Plantio Direto

 

ADUBOS VERDES na substituição de fertilizantes minerais

Walkyria Bueno Scivittaro e Maria Laura Turino Mattos, pesquisadoras da Embrapa Clima Temperado, José Carlos Leite Reis, pesquisador aposentado da Embrapa Clima Temperado, e Takashi Muraoka, pesquisador do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA-USP)

Nas últimas décadas, grande parte do nitrogênio exigido pelas culturas tem sido suprida por fontes minerais sintéticas. O custo elevado desses insumos, aliado à crescente preocupação com a poluição das águas e atmosfera pelo uso indiscriminado de fertilizantes nitrogenados, têm estimulado, porém, a busca de fontes alternativas de nitrogênio, como os adubos verdes, que substituam parcial ou integralmente os fertilizantes minerais.

A adubação verde é uma prática milenar de rotação de culturas, que visa melhorar a capacidade produtiva do solo, aportando-lhe quantidades adicionais de resíduos vegetais. Os adubos verdes têm capacidade para atenuar o processo erosivo e contribuem para a manutenção ou mesmo ao aumento do conteúdo de matéria orgânica do solo ao longo do tempo. Consequentemente, exercem efeito positivo na taxa de infiltração e na disponibilidade de água para as plantas, bem como sobre a fertilidade do solo.

A adubação verde com espécies como o trevo-branco é uma prática milenar de rotação de culturas, que melhora a capacidade produtiva do solo, aportando-lhe quantidades adicionais de resíduos vegetais

Diversas espécies e famílias de plantas (gramíneas, leguminosas, crucíferas, entre outras) podem ser utilizadas na adubação verde, havendo preferência, porém, pelas leguminosas, que apresentam diversas vantagens, mas se destacam pela capacidade de fixar nitrogênio atmosférico, em simbiose com bactérias. Os adubos verdes atuam também na ciclagem de nutrientes do solo, tanto daqueles adicionados por meio de fertilizantes minerais, como daqueles provenientes da mineralização da matéria orgânica do solo. Com exceção do nitrogênio, cuja maior parte provém da fixação biológica, os demais nutrientes são reciclados do próprio solo, muitas vezes localizados em camadas fora do alcance das raízes e em formas pouco assimiláveis, transformando-os em formas mais disponíveis às culturas comerciais.

Vários estudos indicam eficiência de adubos verdes, sobretudo leguminosas, em aumentar a disponibilidade de nitrogênio às culturas em sucessão, particularmente cereais, possibilitando a diminuição da quantidade aplicada de fertilizantes nitrogenados minerais. Além disso, por atuarem como uma rotação de culturas e por cobrirem o solo durante o período de entressafra, os adubos verdes promovem melhorias em atributos físicos, químicos e biológicos do solo, auxiliam no controle de plantas daninhas e reduzem fontes de inóculo de doenças e pragas.

Leguminosas como fonte de nitrogênio para o arroz — O sucesso da prática de adubação verde exige, porém, manejo adequado, baseado no conhecimento do potencial e padrão de fornecimento de nitrogênio das espécies utilizadas como adubo verde, de forma que supram as necessidades de nitrogênio das culturas subsequentes e sustentem produções satisfatórias. Embora pouco difundido no Brasil, o uso de leguminosas como fonte de nitrogênio para o arroz irrigado é mais comum em outras regiões com tradição no cultivo dessa espécie, fornecendo uma fração significativa do nitrogênio requerido pelo cereal.

Na Região Sul do Brasil, maior produtora de arroz, já há indicações de espécies de leguminosas de estação fria com elevado potencial de fixação biológica de nitrogênio e adaptadas ao cultivo em terras de arroz, sendo consideradas fontes potenciais de nitrogênio para o arroz irrigado. São as seguintes espécies: a) as anuais trevo-persa (Trifolium resupinatum), trevo-subterrâneo (Trifolium subterraneum), cornichão-anual (Lotus subbiflorus) e ervilhaca-de-folhasestreitas (Vicia angustifolia); e b) as perenes trevo-branco (Trifolium repens), cornichão (Lotus corniculatus), cornichão- dos-pântanos (Lotus uliginosus/L. pedunculatus) e cornichão-de-folhas-estreitas (Lotus glaber). Mais recentemente também o trevo-anual Trifolium alexandrinum (trevo-alexandrino) passou a ser recomendado para cultivo em áreas de produção de arroz irrigado.

As espécies de cornichão são leguminosas de estação fria com elevado potencial de fixação de nitrogênio que funcionam muito bem na rotação de culturas com o arroz irrigado

Na última década, a Embrapa Clima Temperado, sediada em Pelotas/RS, desenvolveu diversos estudos para avaliar o potencial de fornecimento de nitrogênio de algumas dessas espécies para o arroz irrigado e estabelecer a viabilidade de seu uso em substituição ou suplementação aos fertilizantes nitrogenados minerais. Os estudos demonstraram que o uso de leguminosas como adubo verde resulta em potencial de fornecimento de nitrogênio semelhante ou superior ao da ureia, fonte convencional do nutriente para a cultura.

Os resultados mostraram, ainda, que leguminosas forrageiras de estação fria, tais como trevo-persa, trevo-branco e cornichão-anual, que são adaptadas ao cultivo em áreas de arroz, produzem quantidades elevadas de matéria fresca e seca desde o primeiro ano de cultivo, particularmente o trevo-persa, cujo desempenho destaca-se em relação ao das demais espécies. Assim, essas leguminosas podem ser utilizadas exclusivamente como fonte de nitrogênio para o arroz cultivado em sucessão ou podem ser destinadas para pastejos rápidos ou para a produção de feno e de silagem, sendo esta última opção particularmente interessante para propriedades que integram essa atividade agrícola à pecuária, uma vez que as leguminosas forrageiras apresentam excelente qualidade nutricional e digestibilidade.

Além da grande produção de massa, a característica marcante das leguminosas forrageiras de estação fria é o elevado potencial de fixação biológica de nitrogênio, incorporando ao solo quantidades que superam 100 quilos por hectare, podendo atingir até 170 kg/ha do nutriente. As variações entre espécies estão relacionadas, basicamente, às quantidades de matéria seca produzidas, visto que o teor de nitrogênio no tecido vegetal desses adubos verdes é relativamente próximo, variando de 25 a 35 gramas por quilo.

A magnitude do fornecimento de nitrogênio pelas leguminosas forrageiras trevo-persa, trevo-branco e cornichãoanual equipara-se e, até mesmo, supera as doses do nutriente que são usualmente aplicadas para o arroz irrigado no Sul do Brasil (Reunião Técnica da Cultura de Arroz Irrigado, 2014). Outro aspecto favorável refere-se à suscetibilidade a perdas do nitrogênio contido nas leguminosas forrageiras, a qual, teoricamente, é menor que a de fertilizantes nitrogenados minerais, uma vez que o nitrogênio das leguminosas encontra-se em formas não prontamente disponíveis, com liberação gradual ao longo do período de cultivo do arroz.

O efeito das leguminosas forrageiras de estação fria sobre o desempenho produtivo do arroz irrigado equipara-se ao do uso de fertilizante mineral, sendo superadas, apenas, pelo uso combinado de ambas as fontes de nitrogênio (fertilizante mineral e leguminosas adubos verdes). Isto porque este último manejo associa a pronta disponibilidade das fontes minerais à liberação gradual do nitrogênio dos adubos verdes.

Da mesma forma que, para a produtividade de grãos, a absorção de nitrogênio pelas plantas de arroz é proporcional à quantidade do nutriente incorporada ao sistema, via fertilização mineral ou leguminosa forrageira de estação fria, sendo maior quando da associação das duas fontes do nutriente. Tais observações evidenciam que as leguminosas forrageiras de estação fria, como trevo-persa, trevo-branco e cornichão-anual, constituem- se em alternativas viáveis para o fornecimento de nitrogênio ao arroz irrigado, com efeito semelhante e, em algumas situações, superior ao da ureia.

Vale destacar que, ao considerar o efeito das fontes de nitrogênio sobre o desempenho produtivo do arroz, o manejo mais indicado é o que associa o uso de adubos verdes à ureia, em dose equivalente à aproximadamente a metade da recomendada para a cultura no Sul do Brasil (Reunião Técnica da Cultura de Arroz Irrigado, 2014). Isso ocorre devido ao estímulo à mineralização de nitrogênio das leguminosas, proporcionado pela presença de uma fonte do nutriente prontamente disponível, como a ureia.