Agricultura Familiar

 

Mercado desafia o produtor de MANDIOCA

Denise Saueressig - [email protected]

Alternativa de renda e diversificação ou cultivo principal, a mandioca é encontrada em propriedades de todas as regiões do País. Resistente e de fácil adaptação, a raiz é cultivada principalmente em áreas de agricultores familiares. O Brasil é o terceiro maior produtor mundial, atrás da Nigéria e da Indonésia. A safra 2014 é estimada em 23,3 milhões de toneladas em uma área colhida de 1,58 milhão de hectares, segundo informações do IBGE e da Embrapa. O número da colheita representa um crescimento de quase 10% sobre o ano passado. Em torno de 40% da produção são destinados à indústria de fécula e farinha, e o restante é voltado para o consumo humano e animal.

A Região Norte abriga a maior parte da produção nacional, com destaque para o estado do Pará, que responde por 4,8 milhões de toneladas do total do País. Na segunda posição vem o Paraná, com 4,073 milhões de toneladas. O estado do Sul é o campeão em produtividade, com 23,5 toneladas por hectare, bem acima da média brasileira, que fica em torno de 14 toneladas.

As diferenças de rendimento nas lavouras ajudam a ilustrar os diversos perfis de produção. Em localidades do Nordeste, por exemplo, a raiz é estratégica tanto para a segurança alimentar dos produtores e dos animais, quanto para a receita da propriedade. “Ao mesmo tempo em que há cultivos bem rústicos e até de beiras de estrada, existem áreas com uma dinâmica bem comercial, como as que vimos no Paraná, no Mato Grosso do Sul, em Santa Catarina e em São Paulo. São regiões que tiveram uma maior evolução tecnológica, motivada pelo crescente mercado da fécula”, destaca o pesquisador Carlos Estevão Cardoso, da Embrapa Mandioca e Fruticultura, em Cruz das Almas/BA.

Com uma série de utilizações na indústria, o que inclui tecidos, papéis, colas, tintas, alimentos embutidos e cosméticos, a produção de fécula teve um incremento importante nos últimos anos. No início da década de 1990, o Brasil produzia 170 mil toneladas de fécula. Em 2002, o volume chegou a 667 mil toneladas e, em 2013, a 473 mil toneladas.

Ciclo de preços baixos — O ano que terminou foi marcado por uma mudança significativa no mercado da mandioca no País. Em 2013, uma forte seca no Nordeste provocou escassez de produto e, consequentemente, alta nos preços, que foram recordes. “A demanda acabou direcionada para estados como Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná, e os valores chegaram a ficar entre R$ 600 e R$ 700 a tonelada, sendo que a média é entre R$ 280 e R$ 300 a tonelada”, lembra o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Amido de Mandioca (Abam), João Eduardo Pasquini. A intensa procura pela raiz também motivou muitos agricultores a investirem na cultura, o que gerou ampliação de área. No entanto, com a normalidade nas plantações do Nordeste, o mercado ficou superofertado e os preços caíram ao longo de 2014. No início do ano, a tonelada era negociada entre R$ 400 e R$ 450, mas em novembro e dezembro, já estava em torno de R$ 230.

Pasquini, que também é produtor e presidente da Amidos Pasquini, empresa em Nova Esperança/PR, acredita que 2015 ainda será um ano de contas apertadas, já que a projeção é de aumento da safra. “Hoje os preços estão próximos dos custos, que aumentaram principalmente pela dificuldade de encontrar mão de obra”, analisa o dirigente, lembrando que o desembolso para a cultura varia entre R$ 180 e R$ 210 a tonelada.

Segundo ele, existem trabalhos com instituições de pesquisa e empresas para o desenvolvimento de máquinas colhedoras da raiz. “A colheita absorve entre 25% e 30% do custo de produção. Já existem alguns equipamentos, mas precisamos avançar mais nesse sentido”, relata.

O presidente da Abam aconselha que os produtores mantenham seus investimentos e projetem as safras de 2016 e 2017. A tendência é de que o mercado volte à normalidade depois da passagem desse ciclo de baixa. “O produtor tradicional está capitalizado pelos resultados dos últimos dois anos e vai manter a sua estrutura”, acrescenta Pasquini.

Assistência e tecnologia — Em Assis Chateaubriand, no Oeste do Paraná, o engenheiro agrônomo e produtor Eder Fortuna cultiva mandioca em 12 hectares há mais de dez anos. Outra área do mesmo tamanho é destinada ao plantio da soja. Assistente técnico da cooperativa C.Vale, ele auxilia outros agricultores da região, onde também trabalha por meio da Associação Técnica das Indústrias de Mandioca do Paraná (Atimop). “Além das condições positivas de clima, solo e fertilidade, os produtores locais têm o apoio da estrutura das fecularias e cooperativas da região, o que é fundamental para a sustentabilidade da cultura”, salienta.

Engenheiro agrônomo Eder Fortuna: assistência técnica auxilia produtores do Oeste do Paraná

A C.Vale mantém duas indústrias para produção de amido de mandioca. A unidade de Assis Chateaubriand pode processar até 400 toneladas de raiz por dia e poderá ser ampliada para 800 toneladas/dia. Uma das linhas de produção é voltada para a fabricação do amido modificado, que é destinado ao branqueamento de papel. A segunda linha fornece amido alimentício para panificadoras e indústrias de embutidos.

Na propriedade da família, Eder Fortuna conta que a produtividade média alcançada em plantas de primeiro ciclo, ou seja, com cerca de um ano de cultivo, é de quase 25 toneladas por hectare. “Com plantas de 24 meses, conseguimos dobrar o rendimento para quase 50 toneladas por hectare e ainda temos a vantagem da redução do custo”, observa.

Um dos desafios da cadeia produtiva está relacionada a novas cultivares disponíveis, considera o agrônomo. Ele cita que instituições como a Embrapa, o Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) e o Instituto Agronômico (IAC), de Campinas/SP, desenvolvem trabalhos de melhoramento genético, mas a maior parte das variedades encontradas no campo ainda são as crioulas, oriundas de seleções aleatórias feitas pelos próprios agricultores.