Reportagem de Capa

Espaço? Só para CRESCER

O Brasil vem colhendo uma safra recorde de grãos a cada ano, mas sua capacidade de armazenagem, sobretudo na propriedade, ainda está muito longe de atender a demanda. Estima-se que o déficit já ultrapasse as 60 milhões de toneladas, ou seja, falta espaço para guardar tanta produção. O Governo Federal tem buscado suprir essa lacuna através da ampliação de programas de incentivo e linhas de financiamento mais acessíveis para os produtores. O momento também é favorável para as empresas do setor, que projetam um crescimento de 25% nas vendas de equipamentos em 2014

Gilson R. da Rosa

A produção de grãos é um dos principais segmentos do agronegócio brasileiro, com destaque para soja, milho, arroz e trigo. Na safra 2013/ 14, foram colhidas 183 milhões de toneladas desses quatro produtos, volume que, em 2014/15, pode ultrapassar a marca de 200 milhões de toneladas. Entretanto, a capacidade estática de armazenagem, incluídos os 96 armazéns públicos e os 265 privados espalhados pelo País, estimada entre 130 milhões e 150 milhões de toneladas, ainda permanece muito abaixo do crescente desempenho obtido pelas lavouras a cada ano.

Enquanto o Brasil tem espaço para estocar 67% do que produz, a FAO, organismo das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, recomenda que os países tenham pelo menos 20% a mais de capacidade estática de armazenagem. Na avaliação do engenheiro civil e diretor da Agrocult Consultoria e Treinamento em Armazenagem, Adriano Mallet, a falta de locais para armazenagem é agravada pelo próprio crescimento da agricultura. “Essa assimetria faz com que o Brasil tenha que escoar a maior parte da produção no momento da safra. Isso faz com que os produtores deixem de negociar melhores preços. Também acaba acarretando um caos nas estradas e comprometendo inclusive a capacidade de recebimento nos portos”, afirma.

Ele explica que, enquanto a produção cresce em torno de 5% ao ano, a capacidade de armazenagem amplia em média apenas 2,5%. “Com o passar do tempo, o déficit vai ficando maior. Atualmente, toda a movimentação da safra está em cima de caminhões. Daqui a dez anos vamos colher 300 milhões de toneladas e o déficit de armazenagem estará em 143 milhões. Será necessário dobrar a frota de caminhões, além do sistema de ferrovias e hidrovias, em função dessas 100 milhões de toneladas de grãos a mais”, calcula o analista.

“Daqui a dez anos, vamos colher 300 milhões de toneladas e o déficit de armazenagem estará em 143 milhões. Será necessário dobrar a frota de caminhões, além do sistema de ferrovias e hidrovias”, prevê o consultor Mallet

A falta de uma estrutura eficiente, adequada e capaz de receber uma crescente produção de grãos no Brasil, sobretudo na propriedade rural, vem causando prejuízos cada vez mais expressivos para o produtor que ainda não dispõe de estrutura própria para secar, classificar e armazenar sua produção. A estimativa é de que a cada safra, US$ 20 bilhões sejam perdidos no processo de produção do campo até cidade.

O coordenador do Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-LOG), Thiago Pera, observa que, com o início da colheita, aumentase a oferta do produto no mercado, ocasionando dois fatores: redução do preço no mercado internacional e aumento do custo de transporte para escoar a produção.

O Brasil deverá produzir 200 milhões de toneladas nesta safra, mas a capacidade estática de armazenagem está estimada entre 130 milhões e 150 milhões de toneladas, portanto, muito abaixo do crescente desempenho das lavouras

Esse custo, segundo ele pode ter uma variação de até 50% entre o período de safra e entressafra. “Sem ter um local para armazenar o produto, é necessário fazer um escoamento altamente concentrado, com uma série de gargalos logísticos nesse período: filas de caminhões nos portos e nas rodovias, grãos armazenados a céu aberto, perdendo qualidade. Por outro lado, em um cenário em que se faça o bom uso da armazenagem, é possível guardar o produto para comercializá-lo na entressafra, no qual o preço e os custos logísticos estão mais atrativos, garantindo uma melhor margem para o produtor”, compara.

O Grupo Esalq LOG, conforme Pera, tem como objetivo desenvolver atividades de pesquisa e extensão na área de logística aplicada ao setor agroindustrial e realizar projetos que atendam as necessidades desste mercado. “Atualmente, o modal rodoviário de transporte representa 61,1% das cargas no País, a ferrovia representa 20,7%, a hidrovia, 13,6%, e as demais modalidades, 4,6%. O agronegócio é altamente dependente do modal rodoviário para escoamento da sua produção, percorrendo elevadas distâncias com grandes volumes”, informa.

Sob uma ótica econômica, ele considera as ferrovias e hidrovias como sendo mais competitivas para rotas de longas distâncias, enquanto o rodoviário é mais competitivo para curtas e médias distâncias. “Tal desbalanceamento da matriz de transporte para cargas agrícolas implica em um maior custo logístico para o agronegócio, impactado no chamado Custo Brasil e consequentemente na competitividade do setor mercado internacional”, pondera.

O nó da questão — Para mensurar o tamanho do problema causado pelo déficit de armazenagem na agricultura brasileira, é preciso olhar os números com mais atenção. A analista da Agroconsult Nadiesca Casarin toma como ponto de partida a capacidade total de armazenagem no País, conforme dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que é de 148 milhões de toneladas. “Mas é importante esclarecer que esse número contempla as unidades convencionais, normalmente utilizadas para armazenagem de sacarias, e exclui as unidades armazenadoras que estão em portos e terminais ferroviários”, ressalta. Desse modo, conforme ela, a capacidade atual de armazenagem a granel no Brasil é de 123 milhões de toneladas. “Se na safra 2013/14 foram colhidas 183 milhões de toneladas de grãos, considerando soja, milho, arroz e trigo, o déficit de armazenagem é, portanto, de 60 milhões de toneladas. Ou seja, o Brasil possui capacidade de armazenar apenas 67% dos grãos que produz”, conclui.

Ela observa que atualmente 70% dos grãos são produzidos na safra de verão, e 73 milhões de toneladas precisam ser escoados entre março e julho. “Dentre as alternativas utilizadas para driblar esse déficit de armazenagem está a antecipação da comercialização da produção, que tem como destino principal a exportação”, acrescenta.

Dados levantados pela Agroconsult apontam que as menores capacidades de armazenagem, relativas com a produção, encontram-se no Pará (24%), no Tocantins (33%) e no Maranhão (34%). “Porém, o estado que apresenta o maior déficit de capacidade é o Mato Grosso, onde 16 milhões de toneladas de grãos produzidos não possuem espaço para serem armazenados. É no Mato Grosso também que os maiores investimentos devem ser realizados”, avalia. De acordo com a analista, para suprir 100% da produção atual de grãos seria necessário um investimento de R$ 36 bilhões. “Caso não ocorram novos investimentos, a estimativa é que na safra de 2023/24 teremos capacidade para armazenar apenas 40% da produção de grãos”, garante Casarin.

Política de incentivo — O déficit de armazéns do estado começou a ser compensado de forma mais intensa no ano passado, quando o Governo Federal implantou o Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA). Com 15 anos de prazo para pagamento, carência de três anos e taxa de juros de 4%/ano, a linha de financiamento contempla não apenas a compra do equipamento, mas também as obras civis e a mão de obra, que juntas correspondem a praticamente metade do gasto para construção das estruturas.

Outra novidade foi a inclusão de empresas produtoras de cereais entre os beneficiários do programa de incentivo à armazenagem, que antes só contemplava os produtores e suas cooperativas. “O Governo destinou R$ 5 bilhões para investimentos em armazenagem na safra 2013/ 2014, sendo R$ 3,5 bilhões para produtores e cooperativas, através do Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA), e R$ 1 bilhão para cerealistas, através da linha PSI-BK Cerealista”, informa o consultor Carlos Cogo, da Carlos Cogo Consultoria Agroeconômica.

Andrea, da Casp: o investimento médio de uma estrutura de armazenagem é de R$ 25 a R$ 30 por saca, mas o produtor pode financiar em até 15 anos, ou seja, o custo ficaria em aproximadamente R$ 1,50 a R$ 2/saca/safra

A meta do Governo é elevar a capacidade nacional de armazenamento em um total de 65 milhões de toneladas. Para isso, está avaliando a possibilidade de ampliar recursos para o financiamento da armazenagem no País no novo Plano Agrícola e Pecuário 2014/2015, em função da firme demanda vista no segmento desde o final do ano passado. “Segundo o Ministro da Agricultura, Neri Geller, demorou para o programa de incentivo à armazenagem deslanchar, por conta da estruturação das linhas de crédito, principalmente por parte dos agentes financeiros, mas agora a demanda vem firme desde dezembro de 2013”, diz o consultor.

Custo ou investimento? — Muitos produtores ainda não enxergam a armazenagem na propriedade como um investimento ou uma oportunidade, mas sim como um mal necessário. A pergunta recorrente é a seguinte: quais são os custos? Afinal, é possível exemplificar quanto custa um silo para mil toneladas ou para 10 mil toneladas?

De acordo com a executiva principal da Unidade de Armazenagem da Casp, Andrea Hollmann, esse custo vai depender muito de cada projeto, devido à possibilidade de investir melhor em recepção e secagem, com capacidade estática reduzida. “Na maioria dos casos, parte da safra está comprometida para pagamento do custeio. Porém, o custo médio gira em torno de R$ 25 a R$ 30 por saca. Visto que o produtor pode financiar em até 15 anos, o custo será de aproximadamente R$ 1,50 a R$ 2 por saca a cada safra”, calcula.

Para Andrea, a armazenagem de grãos na propriedade mostra-se com retorno de investimento garantido. “Somando os ganhos proporcionados, o retorno nessa estrutura pode chegar antes da segunda safra. Armazenando sua colheita, o produtor agrega valor na qualidade e na eliminação das taxas cobradas pelo cerealistas para limpar, secar e armazenar. Essa eliminação chega a proporcionar ganhos de até 20%, além da oportunidade da comercialização no momento mais adequado”, pondera.

Embora a construção e a manutenção de silos e armazéns gerem custos relativamente altos para os agricultores, existem grandes vantagens econômicas para quem realiza o investimento. Ele passa a ter mais controle sobre a sua colheita, não sofre pressão de venda na hora da safra, tem mais opções para comercialização, uma salvaguarda para períodos de problemas climáticos e pode oferecer um grão de melhor qualidade para o mercado, com maior valor agregado.

O incentivo do Governo foi decisivo para o produtor Píndaro de Jesus Ortiz de Oliveira, conhecido como Cau Ortiz, proprietário da Fazenda Ouro Fino, em Palestina de Goiás/GO, tomar a decisão de finalmente instalar uma estrutura própria de armazenagem. “Há tempos sentia a necessidade de investir, mas não havia financiamento. Em 2011 entrei com o pedido e iniciei a construção do primeiro de três silos, cada um com capacidade para 75 mil sacas, que acabaram sendo pagos com recursos próprios, quando o preço do milho passou de R$ 21 para R$ 32. O projeto custou R$ 8 milhões”, relata. Até 1980, Cau Ortiz era fotógrafo em Palmeira das Missões, no Rio Grande do Sul. Em setembro do mesmo ano, mudou- se para Goiás para trabalhar como vendedor de adubos. Logo depois, iniciou uma sociedade e comprou a primeira fazenda em Jataí/GO. “São 1.300 hectares de lavoura localizados em uma das melhores regiões do estado para o milho safrinha”, descreve.

Posteriormente, Ortiz adquiriu a Fazenda Ouro Fino e a Fazenda Caipônia, onde, ao todo, cultiva 5.500 hectares com soja e outros 5 mil com milho e sorgo. Antes, precisava colher e vender imediatamente para as empresas. Era uma operação que mobilizava em média 20 carretas por safra. “Hoje, com armazenagem, o trabalho de pós-colheita é feito de forma tranquila, conto com oito funcionários, treinamos a mão de obra para operar os silos, opero com apenas quatro caminhões e não pago frete. Já entrei, inclusive com um novo pedido de financiamento. O projeto está pronto e quando for aprovado pretendo instalar três novos armazéns”, conta o produtor.

O produtor Ari José Nedeff, de 67 anos, também gaúcho, está há 11 anos no Mato Grosso, onde cultiva 5 mil hectares de soja e 3 mil de milho safrinha em três propriedades, as fazendas Formosa, em Jaciara, e Tarumã e São Gabriel, em Campo Verde. “Percebemos a necessidade de ter infraestrutura própria de armazenagem desde a primeira safra. Era preciso colher e escoar a produção com altos custos em frete, filas nas trades e perdas de produto”, diz. “Já no segundo ano, iniciamos com recursos próprios o processo de instalação de uma unidade para 72 mil sacas, na Fazenda Tarumã, que posteriormente foi acrescida de outras duas, com capacidade para 132 mil sacas”, acrescenta.

Além destas três unidades, Nedeff conta ainda com três silos, cada um com capacidade para 50 mil sacas, na Formosa, e outros dois silos, cada um para 60 mil sacas, na São Gabriel. Segundo ele, uma nova unidade já está sendo financiada. “São investimentos que têm como objetivo atender toda a nossa capacidade de plantio, mas também prevendo o aumento da produção e da área plantada”, revela.

As vantagens de poder contar com uma estrutura própria de armazenamento na propriedade, de acordo com Nedeff, são muitas. “A armazenagem nos proporciona uma hora de trabalho a mais por dia durante o período da colheita. O processo de secagem, classificação, emissão de nota fiscal, tudo é feito na fazenda e com custo menor. Temos mão de obra treinada e manutenção própria, o frete é só interno, podemos operar 24 horas por dia. Sem dúvida, foi um salto de qualidade”, considera o produtor.

No pátio de casa — Para o engenheiro agrônomo Éverton Destro e seu pai, o produtor Lino Destro, da Fazenda Girassol, em Cascavel/PR, o assunto armazenagem já deixou de ser novidade há muito tempo.

A primeira unidade deles foi implantada há 20 anos com capacidade para 15 mil sacas ou 900 toneladas. “Hoje, com duas unidades, ampliamos nossa capacidade estática para 6 mil toneladas”, lembra Éverton. A Fazenda Girassol produz anualmente 60 mil sacas de soja, 80 mil de milho e 10 mil de aveia, cultivados em uma área de 900 hectares. De acordo com Éverton, 90% da produção é comercializada e o restante fica guardado na propriedade. “Nada substitui a comodidade de ter a produção armazenada no pátio de casa antes da comercialização. Depois, a soja vai para o porto e o milho é vendido na região”, afirma.

Ele conta que financiou R$ 2,5 milhões, incluindo a obra civil, mas no total o investimento será de R$ 3 milhões. “O valor é alto, mas financiado em 15 anos, e poderá ser pago em dez anos. Para quem tem estrutura própria para secar, classificar e armazenar o grão, a diferença em favor do produtor, dependendo da época do ano, varia de duas a sete sacas. Quem não tem, precisa recorrer às cooperativas, que, a exemplo do que já ocorre no MT, estão lotadas de milho safrinha”, compara.

Lino Destro e o filho Éverton, em Cascavel: “Nada substitui a comodidade de ter a produção armazenada no pátio de casa antes da comercialização”

Tempos modernos — O processo de modernização das lavouras no Brasil, como lembra Mallet, deve-se mais aos investimentos dos produtores em mecanização e tecnologia no campo do que em armazenagem, cuja capacidade ficou praticamente estagnada. “O produtor sempre delegou a questão a terceiros e se concentrou na produção. Somente nos últimos 15 anos ele começou a despertar para a importância de armazenar”, argumenta o consultor.

Essa mudança de paradigma pôde ser percebida na prática pelos sócios proprietários do Condomínio Agropecuário Ceolin, em Uruguaiana/RS. São mais de dez propriedades onde são cultivados em média, anualmente, 10 mil hectares de arroz, com uma produção total de 95 mil toneladas. “Viemos para a região em 1975 para começar um engenho de arroz e posteriormente fomos para a lavoura, onde começamos a reforçar os investimentos e a ampliar a cada ano a área plantada. A partir de 2005, os investimentos ficaram mais fortes, modernizamos o parque de máquinas e a produção aumentou”, descreve o sócio Nelsi Ceolin.

Nelsi Ceolin, de Uruguaiana: com mais tecnologia, a lavoura começou a ser plantada e colhida mais rapidamente, e assim foi preciso um sistema próprio de armazenagem para dar vazão à produção

Foi nesse ponto que, segundo ele, o gargalo ficou mais visível. “Com mais tecnologia, começamos a plantar a lavoura cada vez mais rápido, em torno de 20 dias, e a colher em 40 dias. O volume era tão grande que precisávamos parar as máquinas por volta das 16h porque não tínhamos mais capacidade de recebimento. Percebemos que estava na hora de investir em um sistema próprio de armazenagem para dar vazão à produção. Hoje, nossa estrutura conta com três unidades de secagem, classificação e armazenagem, com capacidade para 1,6 milhão de sacas, ou 85 mil toneladas. Isso nos proporciona uma capacidade de recebimento de 3 mil toneladas ao dia. E tudo foi financiado”, explica Ceolin.

Essa tendência, conforme ele, vem seno seguida por médios e grande produtores da Região da Fronteira. “De um modo geral, a cultura do arroz no Rio Grande do Sul apresenta algumas peculiaridades que dificultam sua expansão, já que praticamente 60% dos produtores plantam em terras arrendadas e somente 40% em áreas próprias. Para quem arrenda, portanto, fica mais difícil investir. Hoje o nosso foco aqui no Condomínio Agropecuário Ceolin continua sendo a lavoura, mas já estamos reestruturando a indústria para dar suporte à lavoura nas exportações”, afirma.

Negócios em alta — O vice-presidente da Kepler Weber, Olivier Colas, reconhece que as políticas implementadas pelo Governo a partir de 2012 estão trazendo resultados e a demanda por armazenagem aumentou. “O mercado de armazenagem, que era de R$ 800 milhões por ano, já está em R$ 1,6 bilhão, crescimento de 25% em 2014”, avalia. A Kepler Weber é líder no segmento de armazenagem na América do Sul, com mais de 50% desse mercado, e uma das maiores produtoras de sistemas completos de armazenagem de grãos do mundo.

Olivier Colas, vice-presidente da Kepler Weber: “O mercado de armazenagem, que era de R$ 800 milhões por ano, já está em R$ 1,6 bilhão e deve crescer 25% em 2014”

O ano também está sendo positivo para a GSI Brasil, que retornou ao segmento em 2011, depois de ser adquirida pela ACCO. Mas, de acordo com o diretor de Vendas e Marketing Armazenagem da empresa, José Luiz Viscardi Jr., para o produtor continuar investindo em armazenagem, só com financiamento do Governo. “O investimento não se resume à compra do equipamento, tem a instalação, a construção civil, a montagem. Antes o produtor só conseguia financiamento para a compra do equipamento, agora, financia o valor total pelo Plano de Expansão da Armazenagem do Governo Federal (PCA) para pagar em 15 anos, com juros na faixa de 4% ao ano e três anos de carência. Em geral, ele pode pagar em 15 anos com o trabalho, mas alguns conseguem em quatro ou cinco safras”, avalia.

José Luiz Viscardi Jr., diretor da GSI Brasil: “Em geral, o produtor pode pagar o investimento em 15 anos com o trabalho, mas alguns conseguem em quatro ou cinco safras"

Cooperativas salvam as lavouras no Sul

Ao longo das últimas décadas, as cooperativas têm desempenhado um papel fundamental para atenuar o gargalo logístico causado pelo déficit de armazenagem, principalmente no Sul. Um exemplo é a Cooperativa Tritícola Sepeense Ltda (Cotrisel), que atende a Região Central do Rio Grande do Sul, incluindo os municípios de São Sepé, Restinga Seca, Formigueiro, Vila Nova do Sul e São Pedro do Sul, além de produtores de municípios vizinhos, como Agudo, Dona Francisca e São Gabriel, com capacidade estática para armazenar 40 mil toneladas de soja e 100 mil de arroz.

A Cotrisel, conforme seu vice-presidente Giancarlo Muller Pozzobon (foto), duplicou sua capacidade de armazenagem em pouco mais de dez anos. “Atualmente movimentamos por ano em torno de 4 milhões de sacas, ou seja 200 mil toneladas, assim ainda temos um déficit de 50 mil toneladas. Basicamente armazenamos todo o arroz, enquanto a soja, até em função dos contratos fechados, é enviada para o Porto de Rio Grande. Todo o arroz é beneficiado, Dificilmente comercializamos algum volume em casca”, informa.

Ele ressalta que embora a cooperativa conte com 4 mil associados, entre pequenos, médios e grandes produtores, o trabalho é focado no pequeno produtor. “Os grandes, que contam com armazenagem própria, trazem o produto seco para comercialização, apenas armazenam quando têm excedentes. Os pequenos trazem para armazenar, secar e comercializar”, diz Pozzobon.

Também é o caso da Cooperativa Tritícola Sarandi (Cotrisal), que reúne 9.600 associados, sendo 92% produtores com menos de 30 hectares. “Nossa capacidade estática é de 600 mil toneladas ou 10 milhões de sacas entre soja, milho e trigo. Temos um déficit de 60 mil toneladas, mas estamos trabalhando para ampliar esta capacidade em 30 mil toneladas anualmente, além de investir em tecnologia para classificação e secagem de grãos”, explica o vicepresidente João Carlos Chini.

Na análise do presidente da Federação das Cooperativas de Arroz do Rio Grande do Sul (Fearroz), André Barreto, o papel desempenhado pelas cooperativas é fundamental em todos os aspectos do pós-colheita, ou secagem, classificação, beneficiamento e armazenagem. “São etapas que às vezes o produtor não domina e a cooperativa está apta a oferecer tecnologia e mão de obra especializada. Em muitos casos, o ganho em termos de rendimento é enorme se comparado ao trabalho do produtor que não está devidamente preparado”, garante o dirigente. Com sua atuação voltada ao pequeno e médio produtor de arroz, as cooperativas deste segmento no estado, conforme Barreto, têm capacidade para armazenar exatas 8.372.603 de toneladas do cereal, sendo 7.757.042 toneladas em granel e 615.61 no sistema convencional.

Segundo o gerente comercial da Comil Silos e Secadores, Rogério Specht, apesar do momento favorável para armazenagem, esse mercado tem muito ainda a crescer

Para o gerente comercial da Comil Silos e Secadores, Rogério Specht, apesar do momento favorável, o mercado de armazenagem tem muito ainda a crescer. “Entendemos que os investimentos e a liberação do crédito para instalações armazenadoras, têm contribuído para que o caos não esteja instalado na logística de transporte de grãos. Precisamos ampliar mais os investimentos em rodovias e ferrovias e, necessariamente, continuar a investir em obras de modernização dos portos”, pondera.

O gerente Nacional de Armazenagem de Grãos da Armco Staco, Carlos Beutler, chama a atenção para o fato de as cooperativas também estarem investindo na ampliação de sua capacidade estática de acordo com o crescimento da produção de seus associados. “Não somente em armazenagem, mas principalmente em atividades que agreguem valor à produção. Com isso, mesmo aqueles pequenos e médios produtores que não dispõem de recursos para construir um silo ou um armazém em sua propriedade podem, através da cooperativa, dispor de sua produção conforme suas conveniências, comercializando com melhores preços e condições logísticas”, argumenta.

O gerente da Armco Staco, Carlos Beutler, lembra que também as cooperativas estão investindo na ampliação de sua capacidade estática