Segurança

INSEGURANÇA no campo: como se proteger?

Se em centros urbanos com efetivo policial são comuns os ataques às propriedades, imagine-se nas propriedades agrícolas em regiões do interior do País

Em estados como o Mato Grosso, são muitos os relatos de ataques a fazendas, com violência contra pessoas e furtos de defensivos e maquinário

Ricardo Tomczyk, presidente da Aprosoja-MT e produtor em Rondonópolis/MT

Que o Brasil é um país onde não existe segurança pública eficiente, todo mundo já sabe. Mas a que está estampada nos jornais, nos sites e nas reportagens televisivas é, na maioria das vezes, a violência urbana das capitais e grandes cidades. Se nesses locais de grande população já não há efetivo policial suficiente para um trabalho adequado de proteção ao cidadão, imagine em pequenas cidades do interior deste país de proporções continentais. Pense um pouco mais e imagine isso nas propriedades rurais, muitas vezes afastadas dos centros urbanos dos municípios.

É isso que o produtor rural do Brasil está enfrentando: o medo da violência. Em Mato Grosso, são diversos os relatos de fazendas invadidas na calada da noite (ou até à luz do dia, em ações mais ousadas) para o furto de defensivos agrícolas e maquinários. Isso se o problema for pequeno, porque muitos produtores já viram a casa ser toda furtada, os pertences dos proprietários e dos funcionários também serem levados por bandidos, muitas vezes fazendo as famílias reféns.

No início de setembro, a Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), em parceira com a Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT) e demais entidades do setor, entregou aos candidatos ao governo do estado de Mato Grosso e aos candidatos ao Senado a Agenda Positiva do Setor Agropecuário Pensar MT. O documento é um levantamento das demandas do setor compilado pela Fundação Dom Cabral depois de pesquisas e reuniões com produtores de todo o estado. Entre tantos problemas, está a segurança. Os pesquisadores relatam que encontraram diversos depoimentos de problemas relacionados à segurança patrimonial, à segurança pessoal e ao transporte de carga. Os produtores rurais contam que eventos como emboscadas, assaltos armados, raptos, tráfico de drogas, homicídios e invasões estão cada vez mais frequentes em Mato Grosso.

Para a segurança dos cidadãos que vivem no campo, acredita-se que são necessárias algumas providências do poder público. No documento do Pensar MT, cita-se a necessidade de que o Governo aumente os investimentos em efetivo, em postos policiais e em estratégias específicas que tratam da segurança no campo. Não é difícil encontrar em Mato Grosso municípios que têm seu efetivo composto, literalmente, por meia dúzia de policiais.

A Aprosoja-MT, como associação de classe dos sojicultores do estado, tem recebido relatos de muitos produtores sobre furtos de defensivos agrícolas, que são produtos caros e representam 40% do custo de produção da lavoura de soja, segundo o Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea). Para tentar escapar da ação dos bandidos, muitos estão optando por deixar o estoque nas revendas. As cooperativas também são opções, pois concentram os produtos comprados por um grupo de produtores e, aos poucos, vão sendo retirados. Essa é uma atitude incentivada pela associação e também pela polícia, pois garante mais segurança sem deixar o que os bandidos podem levar.

Tomczyk: não é competência do cidadão dar a si próprio segurança para trabalhar e viver em paz. O Estado é quem precisa cuidar de todos.

Em uma enquete que está no site da Aprosoja-MT desde três de setembro, a pergunta é a seguinte: você já teve sua propriedade assaltada? E 53,6% das pessoas que responderam até o momento já sofreram esse tipo de violência. Desses, a maioria (26,83%) teve os defensivos furtados. Para tentar sanar um pouco dessa sensação de insegurança, o programa Soja Plus, parceria de boas práticas de gestão entre Aprosoja-MT e Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), está organizando uma cartilha com dicas de segurança e prevenção para evitar esse tipo de sinistro.

Cartilha de segurança — Tomando como base uma publicação da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), foi possível levar aos produtores mato-grossenses algumas dicas simples, mas eficientes. Primeiro, orientar familiares e funcionários a não fornecerem informações a pessoas estranhas que chegarem à propriedade. Evitar manter a sede sem caseiro e também não colocar na placa da fazenda o nome do proprietário. Outras dicas importantes são não falar sobre grandes negócios fechados, construir a sede longe de estradas, fazer seguro residencial, evitar carregar dinheiro vivo para pagamento de funcionários, entre outros. O importante é nunca reagir a uma tentativa de assalto e comunicar as autoridades policiais locais.

No caso de furtos de maquinários, é importante que o produtor mantenha suas máquinas, de preferência, em garagens fechadas, instalar mecanismos de seguranças nos veículos e fazer seguro, além de prestar atenção nas pessoas que estão circulando pelos arredores da propriedade. Em relação aos defensivos, é importante manter na propriedade só o que for de uso imediato e comprar sempre de revendas que tenham procedência. Sempre que estiver deslocando os insumos, é bom comunicar familiares sobre o início e o fim da viagem.

O produtor tem que ficar atento, assim como os moradores urbanos de grandes cidades. A violência está em todo o lugar e é preciso cuidado. Porém, não é competência do cidadão dar a si próprio segurança para trabalhar e viver em paz. O Estado é quem precisa cuidar de todos. Só assim será possível trabalhar com tranquilidade e fazer este País crescer ainda mais.