Anos 1980

Anos 1980 - Ódio do Delfim e o capataz eletrônico

Abertura política do País nos anos 1980 permite à revista assumir as bandeiras e reivindicações do agricultor ou pecuarista, produtor que, entre evoluções na sua atividade, começa a se utilizar da ferramenta informática

Nos anos de abertura política do Brasil, a década de 1980, uma entrevista do presidente da Cooperativa Industrial de Carnes e Derivados (Cicade), Lauro da Silva Tavares, dava o tom dos novos tempos do Brasil. Era uma crítica dura ao então todo poderoso ministro do Planejamento, Delfim Neto, que, segundo o entrevistado, não estaria facilitando a concessão de políticas ao desenvolvimento do pecuarista. “(...) O ministro Delfim Neto odeia o produtor. Ele sempre encontra uma fórmula para prejudicar o setor (...)”. Era a edição de julho de 1981.

No embalo dos tempos democráticos, a linha editorial da revista assumiu bandeiras do segmento agropecuário. “O governo praticamente suprimiu o crédito rural e, com esta redução, eliminação dos subsídios e fechamento das portas do Banco do Brasil, o produtor não tem a quem recorrer, a não ser a instituições privadas, onde o quadro é de poucos recursos, muita burocracia e, sobretudo, juros elevadíssimos”. Essas foram considerações na edição de janeiro de 1985 de Tancredo Neves, eleito Presidente da República, mas que faleceu sem assumir o cargo. “Prioridade tem pouco dinheiro, diz Sarney”, mencionava o texto sobre a participação do presidente José Sarney na abertura da oitava edição da Expointer, em setembro de 1985.

O termo “prioridade” para a agricultura sempre esteve no discurso dos governos; e o ministro Delfim Neto sendo duramente criticado

E em meados daquela década, a informática, então uma ferramenta para muitos ainda distante, passava a ocupar as páginas da revista por causa de sua adoção em algumas propriedades agrícolas. “Aos poucos o computador começa a fazer parte do dia-a-dia da propriedade rural”, mencionava reportagem de janeiro de 1986. “O capataz eletrônico” era o sugestivo título de outra abordagem, de março de 1987. “Incansável, o computador realiza quase todo o serviço na propriedade”, era o enunciado do texto que dimensionava a importância da tecnologia.

A importação de arroz e o efeito que essa política causa aos orizicultores brasileiros ganham as manchetes há muito tempo

Mas ao longo da década de 1980 a revista enfocou muitas outras abordagens políticas que representavam as causas e reivindicações do agricultor ou pecuarista. “Importar arroz é contrasenso”, advertia editorial de abril de 1983; “(...) é muito caro produzir alimentos (...)”, lembrava Olacyr de Moraes, então o Rei da Soja, em ampla entrevista em perguntas e respostas que inaugurou uma nova seção n’A Granja, a Depoimento, atualmente chamada de O Segredo de Quem Faz.

A informática começa a se “popularizar” no campo, nesta reportagem sendo chamada de “capataz eletrônico”

E as tradicionais orientações que jamais deixam de ser úteis aos agropecuaristas seguiram em pauta. Como o enfrentamento da erosão, a mecanização e os defensivos, inclusive o uso responsável destes – uma preocupação da linha editorial da revista até hoje – mereceram muitas capas. “Regras básicas para prevenir acidentes”, era o título de um texto de setembro de 1985, ilustrado por duas pessoas pulverizando devidamente protegidas por Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). Ainda sobre fitossanidade, em junho de 1983, o primeiro registro da pior das ameaças do algodoeiro até as safras atuais: “Bicudo, a nova praga”, era o título de um artigo. “O bicudo do algodoeiro foi constatado oficialmente, pela primeira vez, no município de Jaguariúna, SP, em final de fevereiro do corrente ano”, esclarecia o texto.

Os altos custos de produção no campo e o impacto na mesa das pessoas há muito são evidenciados pelos entrevistados

Também atenção a dois assuntos de que receberam poucas alusões nos anos e décadas anteriores: a armazenagem em nível de propriedade e a irrigação. “Armazenagem na fazenda – Como guardar a safra”, edição de março de 1984, e “A mágica do elefante dentro de um fusquinha”, que esclarecia sobre o descompasso do aumento da produção de grãos e a capacidade armazenadora estagnada, também de março de 1988.

Outro assunto que ganhou enfoque foi “A invasão do Cerrado” pela soja, que então já ocupava 1.618.000 hectares, registro da edição de junho de 1984. “A nova fronteira agrícola, constituída por 180 milhões de hectares nos Cerrados, está sendo aberta, sobretudo, pela expansão da soja (...) Sem dúvida, o maior fator de expansão da cultura soja na região dos Cerrados foi o preço oferecido pelo produto no mercado internacional”, relatava o texto. E edições especiais foram dedicadas aos “pioneiros que estão construindo nossas novas fronteiras agrícolas”, em dezembro 1989/janeiro de 1990, e ainda “O incrível Paraná – o maior plantador de grãos do país”, de dezembro de 1983.

Políticos, sobretudo aqueles com alguma ligação com o campo, sempre foram ouvidos pela A Granja, como o então candidato à Presidência da República

Além disso e muito mais, em abril de 1986, um tema não muito comum à agropecuária da época, porém mais corriqueiro hoje, mereceu um artigo: “Marketing: os dois lados da porteira”, artigo de José Tejon Megido, da Associação Brasileira de Marketing Rural. “(...) vamos traduzir este marketing para bom português”, mencionava ele.