Na Hora H

O PAÍS SE MANIFESTOU

ALYSSON PAOLINELLI

Com “mudanças profundas” ou “Governo novo, ideias novas” o País está de cara nova. É realmente o que se espera. O que não é mais possível é o País continuar a perder a grande oportunidade que se abre diante de um novo mundo dependente de recursos naturais cujo manejo e uso sustentável venham a lhe garantir a alimentação para uma população que caminha para a estabilidade com seus 9 bilhões e 300 milhões de habitantes e a possibilidade de se poder obter uma nova fonte de energia renovável.

As áreas temperadas do globo que garantiram a oferta de alimentos por mais de 4 mil anos já estão praticamente esgotadas. Confessam que não são mais capazes de atender a grande nova demanda que surge. Lideranças mundiais já reconhecem que somente a área tropical do globo poderá atender as novas demandas. É o Brasil e quase que somente ele que, desde a década de 1970, vem desenvolvendo as novas tecnologias da agricultura tropical de que todos dependemos. E o que é uma notícia mais alvissareira é que essa nova agricultura tropical é por natureza muito mais sustentável que qualquer outra até então desenvolvida no globo. Entendemos todos que, de agora em diante, sustentabilidade tem de ser uma missão de Estado.

A agricultura apresenta-se naturalmente para esse diálogo. Com humildade, pré-requisito de quem busca a convergência. mas também com a responsabilidade que emana do seu significado para a formação da riqueza, a inclusão social e o balanço ambiental do País. Cabe assumir a sustentabilidade enquanto norte de uma nova agenda nacional. E eliminar a incômoda dicotomia (indicadora de subdesenvolvimento) que tenta separar a agricultura tecnificada sustentável da não tecnificada.

A sustentabilidade não é um critério que separa grandes e pequenos, ricos e pobres, capitalizados e excluídos. Sustentabilidade – na ótica consagrada pela ONU na Rio+20 – é um fundamento com três pilares interdependentes, de igual peso estrutural: o econômico, o social e o ambiental. Sustentabilidade não é conceito ou valor que tenha dono. Situá-la no espectro ideológico é destrutivo e desvirtua a qualidade do debate brasileiro. Sustentabilidade é mandato civilizatório, a ser exercido com inteligência, abrigando a dinâmica de processos.

Não se trata de medir tamanho, mas de aferir corretamente o grau de responsabilidade social, ambiental e de segurança econômica de cada ator. E de produzir políticas públicas que, ao mesmo tempo, estimulem a inclusão social e o aprimoramento do sistema. Trata-se de pacto inadiável.

A ONU convoca o Brasil a produzir, nos próximos 20 anos, 40% da demanda suplementar de alimentos, fruto do aumento da renda e da população mundial, que crescerá de 7 bilhões para mais de 9 bilhões de habitantes, até 2050. E há outra agenda premente: o contingente de 800 milhões de seres humanos ainda hoje em estado de insegurança alimentar.

Engenheiro agrônomo, produtor e ex-ministro da Agricultura