O Segredo de Quem Faz

Espaço para OTIMISMO em 2015

Denise Saueressig
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Até pouco tempo, as projeções sobre a rentabilidade na safra 2014/2015 indicavam perdas para o produtor brasileiro. No entanto, algumas mudanças recentes na conjuntura das principais commodities mostram que o cenário não é tão ruim quanto parecia. A análise, que é do consultor Carlos Cogo, está baseada em observações e cálculos sobre o que vem acontecendo nos mercados interno e externo. Diretor da consultoria agronômica que leva o seu nome, Cogo trabalha há 24 anos assessorando produtores e empresas, e é palestrante em eventos do agronegócio no Brasil e no exterior. Em um dos mais recentes em que participou, ele conta que ouviu o seguinte de um representante do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda): “Quando vocês resolverem suas dificuldades de logística, nós teremos um grande problema”. Na entrevista a seguir, ele conta como deve ficar a rentabilidade do produtor no atual ciclo e dá dicas para quem ainda não definiu a comercialização da safra.

A Granja – Quais são os acontecimentos mais recentes e relevantes no mercado de commodities e que podem ter interferência sobre os preços praticados na safra 2014/2015?

Carlos Cogo – Observamos uma mudança repentina depois que terminou o processo eleitoral no Brasil. Vínhamos de um cenário bem negativo para as principais commodities. No caso da soja, entre janeiro e setembro, havia uma perda acumulada de 30% nos preços. No milho, essa perda era de quase 40% e, no trigo, de 29%. O piso da soja chegou a US$ 9 por bushel e o do milho chegou a US$ 3,30 por bushel. Esses números assustaram muita gente. E isso ocorreu depois de cinco anos de rentabilidade com margens muito boas, com destaque para os recordes no segundo semestre de 2012. No mês de outubro, no entanto, as commodities saíram desse que era o patamar mais baixo dos últimos cinco anos. Alguns fatos pontuais fizeram com que os preços no mercado futuro subissem forte demais, entre 10% e 15%, em outubro. Os Estados Unidos, por incrível que pareça, passam por desafios logísticos, especialmente na via ferroviária. Eles têm uma safra gigantesca para escoar – estamos falando de mais de 365 milhões de toneladas de milho e mais de 107 milhões de toneladas de soja. Esses problemas para escoar a safra geraram problemas no abastecimento interno e, aí, por questões pontuais, os preços subiram. Só que depois de subirem, os preços não caíram mais. Isso dá a entender que os compradores enxergaram que não há mais espaço para a queda e aí, se construiu um novo piso. Saímos de uma situação “no vermelho” em 2015 para o “azul”, com exceção do algodão. Por tudo isso, acredito que esse não é um novo ciclo de baixa para a agricultura. Outro ponto a considerar é o clima. O El Niño não se confirmou e existe quase consenso entre os meteorologistas quanto à neutralidade das condições climáticas, ou seja, o Brasil deve repetir um recorde na safra e se aproximar dos 200 milhões de toneladas.

A Granja – Até que ponto a alta da cotação do dólar também pode beneficiar os produtores nacionais?

Cogo – Esse fator é importante. Em torno de 90% dos insumos para o cultivo da safra foram comprados com o dólar a R$ 2,20. E com os preços das commodities aquém do esperado, os produtores fixaram poucas vendas futuras, contrariando o que fazem sempre. Agora, ele terá a oportunidade de vender as commodities com o dólar provavelmente entre R$ 2,50 e R$ 2,55. Isso também vai favorecer a margem de lucro do produtor. A preocupação é com relação à próxima safra, quando ele terá que comprar os insumos com o dólar em alta. Por outro lado, houve a queda nos preços do petróleo, de cerca de 20% nos últimos dois meses. E agroquímicos e fertilizantes têm relação direta com o preço do petróleo. No mercado internacional, esses insumos estão em queda, o que anula a alta do dólar. Traduzindo: o produtor vai pagar em reais, no ciclo 2015/2016, praticamente o mesmo que ele pagou na última safra, que também já apresentou estabilidade nos custos.

A Granja - O mercado ainda pode apresentar alguma surpresa, principalmente devido à supersafra dos Estados Unidos?

Cogo – Esses fatores pontuais que elevaram os preços em outubro devem ser devolvidos, mas a demanda forte permanece. Os valores podem ter alguma correção, mas devem ficar em torno de US$ 3,80 o bushel para o milho e US$ 10,50 para a soja. A demanda das carnes é muito sólida no mundo. Há novos compradores, as economias emergentes compram muito e a oferta mundial não consegue atender tudo isso com rapidez. Os preços das carnes não param de subir e estão no maior nível da história. E os preços dos grãos estão mais baixos. O que se vê para 2015 é um recorde de consumo mundial de carne bovina, suína e de frango, o que também é uma forma de criar uma estabilidade para os grãos.

A Granja - Quanto à rentabilidade, o que os produtores brasileiros podem esperar para a safra 2014/2015?

Cogo – Na soja, o produtor vai encontrar rentabilidade positiva em todas as regiões do Brasil. E essa não era a projeção até pouco tempo. A conta fechava no vermelho no Cerrado e no azul para o Sul. Agora, temos rentabilidade de 51% no Sul e no Sudeste e de 20% no Cerrado. É uma boa margem de lucro. Foi muito maior em anos anteriores, chegou a beirar os 100%, mas sem dúvida é uma boa margem, ainda mais se pensarmos que poucos setores da economia trabalham com números como esses. Estamos falando, em média, de uma sobra de pouco mais de R$ 1 mil por hectare no Sul e de R$ 173 no Cerrado sobre o custo total. Sobre o custo desembolsado, ainda sobram R$ 480 por hectare no Cerrado. Claro que o produtor fica um pouco chateado porque viu margens muito mais robustas em anos anteriores, mas essa é uma boa margem. Temos que considerar que estamos vivenciando a maior safra de soja da história no mundo, nos Estados Unidos e provavelmente também no Brasil.

A Granja – Os produtores de arroz podem continuar com expectativas positivas?

Cogo – O arroz continua bem. É o antigo patinho feio e hoje está em uma situação de muita estabilidade. É uma cultura que não tem mais queda de preço na colheita e que mantém preços estáveis no ano todo e bem acima do custo de produção. Promete para 2015 uma sobra de R$ 1.273 sobre o custo total, sem considerar arrendamento. Nos últimos anos já foi assim e podemos destacar três pontos que mudaram o mercado: o Brasil deixou de ser importador e agora é exportador de arroz; a inclusão das lavouras de soja nas várzeas e coxilhas, que diminuiu doenças, melhorou a rentabilidade e melhorou a postura vendedora do produtor; e a oferta cada vez mais restrita ao arroz no Sul, às áreas irrigadas. A oferta e a demanda ficaram mais ajustadas e isso vem se repetindo há três ou quatro anos.

A Granja – Você falou que a exceção da próxima safra deve ser o algodão? Por quais motivos?

Cogo – A situação é crítica para a cultura, porque o mundo vive uma superoferta de algodão e, nesse caso, a queda no preço do petróleo cria um efeito danoso. Isso porque os maiores concorrentes do algodão são derivados do petróleo, que são as fibras químicas e o poliéster. Hoje essas fibras estão entre 20% e 25% mais baratas que o algodão, que está também muito barato. Além disso, existe um estoque mundial para 340 dias de consumo. Nenhuma outra commodity tem isso. Outro ponto é que a China resolveu usar os estoques que tinha e segurar as compras. Os chineses são os maiores importadores do mundo, mas há alguns meses anunciaram que usariam seus estoques e diminuiriam as compras em mais de 50% no período 2014/2015. A média de preços futuros do Índice Cotlook A mostra US$ 0,74 por libra peso. No entanto, o nosso custo está em US$ 0,84 por libra peso. Essa situação deve fazer o produtor optar por plantar a cultura na segunda safra. Quase todo o algodão de 2015 deve ser deslocado para a segunda safra, na sequência da soja. Como em uma segunda safra ele não precisa cobrir o custo total, talvez a cultura possa sustentar um pequeno resultado positivo. Até o momento, existe a estimativa de 14% de queda na área plantada de algodão na próxima temporada, e nesse momento não enxergo mudanças nesse cenário.

A Granja – Em comparação com outros anos, a venda da soja está atrasada. Existe o risco de o mercado ficar sobrecarregado em determinado momento e os preços caírem?

Cogo – Esse risco existe, ainda mais se considerarmos uma safra de 94 milhões de toneladas. Nesse momento, o prêmio nos portos, para março e abril, está positivo, com ágio sobre Chicago. Mas se muita gente for às vendas ao mesmo tempo, esse prêmio pode zerar, tirando preço do produtor, ou o pior dos mundos, ficar negativo. Se tudo for vendido em março e abril, no mercado físico, o prêmio pode cair. Agora (final de novembro) os prêmios estão ao redor de US$ 0,50 a US$ 0,70 por bushel acima de Chicago. Então, se Chicago está a US$ 10, no porto estão oferecendo US$ 10,50 ou US$ 10,70. Pode ser que, em março, isso não seja visto. Pode ser que seja US$ 0,10, ou zero, ou como em muitos anos de supersafra, em que foi menos US$ 0,50. Aí, o preço no porto cai a US$ 9,50.

A Granja – Como consultor, o que você recomenda para o produtor que está decidindo a venda da safra de soja?

Cogo – Aconselho que o produtor contrate o prêmio com a cooperativa e venda uma parte da sua safra agora, porque o dólar está alto, não temos colheita e as ofertas das tradings em reais estão boas. Para citarmos um exemplo, um produtor recebeu uma oferta, na primeira semana de novembro, de R$ 60 FOB Passo Fundo/RS pela saca. Um ótimo preço para entregar em abril de 2015, na lavoura dele. Ele fechou 25% da safra nessas condições. Essa é uma posição conservadora, mas assim, ele não precisa vender soja até junho. Nesse caso, claro, o produtor precisa ter uma boa estrutura de armazenagem ou alguém que faça isso pra ele. Outra atitude interessante e que já está incorporada à rotina de boa parte dos produtores é planejar a compra dos insumos para 2015/2016. A curva de negócios envolvendo fertilizantes e defensivos deslocou- se de setembro para os meses de março e abril. Agora, os preços do fertilizante em dólar estão em queda. O produtor pode programar as compras com essa parcela de soja que está vendendo e ainda vai aproveitar essa baixa do petróleo.

A Granja – Mesmo que a rentabilidade seja mais baixa agora, é importante que o produtor mantenha seus investimentos pensando no futuro?

Cogo – É natural que o produtor seja mais cauteloso, já que nos últimos anos investiu bastante. Pode ser que ele deixe alguns investimentos para o final do ano que vem, e isso é uma atitude normal. E não é por acaso que vimos queda nas vendas de tratores e colheitadeiras este ano. No entanto, é preciso considerar que a queda foi sobre um ano absolutamente excepcional, que foi 2013. Este ano ocorreram demissões em indústrias de máquinas para adequação a um mercado 20% menor. Mas eu acredito que 2015 poderá surpreender e mostrar crescimento em alguns setores em relação a 2014. Acho realmente que 2015 não será um ano tenebroso como se achava.

A Granja – E os investimentos por parte do Governo, que também determinam a rentabilidade do produtor?

Cogo – Neste momento de rentabilidades mais baixas, é importante que o Governo mantenha seu apoio ao setor por meio dos subsídios, que são as taxas de juros diferenciadas e os leilões para escoar o excedente de produção. Também precisamos lembrar que nunca o País teve tanto recursos para a agricultura quanto tivemos nos últimos anos. O melhor exemplo é o PSI, para a compra de máquinas. Acredito que essa política deve ser mantida, assim como os recursos para armazenagem e irrigação. Todas essas áreas ainda estão defasadas no Brasil. A frota de tratores e colheitadeiras está defasada, a armazenagem tem um rombo de 40 milhões de toneladas e na irrigação, temos potencial para 30 milhões de hectares e hoje irrigamos apenas 6 ou 7 milhões de hectares. O mesmo vale para infraestrutura e logística. Existem projetos, alguns com avanços, mas também temos muitos atrasos. Principalmente nas áreas ferroviárias e portuárias, não veremos nada concreto em menos de três ou quatro anos. Fui recentemente participar de um evento na Argentina e um representante do Usda me disse: “Quando vocês resolverem suas dificuldades de logística, nós teremos problemas. Já estamos exportando menos milho por causa do Brasil e quando vocês solucionarem tudo isso, teremos uma encrenca”. Essa afirmação dá uma ideia do que o mundo pensa sobre o Brasil.