Ferrugem

Vigilância permanente contra a FERRUGEM

A resistência aos fungicidas é o maior problema no enfrentamento da mais ameaçadora doença da soja. Por isso, atenção às boas práticas: cultivares precoces e resistentes, semeadura no início da época recomendada, vazio sanitário, monitoramento desde o início, uso de fungicidas já no aparecimento dos sintomas ou preventivamente

Claudia Godoy, pesquisadora Embrapa Soja

Aincidência de doenças na soja é variável nas diferentes regiões produtoras, em razão da diversidade de condições edafoclimáticas em que a cultura é semeada no Brasil. Porém, uma doença comum à maioria das regiões e presente em todas as safras é a ferrugem asiática, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi. A ferrugem é a doença mais severa que incide na cultura, podendo causar perdas de até 100% na produtividade.

Após o relato do fungo no País, em 2001, ocorreram mudanças no sistema de produção da cultura, com o objetivo de reduzir as perdas causadas por essa doença. Entre as mudanças, destacamse a adoção do vazio sanitário da soja e a intensificação na utilização dos fungicidas. Essas duas medidas são essenciais para o manejo da ferrugem e se complementam. O vazio sanitário, período de 60 a 90 dias com a ausência de plantas de soja na entressafra, regulamentado por meio de instruções normativas estaduais, tem como objetivo reduzir o inóculo do fungo para a safra. O fungo P. pachyrhizi é um parasita obrigatório e necessita de plantas vivas para sobreviver na entressafra. Um vazio sanitário eficiente pode atrasar a entrada da doença nas lavouras e, consequentemente, reduzir a necessidade de aplicações de fungicidas nas primeiras semeaduras.

À medida que as semeaduras ocorrem nos meses de novembro e dezembro, as lavouras acabam recebendo os esporos do fungo multiplicado nas primeiras áreas de soja e, como a doença inicia cada vez mais cedo, o produtor necessita antecipar o controle químico com fungicidas e reduzir o intervalo entre as aplicações. Um padrão recorrente da ferrugem nas últimas safras, observado pelo mapa do Consórcio Antiferrugem (www.consorcioantiferrugem.net), é o início das ocorrências a partir de dezembro e o aumento significativo no número de relatos a partir de janeiro. A evolução rápida da doença em janeiro está associada ao aumento da multiplicação de inóculo nas primeiras semeaduras e também às chuvas mais regulares a partir de dezembro.

Apesar da agressividade do fungo, os fungicidas têm evitado perdas de produtividade. A média de aplicações de fungicidas na cultura no Brasil estabilizou nas últimas safras ao redor de três aplicações por lavoura, com um menor número de aplicações nas semeaduras iniciais e maior nas lavouras semeadas mais tarde. Os fungicidas registrados para o controle da ferrugem pertencem a três grupos químicos atuando na biossíntese de ergosterol, importante componente da membrana celular dos fungos, inibindo a Desmetilação do C-14 (DMI, triazóis) e na respiração mitocondrial dos fungos, como os Inibidores da Quinona Oxidase (QoI, estrobilurinas) e da Succinato Desidrogenase (SDHI, carboxamidas).

Em função do grande número de produtos registrados e da diferença de eficiência entre eles, os fungicidas têm sido avaliados, desde 2003/04, em uma rede de ensaios cooperativos, coordenados por Embrapa, empresa Tecnologia Agropecuária (Tagro) e Universidade de Rio Verde/GO. Além dos resultados da eficiência comparativa dos produtos que são disponibilizados em todas as safras no site da Embrapa Soja (www.embrapa.br/ soja), os ensaios em rede têm permitido acompanhar a eficiência dos produtos ao longo das safras, verificando possíveis reduções de controle por causa da seleção de populações do fungo resistentes/ menos sensíveis aos mesmos.

Resistência — A resistência a fungicidas é uma resposta evolutiva natural dos fungos a uma ameaça externa para sua sobrevivência, nesse caso o fungicida. Populações menos sensíveis a fungicidas já estão presentes no conjunto de populações existentes na natureza, mesmo sem nunca terem sido expostas ao mesmo. Quando fungicidas com modo de ação específico começam a ser aplicados, tendem a eliminar populações mais sensíveis do patógeno, aumentando a frequência das populações menos sensíveis.

Os primeiros produtos a mostrar redução de eficiência no campo foram os DMIs. A partir de 2007/08, foi observada queda na eficiência dos fungicidas DMIs na região dos Cerrados e, em 2009/ 10, na Região Sul, em razão da seleção de isolados do fungo menos sensíveis a esse grupo. Essa queda de eficiência pode ser observada comparando a média de controle de um fungicida DMIs com uma mistura de DMI e QoI nos ensaios em rede desde 2003/04. Fungicidas DMI foram utilizados isoladamente e de forma intensiva na cultura da soja nos primeiros anos após a entrada da doença no Brasil, em razão da alta eficiência de controle, da presença de genéricos e do baixo custo. As recomendações de controle da ferrugem evoluíram para utilização de misturas de DMI e QoI.

A resistência aos DMIs é poligênica para vários patógenos de plantas, e níveis elevados de resistência são observados somente após uma adaptação gradual. O desenvolvimento de resistência aos DMIs não ocasiona completa perda de eficiência no controle da doença e é frequentemente descrita como uma seleção contínua ou mudanças de sensibilidade. Em razão de envolver várias mutações do fungo, a perda de eficiência ocorre de forma diferenciada para ingredientes ativos do mesmo grupo, mas é descrita como cruzada, ou seja, mutações do fungo que conferem menor sensibilidade a um determinado ativo podem reduzir a eficiência para outros ativos dentro do grupo.

Fungicidas QoI apresentam alto risco de resistência, mas, em teoria, a probabilidade de ocorrer resistência completa de P. pachyrhizi a QoI é baixa, uma vez que a principal mutação que confere resistência a esse grupo é letal para esse fungo. No entanto, mutações que conferem resistência parcial e outros mecanismos de resistência podem ocorrer. Fungicidas QoI apresentam baixa eficiência de controle da ferrugem asiática e não devem ser utilizados em aplicações isoladas. Na safra 2013/14, o fungicida QoI utilizado no monitoramento da sensibilidade do fungo nos ensaios cooperativos apresentou queda significativa de controle. Esses resultados precisam ser investigados, uma vez que podem indicar mudança de sensibilidade do fungo a esse grupo.

O terceiro grupo registrado para controle da ferrugem é o SDHI. Fungicidas SDHI foram descobertos há mais de 40 anos e possuem risco médio a alto de resistência. Uma nova geração de moléculas SDHI, com amplo espectro de ação, tem sido registrada para diferentes alvos biológicos no mundo. No Brasil, dois ingredientes ativos SDHI foram registrados em misturas com QoI para a cultura da soja em 2013 e 2014, fluxapyroxad e benzovindiflupyr, respectivamente, e outros ingredientes ativos encontram-se em fase de registro. Em razão da recente introdução desses fungicidas na cultura da soja, não há relatos de resistência no Brasil. No entanto, casos de resistência a SDHI já foram relatados para 14 patógenos no mundo, incluindo fungos como C. cassiicola em pepino e S. sclerotiorum em canola, que também são patógenos na cultura da soja.

Dessa forma, apesar da ferrugem parecer estar sob controle, o número de produtos com alta eficiência tem se reduzido rapidamente, em razão da alta pressão de seleção imposta pelo excessivo número de aplicações e pela ausência da adoção de estratégias antirresistência desde o início da introdução da doença no Brasil. Se nada for feito e os fungicidas continuarem a ter eficiência reduzida por causa da resistência/menor sensibilidade do fungo, em breve, a média de produtividade de soja do País tende a cair, em consequência da falta de produtos eficientes para o controle da doença.

Uma das formas de reduzir a pressão de seleção para resistência é limitar o número de aplicações de fungicidas na cultura. Como o aumento na necessidade de utilização de fungicidas ocorre com o avanço na época de semeadura, a definição de datas-limites de semeadura poderia contribuir para a redução do número de aplicações em uma mesma lavoura. A soja semeada após soja (soja safrinha) tem demandado, em algumas situações, até seis aplicações de fungicidas, impondo alta pressão de seleção para o fungo que vem de lavouras semeadas mais cedo, onde já ocorreram até três aplicações. Os estados têm reavaliado suas instruções normativas para propor soluções que visem reduzir a pressão de seleção para resistência, como limitar a semeadura até 31 de dezembro ou aumentar a janela do vazio sanitário, antecipando o início para abril.

A ferrugem é a doença mais severa que incide na cultura da soja, podendo causar perdas de até 100% na produtividade, e ocorre na maioria das regiões produtoras

Estratégias antirresistência — Embora a redução da pressão de seleção para resistência possa ocorrer com a redução da janela de semeadura da soja, o produtor deve adotar estratégias antirresistência em todas as semeaduras. As estratégias gerais antirresistência para fungos incluem rotacionar e utilizar misturas comerciais de fungicidas com diferentes modos de ação e sem resistência cruzada, e aplicar preventivamente e em intervalos recomendados pelo fabricante, ajustados para a epidemia da doença, evitando extenso intervalo entre as aplicações. Na cultura da soja, o número limitado de modos de ação dos fungicidas disponíveis para o controle da ferrugem, associado a populações menos sensíveis do fungo já observadas no campo e à baixa eficiência de ingredientes ativos isolados, dificulta a utilização de estratégias como a rotação de fungicidas com modos de ação isolados.

A mistura como estratégia antirresistência só é efetiva quando os princípios ativos usados de forma isolada têm eficiência para o controle da doença, o que acontece para poucos ingredientes ativos na soja. Dessa forma, somente as misturas comerciais hoje disponíveis para o controle da ferrugem não representam uma estratégia antirresistência efetiva. O produtor deve rotacionar misturas de QoI e DMI com misturas de QoI e SDHI, evitando a aplicação sequencial da mesma mistura comercial na lavoura. Isso pode acarretar problemas comerciais já que, muitas vezes, o produtor adquire o pacote de tratamentos fitossanitários de uma única empresa e esta pode não ter em seu portfólio produtos que possibilitem essa rotação de misturas com diferentes grupos. Essa orientação não vai impedir que a resistência ocorra, mas pode contribuir para atrasar a seleção de isolados resistentes ou menos sensíveis.

O processo de registro no Brasil é demorado e atualmente não há em teste nenhum grupo novo de produtos sistêmicos para o controle da ferrugem. Os fungicidas que existem hoje no mercado têm que ser usados racionalmente para que sua vida útil seja prolongada no campo. Em função dos problemas de resistência dos fungos aos fungicidas sistêmicos no mundo, observa-se uma tendência da volta de produtos de contato (multissítios) em diversos patossistemas. Produtos de contato foram avaliados quando o fungo P. pachyrhizi entrou no Brasil e apresentaram eficiência menor do que os produtos sistêmicos. No entanto, em razão da queda de eficiência dos produtos sistêmicos, eles voltaram a ser reavaliados para aumentar a eficiência de controle das misturas disponíveis atualmente e contribuir como estratégia antirresistência aos produtos sistêmicos. Produtos de contato são registrados para outros alvos biológicos na cultura da soja.

O fungo causador da ferrugem não é o único a mostrar problemas de resistência/ menor sensibilidade em função do excessivo número de aplicações. Resistência do fungo Corynespora cassiicola, causador da mancha-alvo, tem sido relatada nos últimos anos no Brasil em diferentes regiões do Paraná, do Mato Grosso e de Goiás.

Em função de ser um processo natural, é quase certo que a resistência à maioria dos novos fungicidas vai ocorrer. No entanto, a vida útil pode ser prolongada com o uso racional e a adoção de boas práticas culturais. Para ferrugem, essas boas práticas devem incluir todas as estratégias disponíveis, como a utilização de cultivares de ciclo precoce e semeaduras no início da época recomendada, a adoção do vazio sanitário, o monitoramento da lavoura desde o início do desenvolvimento da cultura, a utilização de fungicidas no aparecimento dos sintomas ou preventivamente e a utilização de cultivares resistentes.

Claudia: a média de aplicações de fungicidas estabilizou nas últimas safras ao redor de três aplicações por lavoura, com um menor número de aplicações nas semeaduras iniciais e maior nas lavouras semeadas mais tarde