Na Hora H

 

A PELEJA ELEITORAL TERMINOU. E AGORA?

ALYSSON PAOLINELLI

Depois de uma das mais acirradas eleições de que se tem notícia, o Brasil deu a vitória para a continuidade do Governo que há 12 anos vem administrando o País. Cabe agora a nós produtores rurais nos organizarmos para uma avaliação clara do que nos espera. De um lado, o nosso temor é que as coisas permaneçam como estavam nestes últimos quatro anos. O nosso Ministério da Agricultura desvalorizado, dividido, colocado como “moeda de troca” com partidos aliados. Se isso se repetir, estaremos alijados das competições internacionais que aprendemos a ganhar desde a década de 1970. Política pública não é anúncio e muito menos festa do novo Plano de Safra. Não há mais como enganar.

O crédito rural atende muito bem os bancos e a sua aversão ao risco, coisa sempre inerente à atividade agrícola. Os recursos anunciados atendem bem os bancos e seus donos, mas o produtor rural fica na ilusão de que tudo vai bem. O recurso para o seguro rural na prática nunca atinge nem 1/3 do anunciado e o que é liberado atende exclusivamente o interesse dos bancos e das seguradoras. O produtor rural está de fora. Tem que aceitar as regras impostas que, em qualquer lugar do mundo, eles são os principais parceiros na discussão da administração dos riscos e seus custos. Isso nunca foi seguro rural. O preço mínimo como o crédito de comercialização é invisível e não palpável, passando a ser apenas uma ficção.

A infraestrutura continua na dependência de recursos que, para a estratégia rural, nunca são suficientes. No mercado internacional, o Brasil ainda está engatinhando. Felizmente, a qualidade dos nossos produtos tem sido boa e aceita nos nossos compradores. Se dependermos de um eficiente serviço de defesa, vamos naufragar. Nossos custos de serviços são os mais altos do mundo e muitos continuam perplexos como ainda somos competitivos. Para coroar essa lista, ainda surgem a insegurança jurídica e a parafernália de leis, regulamentos e resoluções, a maioria delas ferindo até a nossa Constituição.

Vamos ver se o slogan “Novo governo, novas ações” vai mesmo funcionar. A começar pela valorização do Ministério que comanda a principal base sustentáculo de nossa economia. Espera-se que a escolha do ministro seja feita na valorização da competência e não do afago do partido da base governamental. O ideal seria que quem fosse administrar o Ministério da Agricultura fosse ligado diretamente à Presidente e com ela tivesse uma identidade e confiança sem limites. Entendemos que em país nenhum, especialmente um chamado Brasil, possa o seu governante esquecer- se, ou pior, não conhecer a fonte de suas verdadeiras riquezas.

Assim, entendo que nesta identidade a Presidente possa dar aquilo que a agricultura merece, sem os atropelos, as falhas ou as enganações as quais estamos acostumados. O Brasil já deu demonstração de sua competência em usar bem os parcos recursos que há 40 anos dispunha para montar sua política agrícola. Deu certo. O que não se pode permitir é que novas crises econômicas ou novos planos econômicos, além dos sete que já tivemos, venham a destruir os instrumentos de políticas agrícolas que funcionaram bem. Só quem é do setor e que tem a confiança e o apoio do chefe máximo pode realizar.

Sobre ciência e tecnologia, nem vou tergiversar. Se somos o que somos hoje no nosso agronegócio foi graças à coragem de se investir o que fosse necessário para a criação de uma Embrapa e das 17 empresas estaduais de pesquisa que, com as nossas universidades, conseguiram criar as inovações necessários ao sucesso que alcançamos. Que o serviço de extensão rural, criminosamente desmontado agora mais do que nunca, se projeta como necessário. Continuar a gerar conhecimento e inovações e ter uma estrutura que possa mais rápida e eficientemente transferi- las aos agricultores é obrigação de qualquer governo sério. Esperamos por ele.

Engenheiro agrônomo, produtor e ex-ministro da Agricultura