Helicoverpa

 

HELICOVERPA veio para ficar e devorar

A Helicoverpa armigera é a praga mais importante e impactante da agricultura na Ásia, na Europa, na África, na Austrália e agora no Brasil, causando danos às culturas e prejuízos socioeconômicos e ambientais. Alimenta-se de mais de uma centena de culturas, foi detectada no Brasil em 2012 e já está amplamente distribuída nas lavouras, tanto de verão como de inverno

Jerson Vanderlei Carús Guedes, Jonas André Arnemann, Clérison Régis Perini e Adriano Arrué Melo, da Universidade Federal de Santa Maria/RS

A lagarta Helicoverpa armigera é uma praga polífaga, extremamente agressiva e amplamente distribuída no mundo. Pode causar impactos difíceis de calcular, visto que ocorre e danifica culturas produtoras de grãos, de fibras, de frutas e hortaliças. A lagarta alimenta-se de mais de 100 espécies de plantas, tem grande capacidade migratória, se reproduz em grande quantidade, é tolerante a alguns inseticidas e já desenvolveu resistência a 48 diferentes modos de ação de inseticidas. Essa lagarta está distribuída em toda a Ásia, Oceania, África e parte da Europa, e em muitos países desses continentes é considerada a praga mais importante.

A praga resiste às variações do clima, como calor ou baixas temperaturas, além de ser pouco afetada por períodos de estiagem. Há sérias dificuldades de controle, especialmente por tolerar naturalmente muitos inseticidas e doses que controlam outras espécies. Esse conjunto de características coloca a espécie como a mais importante e temida pela agricultura brasileira em todos os tempos, visto apresentar riscos a mais de 50 milhões de hectares e possivelmente alguns bilhões de reais, seja pelo aumento do uso de inseticidas ou pelos riscos de perdas aos cultivos como soja, algodão, milho, outros cereais, tabaco, batata, tomate, outras hortaliças, entre outras.

Safra 2013/14 — A invasão de uma praga quarentenária de relevância mundial como a Helicoverpa armigera em um país com ampla e diversa atividade agrícola, produtor de grãos, frutas e fibras, tem implicações diretas e sérias à agricultura. Essa ocorrência determinou, imediatamente após sua detecção, que os produtores iniciassem tentativas de controle utilizando inseticidas químicos e biológicos, aplicados isolados ou em misturas, tanto quanto fosse necessário, e às vezes muito além dessas necessidades. No Sul do Brasil, entretanto, os produtores que seguiram as recomendações com monitoramento e no manejo nos momentos adequados, usando os inseticidas e doses recomendados, não tiveram dificuldades de controle da praga, com casos de grandes dificuldades de controle.

Na safra 2013/14 a H. armigera foi confirmada na grande maioria dos estados produtores de soja e algodão, com variações em sua intensidade e densidade populacional nas diferentes localidades e lavouras. As ocorrências foram verificadas com a coleta e identificação através de adultos (armadilhas de feromônio) em praticamente todo o ciclo da soja e de lagartas com fluxos de ocorrência na fase vegetativa (emergência até V4) e a partir do florescimento, até a colheita, período em que ocorreram populações de H. armigera dividindo espaço com lagartas-falsamedideiras em muitas lavouras de soja. Nesta safra, já há vários registros de ocorrência também.

As perdas ocasionadas na safra de soja 2013/14 variaram de acordo com a época de ocorrência e com a população da praga, e também conforme com o manejo empregado pelo produtor. As reduções de produtividade com seu ataque oscilaram entre zero e 25%. Em áreas localizadas ocorreram perdas superiores, porém, são lavouras que não tiveram monitoramento, reconhecimento da praga e/ou manejo adequados, principalmente quando o manejo foi executado quando o dano já estava consumado, uma vez que a soja tem baixa tolerância à praga. Nesta safra, há uma ocorrência mais precoce e generalizada de adultos, coletados em armadilhas de feromônios.

A lagarta alimenta-se de mais de 100 espécies, como o nabo (foto), tem grande capacidade migratória, se reproduz em quantidade e já desenvolveu resistência a 48 diferentes modos de ação de inseticidas

Outono/inverno e primavera — No outono/inverno de 2014 observouse Helicoverpa armigera em várias regiões de cultivo do Sul do Brasil, em culturas como o feijão, girassol na safrinha, ervilhaca e trigo, e também em plantas de soja guaxa e nabo. Essas populações podem ter se originado de lagartas, pupas e de adultos que estavam na soja e que utilizam esses hospedeiros para completar seu ciclo ou até para fazer novas gerações. Os cereais de inverno como trigo, aveia, cevada e centeio serviram de hospedeiro de H. armigera no período de inverno/primavera, e essas culturas são o ponto de partida para retomar o manejo da praga.

Além disso, foi detectada a presença de lagartas de H. armigera atacando a cultura do trigo em algumas lavouras, no período de enchimento de grãos e durante a colheita. O inverno ameno e a alta umidade podem ter favorecido a manutenção e a sobrevivência das populações da lagarta nas culturas. Isso serve de alerta para os produtores e agrônomos realizarem um monitoramento intensivo nessas áreas. De outro lado, as primeiras ocorrências ratificadas com armadilhas indicam que a população está mais bem distribuída que na safra 2013/14.

O enfrentamento nesta safra — A confirmação da ocorrência e ampla distribuição de H. armigera na última safra de verão, no inverno e também na safra que se inicia, serve de alerta aos produtores, pois mostra que a praga está instalada e veio para ficar, apontando para sua ocorrência nas próximas culturas e ampliando os riscos para a safra de verão 2014/15. O Laboratório de Manejo de Pragas (LabMIP) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), de Santa Maria/RS, confirmou “positivas” as primeiras amostras coletadas na safra 2014/15. As mariposas foram coletadas em todas as regiões produtoras de soja do Rio Grande do Sul, do restante do Sul do Brasil e de outros estados produtores de soja.

Monitoramento e danos — A ocorrência de mariposas nos meses de outubro e novembro de 2014 indicam um grande risco da presença de lagartas da espécie H. armigera nas plantas de primavera e/ou, logo após a emergência nas plantas de soja. Considerando as dificuldades de manejar adultos, a proteção da soja tem que vir do manejo nas plantas de cobertura (inseticidas na dessecação), do tratamento de sementes e do controle de lagartas na fase vegetativa da cultura.

As lagartas somente podem ser detectadas com um rigoroso monitoramento das plantas de primavera agora presentes nas áreas e pelo monitoramento das plantas de soja recém-emergidas. O monitoramento das mariposas (adultos) é o recurso primário, mais precoce e possivelmente um dos mais eficientes. Entretanto, a necessidade de uma ampla distribuição das armadilhas, sua verificação sistemática e identificação dos adultos, dificultam sua adoção em ampla escala.

O monitoramento na soja deve ser dividido por fases, e quando as plantas estão maiores, utiliza-se o pano vertical com calha para fazer a batida de pano em dois metros de fileira (um metro quadrado)

O monitoramento de lagartas na soja deve ser dividido por etapas, em que durante as fases iniciais as plantas são vistoriadas diretamente, e após, quando as plantas estão maiores, utiliza- se o pano vertical com calha para fazer a batida de pano em dois metros de fileira de soja (um metro quadrado). Nesse período inicial de desenvolvimento da soja, preconiza-se vistoriar minuciosamente as folhas e especialmente os brotos.

Na soja, os danos da H. armigera ocorrem desde a emergência das plantas, quando ataca os cotilédones e secciona as plantas sob ou sobre os cotilédones. A partir do estágio V3, a lagarta comporta-se como desfolhadora e ataca o broto terminal. No período reprodutivo, alimenta-se tanto do botão floral quanto dos grãos, fazendo uma pequena abertura circular no legume, justamente sobre o grão onde se alimenta. Nessa fase, o controle é muito mais difícil. As severas perdas causadas pelo seu ataque ao rendimento da soja devem-se ao consumo de flores, gemas terminais e axilares, além de legumes.

A decisão de controlar (Nível de Controle) a H. armigera em soja é baseada na situação local/regional do produtor de soja, na expectativa de produção da sua lavoura, no custo do controle e no preço a ser recebido pela saca. Assim, os Níveis de Controle de Jerson Guedes O monitoramento na soja deve ser dividido por fases, e quando as plantas estão maiores, utiliza-se o pano vertical com calha para fazer a batida de pano em dois metros de fileira (um metro quadrado) H. armigera em soja variam ao longo do ciclo da cultura e de produtor para produtor, variando de 0,5 a 3 lagartas/ metros quadrados para o período reprodutivo, dependo do cenário. Essas densidades são muito pequenas quando comparadas às outras espécies de lagartas, e por isso, para serem detectadas, dependem de um eficiente programa de monitoramento da ocorrência e densidade de H. armigera durante o ciclo da cultura.

O controle pode ser feito com pulverizações em área total, com inseticidas biológicos à base de Bt e vírus e de vários grupos químicos, dos quais muitos são eficientes para a praga. Assim, é possível controlar H. armigera com detecção precoce (monitoramento) e tomada de decisão de controle com baixas densidades (Nível de Controle de uma a duas lagartas/metros quadrados), utilizando inseticidas e doses adequadas.