Reportagem de Capa

 

O perfil do futuro AGRICULTOR FAMILIAR

A atividade agrícola empreendida pelas mãos familiares está se submetendo a mudanças significativas nos anos recentes, após ter sido trabalhada por muito tempo de maneira clássica: o filho reproduzindo as práticas do pai, que repetiu as de seu progenitor. As implacáveis exigências sociais e de mercado estão depurando os novos agricultores familiares, jovens que vão precisar de novas aptidões e qualificações para se adaptar às realidades de um mundo que muda muito rapidamente – também no campo

Leandro Mariani Mittmann - [email protected]

Tiago Klug, 26 anos, de São Lourenço do Sul/RS: com formação de técnico agrícola, seguirá na agricultura como os pais, mas investirá em nichos como uva de mesa, pêssego e citros

Que relação pode existir entre Roma, a histórica capital italiana, São Lourenço do Sul, um pequeno município às margens da Lagoa dos Patos no extremo-sul do Rio Grande do Sul, e o ano de 2050? Em outubro, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) divulgou um estudo em Roma alertando que o mundo tem mais de 800 milhões de pessoas passando fome, e caberá à agricultura familiar que – segundo a instituição – produz oito entre cada dez quilos de alimentos no planeta, acudir esses famintos. A mesma FAO já alertara ser impositivo expandir a produção global de comida em 70% nos próximos 35 anos para atender a demanda de quase 2 bilhões de habitantes a mais que a humanidade abrigará em 2050 – ou 9 bilhões de pessoas. E, ainda conforme a instituição, caberá à agricultura brasileira suprir 40% da necessidade complementar de alimentos.

“Temos grandes expectativas na agricultura brasileira, que está crescendo e se fortalecendo”, sintetiza Alan Bojanic, representante da FAO no Brasil. O engenheiro agrônomo estima que a agricultura familiar brasileira tem potencialidades para duplicar a produção em apenas dez anos. “Nós da FAO estamos botando muita esperança para a segurança alimentar do mundo”, revela o que espera da agropecuária brasileira. Mais do que ser responsável pela geração de comida, ele lembra que a agricultura verde-amarela tem características semelhantes às dos países africanos e asiáticos, justamente os mais necessitados em produzir alimentos. Portanto, esses podem (e já estão pelo trabalho da Embrapa) importar práticas e tecnologias brasileiras. “A contribuição pode ser muito grande”. O dirigente ainda destaca que 2014 foi determinado pela ONU como o Ano Internacional da Agricultura Familiar justamente pela relevância que esse segmento tem na segurança alimentar do mundo.

E onde entra a pacata São Lourenço do Sul nessa profusão de previsões e expectativas? O morador do município Tiago Klug, 26 anos, é de uma família historicamente agrícola que já produziu ou ainda produz de tudo, desde os cultivos mais tradicionais como soja, milho, feijão e arroz, até os menos comuns, como melancia, batata, pêssego e até enxerto de frutíferas. Klug, que cursou Técnicas Agrícolas no ensino médio e é uma liderança sindical rural (inclusive já presidiu o sindicato local), agora está se dedicando ao cultivo de uva de mesa. Por enquanto, em apenas meio hectare, mas o projeto é chegar a quatro hectares entre três e quatro anos. “Vou continuar investindo na propriedade e na produção, e fazer com que ela volte as suas origens. Não nos mesmos modelos em que trabalhava meu avô, que sustentava cinco filhos, dois deles com família, em uma área de dez hectares”, projeta.

O jovem agricultor conheceu em casa como sempre foi conduzida a agricultura familiar tradicional, e ele e a família ainda cultivam 20 hectares de milho e outros 17 de arroz, ou pela observação das lavouras dos vizinhos, pois 60% do PIB agrícola do município é proveniente do tabaco, enquanto que o arroz irrigado igualmente tem muita relevância local. Mas ele tem buscado agora uma alternativa de cultivo para se tornar um agricultor familiar viável economicamente no futuro. Klug colhe 10 mil quilos no meio hectare que cultiva, comercializado em mercados e feiras locais de R$ 2,50 a R$ 3,00 o quilo. Se mantiver a boa produtividade, obterá 80 mil quilos quando atingir a produção plena nos quatro hectares, portanto, uma renda bruta de R$ 200 mil a 240 mil por ano. “Mas a ideia é ir ampliando a variedade de frutas a produzir. O pêssego é uma aposta para daqui mais uns anos, além de frutas cítricas”, revela. O agricultor planeja começar com meio hectare de pêssegos para “conhecer o mercado”. “Em pêssego, tenho que melhorar os meus conhecimentos. Se der certo, irei ampliando a produção”.

Toda a uva consumida no município percorre centenas de quilômetros, desde a Serra Gaúcha, o que a deixa custosa. “Se tu tiver um produto bom e daqui, tem mais chance de dar certo”, avalia. Ele lembra que a região já foi produtora de diferentes espécies de frutíferas, atividades abandonadas. Klug fala com conhecimento de causa, pois como técnico agrícola trabalhou na assistência técnica fomentando a diversificação das propriedades. “É uma retomada do que já existia”, considera. “O agricultor tem que começar a buscar o diferencial, um local de comercialização. Não esperar alguém buscar o produto na propriedade”, entende. “Se o produtor não valorizar o que produz, ele não sobrevive na agricultura familiar”.

Seria Tiago Klug o agricultor familiar do futuro? Aquele que, a pedido encarecido da FAO, tem a missão de alimentar o mundo no futuro? O jovem gaúcho tem formação como técnico agrícola (ou seja, estudou na área que atua), é empreendedor, pois sabe que os modelos tradicionais de exploração agrícola precisam ser substituídos, já descobriu que saber inserir- se no mercado, portanto, comercializar bem – inclusive ele mesmo vende a própria produção, sem atravessador – é tão importante quanto entender de cultivos. Esta reportagem ouviu estudiosos e lideranças em agricultura familiar na tentativa de configurar o modelo do novo agricultor familiar, o jovem de hoje que não planeja deixar o campo nos próximos 35 anos (até 2050). Para isso, ele terá que ser o protagonista em uma agricultura forçosamente muito diferente da praticada pouco tempo atrás pelo pai que, por sua vez, imitou a implementada pelo avô.

Importância— Assim como no planeta, no Brasil, a agricultura exercida pelas mãos familiares é de extrema significância para a segurança alimentar. E também aos números da economia do País e para o equilíbrio social da própria nação. No mundo, 80% dos 570 milhões de propriedades agrícolas são familiares. Muito semelhante ao Brasil, cujos números mais recentes têm quase dez anos, do Censo Agropecuário de 2006, que apontavam 84% dos estabelecimentos agrícolas familiares. Eram 4,367milhões de empreendimentos, em 80 milhões de hectares, que empregavam 12,3 milhões de pessoas. O PIB da agropecuária familiar representava 32%, ante 68% da patronal. E em relação ao PIB total do Brasil, tinha fatia de 9%.

Portanto, pelos números fica evidente o tamanho da expressão da agricultura familiar. Por uma série de razões, no entanto, algumas intrínsecas à atividade agrícola (como a imposição das leis de mercado, que purgam quem não tem eficiência) e outras naturais ao momento econômico pelo qual passa o Brasil (como a recente geração de milhões de empregos urbanos), as populações rurais estão encolhendo, ano após ano e, mais flagrantemente, geração após geração. Em 2010, o contingente rural representava 15,7% da população total do Brasil, ante 18,8% em 2000 e 24,5% em 1991, estatísticas do IBGE.

Um exemplo notório: o Rio Grande do Sul, estado de agricultura historicamente de predominância familiar, perdeu 48% de sua população rural desde os anos 1970. Hoje existe em solo gaúcho 382 mil propriedades familiares, mas apenas 283 mil jovens na faixa etária de 14 a 24 anos moram no meio. Portanto, menos de um herdeiro por empreendimento. Outro exemplo, ao lado: em Santa Catarina, mais especificamente na Região Oeste, que sedia um gigantesco complexo agroindustrial de derivados de carnes suína e de aves calcado sobre a produção de agricultores familiares (terra das marcas Sadia, Perdigão, Seara e Aurora), a população rural encolheu 20% de 1991 a 2000, enquanto a total cresceu 5,4%. Entre 2000 e 2007, houve na região a debandada de 39 mil pessoas do meio rural. Em apenas uma década, dos anos 1980 a 1990, o contingente de suinocultores caiu de 67 mil para 20 mil.

“Estragar o corpo”, nem pensar — De acordo com Clovis Dorigon, pesquisador do Centro de Pesquisa para Agricultura Familiar (Cepaf), da Epagri, a empresa pública de pesquisa e extensão rural de Santa Catarina, sediado em Chapecó (o principal município da região), na base dessa indústria alimentar “está uma dinâmica e moderna agricultura familiar” alicerçada em 80 mil estabelecimentos, dos quais 95% são de agricultores de base familiar e 70 mil deles possuem até 20 hectares. Dorigon é autor, com Arlene Renk, de um livro que aborda o problema do êxodo rural na região – “Juventude Rural, Cultura e Mudança Social”. “Verificamos que os jovens não mais querem desenvolver as mesmas atividades que seus pais desenvolvem, como produção de grãos, suínos, aves ou leite”, afirma. “Neste estudo, mostramos que há uma mudança na ética do trabalho na atual geração de jovens. Anteriormente o trabalho duro, pesado da agricultura era valorizado, representado pela frase ‘o trabalho adoça a vida’. Já a atual geração de jovens não pensa mais como seus pais, e vai dizer ‘o trabalho estraga o corpo’”, complementa.

Os jovens da região estão estudando mais, até porque se multiplicaram as universidades, inclusive com a difusão de seus campi nos diversos municípios menores. Isso naturalmente resultaria na melhor qualificação deles que, assim, estariam mais preparados para gerir seus empreendimentos rurais. “No entanto, os jovens estão migrando para o meio urbano em busca de melhores oportunidades de trabalho”, conta Dorigon. “Muitos avicultores, por exemplo, com idade entre 40 e 50 anos terão que abandonar a atividade devido à ausência de sucessores na propriedade, pois os filhos migraram para a cidade”, relata.

Os problemas da região catarinense são, via de regra, os mesmos ou muito semelhantes aos de outras regiões de predominância da agricultura familiar. Mas o que está acontecendo? “As questões de gênero, autonomia, renda, reconhecimento e ligadas ao próprio processo de sucessão na propriedade familiar são fundamentais”, sintetiza a questão o professor Jonas Anderson Simões das Neves, da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), campus de Itaqui/RS, e integrante do Grupo de Estudos e Pesquisa Agricultura Familiar e Desenvolvimento Rural (Gepad), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Anderson desenvolveu um trabalho junto a jovens de famílias produtoras de tabaco de São Lourenço do Sul, o município de Tiago Klug, para saber das visões e perspectivas deles na agricultura familiar.

Sem perspectivas — O professor deixa claro que o jovem não visualiza para si no futuro a realidade que observou seu pai usufruir por décadas na profissão. “Com a vida marcada pela precariedade e constantes dificuldades em termos de produção e consumo, os jovens de famílias com menos recursos demonstram uma tendência de abandono da atividade”, descreve. Afinal, projetam um futuro de melhorias a partir de uma idealização de vida na cidade, o que nem sempre se concretiza, ainda que integrantes de famílias em melhores condições econômicas tenham uma tendência maior pela permanência no campo.

Dorigon, da Epagri/SC: “Os jovens não querem mais desenvolver as mesmas atividades que seus pais desenvolvem, como produção de grãos, suínos, aves ou leite”

Ao mesmo tempo, ressalta Anderson, houve sim evolução da vida no campo nos anos recentes, assim como ocorreu no País como um todo. “Os principais beneficiários desta melhoria da qualidade de vida entre a população rural foram os jovens, seja porque estão acessando maiores níveis de escolarização e aumentaram a perspectiva de continuar estudando, quanto porque a própria estrutura das propriedades familiares foi melhorada, de forma que seu leque de oportunidades foi significativamente ampliado”, avalia. “A sociedade brasileira está vivenciando significativas transformações sociais, as quais têm impactado diretamente sobres os jovens rurais”, explica.

Dificuldade para casar — Pouca coisa incomoda tanto o jovem e mais o instiga a abandonar a casa dos pais – neste caso, o negócio da família – do que ser tratado como um empregado. O rapaz não quer pedir mesada para o pai, ser protagonista no momento de trabalhar e coadjuvante na hora de repartir os ganhos. O habitual na agricultura familiar é a administração do negócio pelo “caixa único”, para onde vai toda a receita da família, sendo que a administração é exclusiva da mão forte do pai. “Desta forma, sempre que os jovens precisam ou querem alguma coisa ou sair, é necessário negociar com o pai para obter o dinheiro, situação que, segundo minha pesquisa, os jovens acham normal até os 18 anos, aceitam até os 21, e que daí em diante passam a questionar”, descreve. Muitos, inclusive, dedicam- se a alternativas de renda extra, como um cultivo próprio na unidade.

Como cada vez há menos moças no meio rural, mesmo os rapazes que querem ficar acabam saindo pela dificuldade de encontrar companheiras, explica Anderson, da Unipampa

Nesta relação com os pais, pode surgir outro impasse muito comum, a sucessão. Segundo o professor, as pesquisas com a agricultura familiar revelam que dentro do processo de escolha do pai para passar o bastão, a moça é preterida em prol do filho homem. Na sua pesquisa, essa situação apareceu ainda mais agravada, pois ele observou que apenas iriam permanecer como herdeiras as filhas únicas e as que já tinham namorado agricultor. Além de excluídas do processo sucessório, elas também enfrentam mais dificuldades do que os rapazes em questões de renda e autonomia, pois normalmente não lhes é concedida a possibilidade de rendimento pela exploração autônoma na propriedade, visto que não são consideradas habilitadas para isso. Sem contar um certo preconceito, visto que o costumeiro é o rapaz ganhar uma moto para os deslocamentos, enquanto a moça é agraciada com uma bicicleta.

Eis, então, uma das principais explicações para o êxodo rural. A filha não é incentivada a herdar o negócio dos pais, enxerga na cidade oportunidades de trabalho (um salário, a independência) e assim deixa o campo. Por isso, tem ocorrido a chamada masculinização do meio rural. E, portanto, com a deserção das mulheres, o que obviamente acontece? “Cada vez há menos moças no meio rural, o que também significa que mesmo os rapazes que planejam permanecer na agricultura possuem dificuldades para encontrar companheiras e, em alguns casos, acabam optando pela migração, em um fenômeno que tem implicado também em um processo de envelhecimento da população rural, pois se alguns rapazes e parte muito significativa das moças já optava pelo meio urbano como local de trabalho e moradia, uma outra parte da população jovem rural que estaria disposta a permanecer, no caso os jovens rapazes, também acaba abandonando seu local de moradia pela dificuldade de encontrar companheiras”, interpreta Anderson.

Esses são alguns dos problemas severos da agricultura familiar brasileira. Neste contexto, o que deve ser feito para que os jovens, inclusive por iniciativa deles, se enraízem no campo, assumam o negócio dos pais como estes o fizeram no passado e, sobretudo, sejam vitoriosos na atividade agrícola, viáveis economicamente, para que seus filhos idealizem ali também seu futuro. E, então, possam todos, geração após geração, ser protagonistas da segurança alimentar do mundo como espera a FAO – e milhões de bocas. As ideias, as sugestões e, inclusive, os exemplos, são muitos. A agricultura familiar brasileira é ampla e diversa, de acordo com as peculiaridades das muitas regiões agrícolas. Independentemente do lugar e de suas aptidões agrícolas, das condições socioeconômicas do agricultor, as prescrições são muito parecidas. E soluções estão em curso.

Agroindustrialização é agregar — Do ponto de vista econômico, uma característica que já é inerente à agricultura familiar, a exploração de mais de uma atividade agrícola ou pecuária, é um oportuno privilégio do pequeno produtor. “Não dá para sobreviver na agricultura familiar com uma única cultura”, lembra Clenio Pillon, chefe da Embrapa Clima Temperado, sediada em Pelotas/RS. “Quando o agricultor diversifica, ele reduz os riscos”. Pillon refere-se desde às ameaças do clima quanto às do mercado. Mas mais do que diversificar, é impositivo agregar renda ao que se produz na propriedade. Pois simplesmente repassar ao mercado a matéria- prima gerada nem sempre o retorno é digno do trabalho ali empreendido. A família agricultora que desde sempre processou seus alimentos para consumo próprio, como embutidos de carne, laticínios e doces, pode comercializá-los, sobretudo diretamente ao consumidor, agregando uma justa renda.

Os pais de Rubia Pezenatto, de Nova Erechim, município de cinco mil habitantes no Oeste catarinense, investiam nos anos 1990 em lavouras de milho e soja e na produção de suínos em ciclo completo (do leitão à venda para abate). Mesmo associados a uma cooperativa, em meio a uma crise generalizada do segmento suinícola, em 1995, eles concluíram ser inviável economicamente a produção e venda da commodity suíno. A saída prática e imediata foi abater animais em casa e comercializar a carne in natura nas redondezas. “Aí começava a surgir a ideia de agregar valor sobre a carne suína”, conta Rubia, que é filha única e tem 22 anos. O negócio dos Pezenatto acabou evoluindo e deixou a informalidade e se tornou uma agroindústria com sede própria de 194 metros quadrados e todas as inspeções sanitárias exigidas para atuar no mercado. Os produtos são comercializados em mercados, restaurantes, mercearias e pelos Programas Nacional de Alimentação Escolar e de Aquisição de Alimentos.

Uma vez por semana, 30 animais são abatidos, 70% deles adquiridos de outros suinocultores. A produção e a venda de suínos vivos prossegue, assim como a exploração de 9,6 hectares de soja e milho (o cereal para alimentação dos animais). Rubia é acadêmica do sétimo semestre de Engenharia de Alimentos, curso que possibilita aprender muito sobre a produção de alimentos e também a administrar um negócio. “Tenho em mente milhares de coisas que eu poderia fazer na propriedade”, conta. A ideia dela é fabricar produtos diferenciados a partir da carne suína. No caso da linguiça, o empreendimento oferece apenas a espécie toscana. Dá para fazer mais.

Rubia, 22 anos, de Nova Erechim/SC: cursando Engenharia de Alimentos, pretende levar adiante a pequena agroindústria de carnes que os pais criaram após crise na produção de suínos

Pelo depoimento, é possível deduzir se Rubia vai migrar para a cidade, em busca de emprego, até pela sua formação em nível superior, ou se será uma produtora de alimentos por pelo menos mais 35 anos? “Meu objetivo é permanecer, porque é um negócio que deu muito certo”, anuncia. “Pretendo seguir no negócio da família, porque cresci observando a luta dos meus pais no agronegócio e podendo ver que o ramo que eles tinham optado estava dando certo. Era uma forma de se sustentar na agricultura apesar das inúmeras dificuldades que tinham que enfrentar para conseguir tocar a agroindústria adiante, perante muitas burocracias e outras complicações”, expõe. “É um ramo que me dá muito orgulho. Temos retorno: o cliente compra e elogia e isso é muito gostoso”, confidencia.

Atender aos novos consumidores — As estatísticas evidenciam a migração do campo para a cidade. Mas a recente ascensão econômico- social de milhões de pessoas nos meios urbanos, que melhoraram de vida e estão se alimentando mais e exigindo alimentos de qualidade, também está criando possibilidades no campo. Fábio Deitos, 26 anos, tem formação em Contabilidade, e com dois amigos investirão entre R$ 250 mil e R$ 300 mil em uma agroindústria de polpas de frutas em Seara, também na Região Oeste de Santa Catarina. A venda será para bares e restaurantes da região e também das praias catarinenses, que recebem milhões de turistas. Visto a carência de matéria-prima de frutas orgânicas, no início serão processadas também as convencionais, mas o plano para um segundo momento é trabalhar exclusivemente com produtos orgânicos. Apenas em 2014 esse segmento deverá crescer 35% no Brasil, segundo o Projeto Organics Brasil. “A população quer comer melhor”, justifica o jovem o objetivo de investir nos produtos ecológicos. “Com agroindústrias familiares é mais fácil o jovem ficar (no campo) do que quando tem os cultivos convencionais e suínos, que não dão o rendimento esperado”, analisa.

Tanto Deitos como Rubia têm em Chapecó o apoio da Associação dos Pequenos Agricultores do Oeste Catarinense (Apaco), uma ONG criada 25 anos atrás pela Igreja Católica para prestar apoio a pequenos agricultores que estavam sendo excluídos do mercado ao final dos anos 1980 pela avassaladora adoção de modernas tecnologias a que o agronegócio e as grandes agroindústrias de aves e suínos se submeteram. A entidade, sustentada pelos próprios agricultores, assessora mil famílias de 30 municípios, e mantém a marca Sabor Colonial impressa em 1.400 itens desde vassouras, embutidos, geleias e até leite longa vida, comercializados em redes de pequenos e médios supermercados. O mote desses produtos é explorar justamente a afeição das pessoas pelos produtos naturais, artesanais, caseiros.

Modelo alternativo — A Apaco assessora a formação das agroindústrias, desde os trâmites burocráticos de formalização até a fabricação dos produtos, e incentiva o associativismo. “Construímos um modelo alternativo”, resume Gelso Marchioro, assessor técnico e também professor de disciplinas de agricultura familiar da faculdade de Agronomia de uma universidade de Chapecó. “Percebemos na agregação de valor uma janela, um caminho para o agricultor permanecer no meio rural”. Marchioro, que é proveniente do meio agrícola do Rio Grande do Sul, lembra que o jovem de hoje não se submeterá mais a fazer os trabalhos penosos que o pai e a mãe se dobraram a realizar. Até porque ele visualiza nas cidades condições de trabalho mais facilitadas. “O agricultor do futuro não é o típico que tem hoje. Ele não concorda com este tipo de agricultura”.

Segundo definição dele, o futuro agricultor familiar tem as seguintes características: mais imediatista, quer tudo em contrato, exige garantia de renda e possui maior escolaridade. As mesmas condições do assalariado. Portanto, para ficar no campo, ele exige tais benefícios. “Os filhos do agricultor estão em sua maioria estudando. No mínimo no ensino médio”, observa. “Isso vai ter resultado lá na frente”. Mesmo assim, Marchioro admite que muitos ainda vão deixar o campo seduzidos pelos empregos urbanos. “Os que vão ficar serão melhores, mas vai concentrar. O emprego na cidade é mais ‘forte’”. E ele menciona uma nova realidade observada na agricultura familiar, a chamada pluriatividade. Uma família com jovens distribuídos no trabalho na agricultura e empregados na cidade. Ou o mesmo jovem atuando em duas frentes: permanece dois dias no campo e três na cidade, prestando assessoria como engenheiro agrônomo, por exemplo.

A ordem (leia-se, o futuro) é agregação de valor ao que se produz, sempre oferecer um produto ou serviço diferenciado, porém, com a devida valorização por este mérito. O diretor de Transferência de Tecnologia da Embrapa, Waldyr Stumpf, relata oportunidades preciosas de vender os produtos com indicação geográfica, como são os casos de vinhos e espumantes do Vale dos Vinhedos (este já com Denominação de Origem), na Serra Gaúcha, da Carne do Pampa, também no Rio Grande do Sul, e do Queijo da Serra da Canastra, em Minas Gerais. “Valoriza a cultura local e os produtores”, justifica. “Este é um espaço interessante que vem sendo organizado”. Stumpf acrescenta que os produtos gerados nesses locais e características têm as suas qualidades remuneradas pelos mercados consumidores. “É valorizada a cultura local e os produtos”, ressalta. Quem o compra, paga não somente o bem, mas o universo em que foi gerado.

Vinicius Menotti, 22 anos, de Arapongas/PR: na propriedade bem estruturada do pai, onde são cultivados mais de 230 hectares de soja, trigo e milho safrinha, só pretende sair se o negócio falir

Sim, a atual agricultura tem seu lugar — Mas então o modelo histórico de agricultura empreendida pelas famílias, a geração de commodities, não tem ou terá mais lugar na “nova” agricultura familiar? Tem, sim. Vinícius Menotti, 22 anos, de Arapongas/PR, cultiva com o pai 116 hectares de soja, 92 de trigo e 24 de milho safrinha. As colheitas são entregues à cooperativa a que são associados, a Cocamar. “Eu gosto e é um serviço bom. Além de gostar, dá renda. É um serviço meio pesado, no sol, às vezes na enxada...”, sintetiza o rapaz que está concluindo a faculdade de Educação Física, cursada à noite por falta de opção e ausência de um curso de Agronomia por perto. Mas ele pretende a Agronomia, possivelmente a partir de 2016 ou 2017.

Menotti não pensa em deixar a agricultura, ao contrário das irmãs gêmeas de 25 anos, que já estão a cidade em empregos administrativos. “A ideia é ficar. A menos que tenha problema, como falir. Se não conseguir viver bem, aí tem que largar”. Conforme ele, a maioria dos jovens permanece na agricultura, localizada em uma das regiões agrícolas mais capitalizadas do Brasil (entorno de Londrina). O negócio da família é bem estruturado, com quatro tratores, uma colheitadeira, dois caminhões e duas plantadeiras. O jovem conta que o pai, de 51 anos, é quem administra a propriedade, e, ainda que solicite sua opinião, “a palavra final é dele”.

O perfil do jovem da região de Menotti que deverá permanecer no campo e seguir a “carreira” do pai e, assim, tornar-se um dos produtores de comida quando atingir 57 anos de idade, seis a mais que o pai hoje, é descrito por Rafael Fuentes, pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), da seguinte maneira: “Tem ensino superior, gosto pela automação e mecanização dos processos, emancipação familiar precoce dada pelos pais e capacidade empreendedora de transformar a exploração”. “Ele deve estudar carreiras compatíveis no ensino superior e no ensino médio buscar o sistema alternado, onde existem períodos de estudo concentrados e períodos de permanência na propriedade familiar”, lista o pesquisador.

Projeto de vida — No caso do ensino médio, Fuentes está se referindo à proposta de origem francesa das Casas Familiares Rurais. “É a educação do campo em seu conceito mais atual com a realidade”, define José Luiz Lorenzini, supervisor e orientador pedagógico da Arcafar Sul, a associação que reúne as casas familiares de Paraná e Santa Catarina. Pelo método da pedagogia da alternância, o jovem permanece em regime integral uma semana na escola e duas em casa, onde aplica na prática o que aprendeu em aula. “A pedagogia da alternância permite que os jovens discutam a realidade com a família e com os monitores.

Esta discussão provoca reflexões e novas formas de pensar e agir na propriedade e na comunidade, recebendo durante a formação o acompanhamento dos monitores e desenvolvendo um Projeto Profissional de Vida (uma cartilha com passos a serem seguidos pelo aluno)”, descreve Lorenzini. “Começa a pensar no futuro como profissional”.

O coordenador adverte que o jovem agricultor familiar vai precisar manter-se sempre em reciclagem e em processo de atualização. “Sabese que a atividade familiar possui uma vertente tradicional passando de pai para filho, e muitas vezes a família é resistente às mudanças, mas é nesse contexto que algumas famílias se sobressaem. Essa mudança tem início ainda quando o jovem agricultor está dentro da casa familiar rural, pois é com o Projeto Profissional de Vida, que a semente do empreendedorismo é plantada, ou seja, o jovem consegue visualizar a atividade que mais se identifica com seu perfil”, destaca o educador. No Brasil, são 273 escolas com este perfil onde já foram formados 52 mil jovens e 27 mil estão em sala de aula, e 65 mil famílias atendidas.

Assistência técnica — Para adaptar- se às novas realidades e exigências do mundo (mais precisamente, do implacável mercado), o jovem necessita do apoio inestimável da assistência técnica e extensão rural, daquele técnico que visita a propriedade para oferecer orientação, trocar uma ideia, e que se torna um amigo da família. A partir de dados do Censo Agropecuário IBGE/2006, o professor Mauro Del Grossi, da Universidade de Brasília, concluiu que os agricultores familiares que não receberam nenhuma assistência técnica tiveram uma renda de R$ 639/hectare, os que a receberam ocasionalmente, R$ 1.356, e os que foram assistidos regularmente atingiram renda de R$ 2.309 (valores de junho de 2012).

“Os extensionistas rurais desenvolvem junto com o produtor meios para que ele incorpore ao dia a dia as pesquisas oriundas das universidades e da indústria, em uma relação de troca de saberes”, ressalta o engenheiro agrônomo José Ramos Roseno, presidente da Associação Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural (Asbrer) e da Emater/MG, onde também é extensionista. As 27 entidades estaduais de assistência técnica abrigam 16 mil extensionistas que atendem 2,3 milhões de agricultores de um universo de 4,3 milhões, e na maioria das vezes apenas de forma ocasional. Portanto, 2 milhões de agricultores estão desprovidos desse apoio. “Para assegurar a qualidade e a continuidade do trabalho é preciso investir em pessoal, inclusive na capacitação dos extensionistas, no aparelhamento e na modernização do serviço público nacional de assistência técnica e extensão rural”, sugere.

Para ampliar, qualificar e generalizar esse trabalho fundamental para preparar as novas gerações de agricultores familiares, em 26 de maio último foi regulamentada a criação da Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural, a Anater. A entidade terá um conselho de administração e uma parceira de peso, a Embrapa. Na arrancada, vai herdar 800 mil agricultores que hoje recebem este amparo do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). “Assim que existir já vai começar grande”, define Laudemir Müller, secretário executivo do MDA. “A Anater vai gerenciar o trabalho que está em andamento”. Segundo ele, a entidade está na fase de aprovação do conselho de administração e de estatutos. “Estamos muito seguros que a boa assistência técnica, de qualidade, transforma a vida de agricultores familiares”, observa.


O papel fundamental das políticas públicas governamentais

Uma qualificada e ampla assistência técnica é uma das políticas públicas do Estado cruciais para tornar o jovem um agricultor bem sucedido e, assim, mantê-lo na atividade. Além disso, é função do Estado oferecer infraestrutura como estrada, rede de energia elétrica e de telefonia, o que também pesa no momento em que o jovem do campo faz aquela inevitável comparação da sua realidade com a do jovem urbano. Assim como a disponibilização de linhas de crédito que estimulem o desenvolvimento do negócio e da vida no meio rural.

O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), em uma década, mais que multiplicou por dez o volume de recursos anual – de R$ 2,3 bilhões em 2002/03 para R$ 24,1 bilhões em 2014/15. Apenas a linha Mais Alimentos financiou em condições facilitadas 83 mil tratores novos desde 2008, sendo que dois anos antes a agricultura brasileira registrava em operação 300 mil tratores com menos de dez anos de uso. “Isso é um grande aporte mesmo”, destaca o secretário executivo do Ministério de Desenvolvimento Agrário (MDA), Laudemir Müller. A linha de crédito específica é o Pronaf Jovem, que disponibiliza até R$ 15 mil para agricultores de 16 a 29 anos.

As políticas públicas de apoio à qualidade de vida do agricultor familiar, e não apenas de apoio à sua atividades agrícola, serão fundamentais, pensa o coordenador da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati), do estado de São Paulo, o engenheiro agrônomo José Carlos Rossetti. “Acredito que no futuro o Estado precisa ainda se aparelhar melhor para que os produtores tenham condições de trabalhar, pois ele precisa ter uma boa estrada, saúde, meios de comunicação, transporte escolar, segurança, tudo funcionando harmoniosamente em sua propriedade”, entende. “Aprimorar as que já vêm sendo aplicadas também é fundamental, como em âmbito federal o Programa Nacional de Alimentação Escolar e o Programa de Aquisição de Alimentos, além do Programa Paulista da Agricultura de Interesse Social, que também obriga os organismos públicos estaduais a comprarem 30% da agricultura familiar”, exemplifica. “O Estado pode melhorar mais nessa questão, dando mais prioridade a esse tipo de comercialização e oportunidades aos pequenos agricultores, pois se ele puder vender mais em sua região, conseguirá fugir de atravessadores e ter melhores condições de trabalho”.

“É fundamental que existam estímulos para que não somente o jovem, mas toda a família, permaneça na propriedade rural, produzindo sustentavelmente e gerando renda”, avalia o presidente da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), Márcio Lopes de Freitas. A OCB congrega dezenas de cooperativas que mantêm entre seus associados milhares de jovens. Freitas menciona a necessidade de haver o envolvimento do jovem com as atividades da propriedade, para que desperte desde cedo o interesse nelas. “É necessária também a qualificação desse jovem com o intuito de que o mesmo desenvolva habilidades fundamentais para a gestão da propriedade familiar, subsidiando-o para uma tomada de decisão assertiva em qualquer momento do processo produtivo em que for requisitado”, sugere.

Todas as melhorias são bem vindas e talvez decisivas para o futuro da agricultura familiar brasileira. Mais do que uma profissão, um emprego que gera sustento a si e à família, ser agricultor familiar é uma opção de vida que tem relação com o modo desta vida. “Será um agricultor bem sucedido aquele que estiver conectado com as funções e o papel da agricultura familiar na sociedade do futuro”, enfatiza Rui Valença, coordenador da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar da Região Sul (Fetraf Sul). Essas funções, define, são a produção de alimentos de qualidade e a preservação ambiental. “É nas terras ocupadas pelos agricultores que estão as matas ainda remanescentes e a água das nascentes e dos rios e pequenos riachos”, justifica. “Ser agricultor familiar significa, antes de tudo, entender sua função como um modo de vida – e não somente um negócio”.