Integração

Benefícios da PASTAGEM após soja e milho

No sistema de integração lavoura-pecuária, a pastagem que alimenta o gado proporciona à lavoura ganhos como proteção ao solo contra erosão e altas temperaturas, gera matéria orgânica, combate as invasoras resistentes e cria uma barreira para evaporação de água

Edemar Moro e Juliano Carlos Calonego, professores do curso de graduação e pós-graduação em Agronomia da Unoeste e pesquisadores do Grupo de Pesquisa Agropecuária do Oeste Paulista/GPAGRO/Unoeste

Aagricultura é a salvação da pecuária e a pecuária é a salvação da lavoura. A cada dia que passa essa frase cresce em importância e tem mostrado que o sucesso financeiro ocorre quando as duas atividades se complementam. O retorno econômico dos investimentos na recuperação das pastagens degradadas é mais rápido quando a agricultura subsidia os gastos da reforma. Por outro lado, a agricultura também se tornou dependente da pecuária, por dois motivos principais: diversificação de renda e necessidade de cobertura do solo, função em que as espécies de capim são imbatíveis.

A presença da massa seca produzida pelas gramíneas é cada vez mais importante nos sistemas agrícolas focados em produção de grãos. Essa importância se deve aos constantes veranicos que assolam os produtores de diversos polos de produção de grãos no Brasil. Os benefícios da cobertura do solo proporcionado pelas gramíneas forrageiras são os seguintes: proteção do solo contra o impacto direto da chuva, aumento do teor de matéria orgânica, estoque de nutrientes e redução da temperatura do solo, o que permite maior diversidade e maior atividade microbiológica no solo.

As duas principais culturas que ocupam as áreas agrícolas no Brasil são a soja e o milho. No entanto, o espaço destinado à cultura da soja na safra de verão é quatro vezes superior à área ocupada com milho. Apesar do maior espaço da soja, o estabelecimento inicial da cultura apresenta uma dependência muito maior de cobertura vegetal em relação à cultura do milho. Nas áreas arenosas e com pouca palha é comum a perda de plantas de soja por tombamento fisiológico, que é provocado pelo excesso de calor na região do colo da planta, resultando em redução de estande por perdas de plântulas.

O Brasil se orgulha pelos avanços que teve com a adoção do sistema plantio direto (SPD). No entanto, quando se busca a base conceitual do sistema, que prioriza o não revolvimento do solo, a cobertura permanente e a rotação de culturas, observa- se que o Brasil não mais está seguindo os conceitos fundamentais do SPD. Na maioria das áreas rotuladas como plantio direto, praticamente não existe rotação de culturas. O que mais acontece é sucessão soja verão e milho de segunda safra, e neste modelo a quantidade de cobertura vegetal não é suficiente para o sucesso do sistema.

Evolução do SPD — Com o surgimento e adoção da integração lavoura- pecuária, considerada uma evolução do SPD, passou-se a fazer rotação de culturas e, melhor do que isso, consorciação de espécies. O consórcio milho com braquiária é um sucesso, e a cada ano que este consórcio se repete os benefícios aumentam. É importante relatar que a ILP se desenvolveu com foco na recuperação de áreas degradadas. Porém, o sistema evoluiu e atualmente é indicado não só para recuperação de áreas degradadas, mas também para melhorar a eficiência de sistemas de produção com bons níveis de tecnologia. E será fundamental para o sucesso do SPD, especialmente para solos arenosos com histórico frequente de veranicos e com déficit hídrico durante a estação seca.

A pastagem, além de todos os benefícios apresentados, se constitui como uma forma extraordinária de controle de plantas daninhas, especialmente àquelas resistentes a herbicidas, e também para reduzir a população de bactérias e fungos que causam doenças nas culturas de soja e milho.

A grande quantidade de massa produzida é uma barreira física que impede a emergência de plantas daninhas e evita a proliferação de fungos e bactérias que poderiam ser dispersos quando a chuva atinge o solo.

Capim e milho juntos — Quando o assunto é capim após milho e/ ou junto com milho as vantagens também são inúmeras. A situação menos favorável em qualquer sistema de produção é o pousio, que nada mais é do que após a colheita de grãos o abandono da área até o próximo cultivo. Isso irá favorecer o surgimento de plantas daninhas, conforme já discutido. Porém, o fato mais importante de ser ter uma gramínea na área é a exploração total do espaço (solo), o que permitirá a ciclagem de nutrientes e a cobertura total do solo. No caso do milho, o capim deve ser implantado em consórcio para que tenha as condições favoráveis para se desenvolver junto com o milho. Caso for necessário, o capim pode ser suprimido com subdoses de herbicidas para não competir com o milho.

Sistema radicular na ILP — Um fator importantíssimo e pouco estudado nos sistemas de produção especialmente na integração lavoura-pecuária é o papel do sistema radicular na estruturação física e na construção da fertilidade do solo em profundidade.

A melhor e mais econômica forma de aprofundar nutrientes é proporcionando condições para que o sistema radicular se desenvolva e atinja camadas profundas do solo. As raízes se aprofundarão e explorarão maiores volumes de solo na ausência de impedimento químico e físico. E quando as condições não são limitantes, os ganhos na produção de grãos são evidentes, especialmente em anos com restrição hídrica.

Em muitos casos observa-se uma estagnação na produtividade das culturas, não sendo possível aumentar os tetos produtivos, mesmo havendo potencial para isso, principalmente o climático. O produtor mesmo fazendo o uso adequado de corretivos, fertilizantes e outros insumos não obtém os ganhos esperados com o investimento. Ocorre que em muitos casos há limitações físicas do solo, que é pouco avaliada e às vezes de difícil diagnóstico. Essas limitações são diferentes para solos arenosos e argilosos, sendo que em ambos haverá sérios problemas para as plantas, principalmente para as culturas graníferas. Porém, quando a braquiária entra na rotação de culturas ocorrem melhorias significativas na física do solo, principalmente com o passar do tempo.

A imagem ilustra uma lavoura que teve uma palhada muito ruim, o que comprometeu a população de plantas e, assim, a produtividade

Em solos arenosos, caracterizado pela sua estrutura frágil e suscetível a erosão, as raízes volumosas da forrageira atuarão na formação de agregados mais estáveis e de maior diâmetro, reduzindo as perdas de solo e aumentando a proteção da matéria orgânica, podendo resultar até mesmo no aumento da microporosidade e da retenção de água. Já em solos com textura argilosa, onde a compactação é o maior problema, o crescimento radicular das plantas fica mais limitado às camadas superficiais, onde os riscos de falta de água são grandes.

Nesse caso, as braquiárias com suas raízes vigorosas, volumosas e profundas atuarão na descompactação do solo, reduzindo sua densidade e aumentando a macroporosidade, favorecendo a aeração do solo e a infiltração de água, quase sempre deficientes nesses solos. Além disso, as raízes da braquiária, que são capazes de crescer em solos compactados, ao morrerem deixam rotas para o crescimento das raízes das culturas sucessoras. Nestas condições, mesmo que o solo apresente uma resistência à penetração mais elevada, esta não será limitante ao crescimento radicular.

Resumindo: a pastagem para o produtor de grãos é a proteção do solo contra erosão e altas temperaturas, a fonte de matéria orgânica, o estoque de nutrientes, a solução para controle de plantas daninhas resistentes a herbicidas, a remediação à perda de água por evaporação e escorrimento superficial, o caminho para a infiltração da água da chuva no solo e a forma sustentável e biológica para descompactar solo, melhorando e criando um perfil com maior qualidade química e física. A soma destes benefícios resulta em maior produtividade e maior rentabilidade aos agropecuaristas.

Na imagem fica clara a importância da pastagem bem formada para o controle de plantas daninhas que prejudicam o cultivo de grãos