Colheitadeiras

 

COLHEDORAS: diferentes sistemas de trilha e separação

Apesar da consolidação do termo “colheitadeira”, a definição correta é “colhedora”, máquinas que possuem três sistemas diferentes de trilha e separação: tangenciais (convencionais), axiais e híbridas

Engenheiro mecânico Cesar Gabriel dos Santos, mestrando em Engenharia Agrícola, UFSM, e engenheiro mecânico Arno Dallmeyer, doutor em Agronomia, professor titular do DEM/UFSM

O termo “colheitadeira”, como são denominadas as máquinas automotrizes de colheita de cereais, formalizou-se equivocadamente em 1984 quando um comitê técnico reuniu- se para padronizar e oficializar os termos técnicos da área. O comitê definiu “colhedora” como sendo o termo correto para descrever a máquina que tem como principal função a operação de colher. Porém, ao redigir o documento final, o redator equivocadamente alterou colhedora para colheitadeira. De tal forma que o documento foi publicado e consolidou-se o termo colheitadeira. Para muitas regiões do Brasil, o termo colheitadeira é um termo regionalista do Sul do País.

No mercado nacional são comercializados três diferentes sistemas responsáveis pela trilha e separação do grão da palhada, que são os seguintes: tangencial ou convencional, axial e híbrido.

Destacam-se 23 modelos que utilizam sistema axial, comercializados sob cinco diferentes marcas. O sistema tangencial apresenta dez modelos diferentes e o sistema híbrido corresponde a quatro modelos. Qual é a diferença de trilha e separação existente entre os sistemas? A seguir é apresentado o princípio de funcionamento de cada sistema. As informações foram coletadas nos catálogos técnicos disponíveis nos sites nacionais de seus respectivos fabricantes. Por não haver uma padronização das informações técnicas entre os catálogos das marcas, foi realizada uma pesquisa junto às revendas, mas persistiu a ausência de alguns dados técnicos.

Colhedoras tangenciais ou convencionais — As colhedoras tangenciais apresentam o mesmo princípio de trilha e separação de suas antecessoras, as trilhadoras (trilhadeiras). O modelo 75 foi fabricada em Horizontina/RS pela extinta Pampa Indústria de Máquinas Agrícolas Ltda. O fluxo do material é igual ao das atuais colhedoras tangenciais.

Após o corte e recolhimento da cultura pela plataforma, o material é conduzido até o sistema de alimentação por um caracol ou por uma esteira (sistema dreaper). A esteira alimentadora transporta a cultura até o cilindro de trilha (1) que pode ser constituído por barras ou hastes (dedos), que é montado transversalmente ao corpo da colhedora. Nessa etapa, o grão e a palhada sofrem o processo de trilha tangente ao cilindro e ao côncavo (2). O cilindro batedor (3) tem a função de diminuir a aceleração da cultura e distribuir de forma homogênea o grão e a palhada no saca-palhas (4). O saca-palhas continua a separação do grão da palha através da ação da gravidade e com o movimento rotativo alternado. Nesse sistema, o grão tende a sofrer maiores impactos, sendo que o grão e a palhada são lançados repetitivas vezes para cima e com a ação da gravidade colidem com o saca-palha, podendo danificar os grãos.

Existem diferenças dimensionais entre as marcas. O cilindro de trilha apresenta uma variação de 50 mm no seu diâmetro. O modelo com menor diâmetro é o da MF 5650 da Massey Ferguson, com 560 mm, e o maior diâmetro do cilindro de trilha está presente nos modelos 1175 e 1470 da John Deere, com 610 mm. O modelo com maior área de separação é a TC 5090 da New Holland com 6,3 m², e a menor área de separação está presente no modelo TC 5070 com 5,1 m². A TC 5090 da New Holland é o único modelo com seis saca-palhas. O comprimento varia entre 3.485 mm (TC 5070 e TC 5090 da New Holland) a 4.400 mm (MF 32 Advanced da Massey Ferguson).

SISTEMA DE TRILHA

Tangencial

Axial

Híbrido

Colhedoras axiais — As colhedoras de fluxo axial chegaram ao mercado em 1975, quando a New Holland lançou uma colhedora com dois rotores paralelos, com a função de alimentação, trilha e separação. Nas colhedoras axiais, o fluxo do grão segue ao longo do cilindro de trilha (rotor) que é montado longitudinalmente no corpo da máquina.

O sistema de alimentação é realizado por correntes e travessas. Em alguns modelos há um cilindro montado transversalmente entre o cilindro alimentador e o rotor, com a finalidade de homogeneizar a alimentação da cultura. A operação de trilha ou debulha é executada no primeiro terço do comprimento do rotor. No restante do comprimento ocorre a operação de separação dos grãos da palha. O sistema de limpeza é o convencional, onde o ar é gerado pelo ventilador e conduzido ao longo das peneiras. Desta forma, a grande diferença construtiva entre o sistema tangencial e o axial está no sistema de trilha e separação.

O principal componente do sistema axial é o rotor, sendo que seu diâmetro e comprimento podem variar conforme o projeto. Das cinco marcas, a New Holland é a única que comercializa colhedoras com dois rotores. As colhedoras constituídas por dois rotores apresentam um menor diâmetro e cada um dos rotores apresenta um sentido de rotação. Segundo a New Holland, essa tecnologia exclusiva proporciona grande capacidade de trilha, devido à elevada força centrífuga gerada pelo menor diâmetro do rotor.

Observa-se que em uma mesma marca dois ou mais modelos de colhedoras apresentam o rotor com as mesmas características dimensionais. A menor área de trilha está presente no modelo S540 da John Deere, com 0,9 m², e a maior área de trilha está disponível nos modelos MF 9690 e MF 9790 da Massey Ferguson, e BC 6500 e BC 7500 da Valtra, ambos fabricados pela AGCO, em Santa Rosa/RS. A maior área de separação está presente das colhedoras MF 9895 da Massey Ferguson e BC 8800 da Valtra, com 2,2 m², e a menor área de separação encontra-se nos modelos BC 6500 e BC 7500 da Valtra. Considerando-se a área total (trilha + separação), os modelos que apresentam a maior área são a MF 9895 e a BC 8800, com 3,56 m², fabricados respectivamente pela Massey Ferguson e Valtra. A menor área total está presente nos modelos CR 5080, CR 6080, CR 9060 e CR 9060 Premium, com 2,43 m², da New Holland.

Colhedoras híbridas — O sistema híbrido, embora conhecido há várias décadas na Europa, foi apresentado ao mercado brasileiro por fabricantes independentes, fornecedores de componentes para colhedoras. Por seu bom funcionamento na separação da cultura do arroz, popularizou-se como sistema adequado para essa cultura, aumentando sensivelmente o rendimento das colhedoras em tal cultura. Constatada a eficiência do sistema, ele acabou sendo absorvido nos projetos oficiais de dois fabricantes estabelecidos no Brasil.

O sistema híbrido apresenta características do sistema tangencial (convencional) e do sistema axial. O mecanismo de trilha corresponde ao sistema tangencial, onde a cultura passa tangenciando o cilindro de trilha (1) e o côncavo (2), resultando no processo de trilha, e após o cilindro batedor (3) auxilia na distribuição homogênea do grão e da palhada nos rotores (4). Devido ao processo de trilha ser executado pelo cilindro de trilha, o rotor é de projeto simplificado, sendo que ele apresenta a função de separação do grão da palhada pela ação da força centrífuga. O sistema híbrido possibilita a colheita de grandes volumes de palhada com alto teor de umidade, sendo utilizado principalmente na cultura do arroz.

A escolha da mais adequada — Embora exista uma boa diversidade de colhedoras de cereais fabricadas no Brasil (mais de 35 modelos), com tendência ao crescimento das capacidades operacionais, o mercado ressente-se de máquinas de pequeno e médio porte destinadas aos médios produtores e as áreas com maior declividade. Entende-se que há o aspecto do custo específico desse tipo de equipamento, mas deveria ser buscado o preenchimento dessa lacuna. Nas condições atuais, o pequeno e o médio produtor apenas conseguem adquirir máquinas maiores usadas, devido ao seu custo diminuído pela depreciação. No entanto, nem sempre as dimensões das colhedoras são as mais adequadas às lavouras a que se destinam.

As máquinas fabricadas no Brasil atualmente têm tecnologias incorporadas no mesmo nível das colhedoras fabricadas nos países de origem das empresas. Portanto, não há mais diferença de patamar tecnológico entre as máquinas nacionais e a maioria das estrangeiras, o que dá ao agricultor a certeza de poder produzir com a melhor tecnologia mundial disponível para a colheita. Com relação aos sistemas de trilha e separação, não se pode dizer que o sistema A, B ou C é o melhor. Cada sistema apresenta características únicas para cada tipo de operação. Ao agricultor cabe realizar o planejamento e a seleção mais adequados às suas características operacionais, levando em consideração os mais variados fatores de influência.

As colhedoras tangenciais apresentam o mesmo princípio de trilha e separação de suas antecessoras, as trilhadoras ou trilhadeiras, como o modelo 75, que foi fabricado em Horizontina/RS pela extinta Pampa