de toneladas?

Cardoso - Jamais poderia imaginar que chegaríamos aos volumes atuais e muito menos prever que seria possível produzir três safras na mesma área, como acontece hoje com a colheita da soja seguida de milho e este seguido de forragem como pastagem. Chegamos a tanto graças ao trabalho dos agrônomos que obtiveram soja de ciclo curto com vagens que suportam chuva. Nunca poderia imaginar que, no mesmo ano agrícola, semeia-se milho após soja, com uma gramínea forrageira consorciada, em condições de alimentar ruminantes e de proporcionar uma boa cobertura para a cultura subsequente. Pode parecer milagre, mas não é: produzir em um hectare, três toneladas de soja, mais cinco toneladas de milho, mais seis arrobas de carne (180 quilos de peso vivo) e mais quatro toneladas de fitomassa seca, tudo no mesmo ano agrícola. Mas isso existe!

A Granja - Alguns pesquisadores citam a integração lavoura-pecuária como a nova revolução da agricultura brasileira. O sistema tem experiências bem sucedidas e outras nem tanto. Qual é a sua avaliação sobre a ILP? Que desafios precisam ser superados para que a tecnologia tenha uma contribuição mais significativa para a agricultura brasileira? E as suas considerações sobre o sistema que também agrega o componente florestal, ou a ILPF?

Cardoso - Sem dúvida podemos produzir forragem após uma cultura de verão, seja soja ou milho. Todavia, a posta em prática nesse procedimento apresenta dificuldades com cercas, currais e água, removidos e recolocados a cada ano. Por isso a ILP ainda não se difundiu tanto quanto deveria. Experimentos apoiados pela Fundação Agrisus indicam a produção de 2 mil litros de leite por hectare ou 300 quilos por hectare de peso vivo bovino, acrescidos de quatro ou cinco toneladas por hectare de fitomassa seca para o plantio direto da soja seguinte. Quanto à introdução de árvores no sistema, tenho minhas dúvidas, pois nada, ou muito pouco, se produz à sombra com forte concorrência vegetal. Cheguei mesmo a afirmar que estamos perdendo tempo com a ILPF, um sistema que contraria a observação secular do efeito negativo do eucalipto, por exemplo, em até 15 metros de faixa lindeira.

A Granja - Quais são os objetivos, desafios e principais trabalhos da Fundação Agrisus?

Cardoso - A Fundação Agrisus – Agricultura Sustentável veio dar continuidade à tradicional atividade da Manah de apoiar pesquisas e divulgação agrícolas. Foi uma iniciativa de minha família, destinando parte dos recursos da venda das ações da empresa. Queríamos retribuir à agropecuária pelo menos parte do muito que esse setor havia favorecido minha carreira de agrônomo. Para evitar uma dispersão de foco e de recursos, limitamos o apoio às pesquisas, à formação profissional e à divulgação dos assuntos relacionados à fertilidade do solo. Desse modo, os rendimentos do patrimônio financeiro próprio vêm financiando projetos de pesquisa, validação, eventos e viagens de estudo, sempre relacionados à fertilidade do solo. A entidade, hoje independente da família fundadora, tem um Conselho Curador composto em grande parte de professores da Esalq, o que lhe dá respaldo e continuidade. A Agrisus é única no País quanto ao apoio à agropecuária exclusivamente com recursos privados.

A Granja - Hoje conseguimos ver avanços na área da sustentabilidade, mas também problemas, como pastos degradados, grandes áreas com monocultura, culturas que sofrem com a falta de água, entre outros. Quais são os seus temores em relação ao futuro do nosso sistema agropecuário?

Cardoso - A pecuária bovina do País baseou-se inicialmente em pastagens de baixo sustento como a caatinga, os campos nativos e o pantanal. Mais recentemente vieram os pastos semeados nas terras cansadas dos cafezais decadentes, seguidos de pastos pós-arroz em solos fracos adubados e em terras férteis de mata alta.

Acontece que as terras dos pastos semeados também se esgotaram e a capacidade de sustento reduziu-se, tornando-se similares às pastagens iniciais em terras fracas. Receberam o adjetivo de degradadas e a população bovina vem reduzindo. Ou voltamos à pecuária anterior de baixa lotação, ou elevamos a fertilidade desses solos e voltamos à lotação proporcionada pelos solos férteis ou adubados ou em ILP. Não há alternativa. Vale lembrar que uma criação de baixa lotação por impedimentos ambientais, pode ser de alto nível técnico. Conheço criatórios da raça Bonsmara na África do Sul em que uma cabeça requer dez hectares devido a limitações pluviométricas, mas o desfrute individual é elevado. Uma pastagem bem controlada pode ser altamente sustentável, seja de baixa ou elevada lotação.

A Granja - Ao longo do tempo, como o senhor avalia a atuação dos governos brasileiros para o agronegócio? Em que momentos o setor foi beneficiado e em que momentos deveria ter recebido mais atenção pelo lado político?

Cardoso - Nossos governos são o reflexo dos cidadãos que os elegem. Os governos sempre ampararam a agropecuária, seja com financiamentos ou pesquisa agronômica e, por vezes, avaliou mal nossas distâncias e dificuldades fisiográficas. Produzimos a uma altitude de 600 metros e temos que descer até o nível do mar, cruzando rios, grotões e serranias. Apoiamos novas aberturas longínquas e nos confundimos na solução logística. Mas estamos nos recuperando e o porto de Miritituba/PA, baseado na rodovia BR 163, poderá ser um bom exemplo na solução do problema do escoamento a partir do Brasil Central.

A Granja - O senhor acompanhou a criação e a evolução da revista A Granja. Como o senhor avalia a importância do trabalho d’A Granja para a agricultura do País?

Cardoso - Conheço A Granja desde os anos 1950, quando acreditei no futuro agrícola do Rio Grande do Sul e lá nos estabelecemos com uma pequena misturadora em Porto Alegre. Sempre admirei essa publicação pelo alto critério e dedicação de seus editores. Com o passar dos anos, vim a conhecer seu editor-chefe Hugo Hoffmann, com quem mantive cordial e instrutivo contato até seu falecimento. Quando visitava a gauchada valente por esse Brasil afora, sempre encontrava A Granja em suas casas. A revista foi certamente a inspiradora de iniciativas e a informante das tecnologias que resultaram no extraordinário desenvolvimento agrícola de Santa Catarina ao Maranhão. Tenho orgulho de o País contar com uma revista do nível alcançado pela A Granja.

A Granja – Sabemos da sua bela história de vida e dedicação à agropecuária. E hoje, como o senhor divide o seu tempo entre trabalho e lazer e, principalmente, quais as suas motivações para continuar trabalhando?

Cardoso - Tenho o privilégio de viver rodeado de 84 pessoas, entre seis filhos, 20 netos e 34 bisnetos, mais os consortes. Enviuvei dois anos atrás e esse convívio tornou- se cada vez mais importante na vida diária. Mudei-me recentemente para um hotel com 110 apartamentos, um estabelecimento especializado na terceira idade. Logo nos primeiros dias passei agradáveis momentos respondendo esta entrevista, o primeiro trabalho após a mudança. Estou me adaptando à nova vida, estou adquirindo novos hábitos e ainda careço de uma rotina. Certamente continuarei lendo tanto os jornais do dia como as revistas dedicadas à agropecuária. Para os fins de semana espero continuar a visitar nossa casa de praia e a curtir minha fazenda em Mogi Mirim/SP, onde venho testando minha agronomia e me reunindo com familiares e amigos. Estabeleci a mim mesmo o desafio de bem recuperar uma fazenda antiga de café com terras esgotadas e erodidas, onde venho atualmente me dedicando ao plantio de cana e à criação de gado Nelore. É como digo aos amigos e familiares: enquanto “tiver gás” estarei lendo, escrevendo, discutindo e estudando a solução de problemas relacionados ao campo. Isso virou um vício.