Eduardo Almeida Reis

 

VETERINÁRIA

Mexendo com vacas e cavalos a vida inteira, desde cedo descobri a importância da Medicina Veterinária e a necessidade de contar com assistência técnica de um bom profissional. Sim, porque há veterinários que deveriam ser proibidos de passar perto de um animal doméstico ou silvestre, assim como há engenheiros incapazes de construir um cômodo de adobe, arquitetos que não sabem projetar uma escada e advogados, milhões deles, que confundem uma caução de rato com um petista de calção.

Hoje considerada expressão bolorenta, caução de rato era garantia exigida do advogado que precisava atuar provisoriamente sem procuração na vigência do Código de Processo Civil de 1939, em que caução = garantia e rato = ratificação, confirmação dos atos praticados. Petista de calção continua sendo o brasileiro do PT metido num short para tomar sol ou banho de piscina.

Durante três anos aluguei uma cobertura em que o imbecil do arquiteto, tendo espaço de sobra, inviabilizou a escada de acesso ao andar de cima desrespeitando as medidas dos degraus. Medidas padronizadas por Ernest Neufert, arquiteto alemão, professor, membro de diversas organizações de normatização, mundialmente conhecido como autor do livro A Arte de Projetar em Arquitetura. Na fazendinha do estado do Rio, quando ampliei a casa original, comprei o manual do Neufert e a escada ficou uma beleza.

Se me ponho a falar das besteiras feitas pelos engenheiros, mesmo aqueles das grandes empresas construtoras de viadutos que desabam e dos bairros inteiros condenados, dezenas de edifícios de quatro andares, como aqueles do Recife – acaba o espaço desta nossa conversa de hoje e não cuido da Medicina Veterinária.

Aqui mesmo n’A Granja, em mais de 30 anos de colaboração regular, andei discutindo por escrito com alguns veterinários. Conheço ótimos profissionais e sou amigo de muitos deles, mas há diversos diplomados que entendem tanto de Medicina Veterinária como entendo de Física Quântica.

A explicação é simples. A primeira escola de Medicina Veterinária surgiu em Lyon, na França, em 1761, fundada pelo advogado Claude Bourgelat, criador de cavalos, com o apoio de seu amigo, o rei Louis XV. Apaixonado por cavalos, Bourgelat não se conformava com a forma como eram tratados. Em 1766, a escola foi transferida para o subúrbio parisiense de Alfort, onde está até hoje.

Em 1875, a Escola de Veterinária de Alfort foi visitada pelo imperador Pedro II, que teve a ideia de criar escola semelhante no Brasil. Depois de várias tentativas frustradas, em 1913 surgiu a Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária. Em 1914, o capitãomédico Muniz Barreto de Aragão fundava Escola de Medicina Veterinária do Exército. Portanto, a primeira tem 101 anos. Qual é a situação atual? O Brasil tem hoje 197 escolas de Medicina Veterinária, 70% delas particulares.

Antes de ser motivo de orgulho, deve ser de preocupação, quando se sabe que a África do Sul tem 1 (uma), a Holanda 1 (uma), a Austrália tem 7, o Canadá tem 5, os Estados Unidos têm 29, o Reino Unido tem 7 e a exagerada Rússia, com seus 17.124.442 km2, o dobro da nossa área, tem 41. Fiquemos com os números norte-americanos e sua espantosa produção: são 29 escolas, contra 197 brasileiras. Temos quase sete vezes mais escolas de Medicina Veterinária que os americanos, e 197 vezes mais que os holandeses e os sul-africanos. São números que recolho de um artigo do veterinário Luiz Octávio Pires Leal, membro da Academia Brasileira de Medicina Veterinária. Pioneira no ramo, a França tem hoje 4 escolas. E a Nova Zelândia, a exemplo da Holanda e da África do Sul, só tem 1.

Lembra o Dr. Pires Leal que a instalação de uma faculdade de veterinária é muito mais cara do que uma de medicina humana, por lidar com todas as espécies domésticas e com a saúde pública. Exige muito mais espaço para a manutenção dos animais em fazendas. Diz ainda que muitas das 197 estão em situação econômico-financeira insustentável, mas continuam diplomando profissionais.

Muitos deles – a constatação é minha – incapazes de se aproximar de uma vaca sem risco de vida para a esposa do touro. Compete, portanto, ao pecuarista, ao suinocultor, ao avicultor, ao dono de um cachorro, avaliar o profissional que vai contratar. Tive um cachorrinho que fez um quadro de verrugas nos lábios. O primeiro veterinário cauterizou-as e disse que, recidivando, seria preciso sacrificar o vira-lata. Com a recidiva, levei o Bolinha a outro veterinário para ser sacrificado. O profissional morreu de rir: “Isto é deficiência de magnésio”. Receitou Magnorbin e o cachorrinho ficou bom na primeira injeção.