Clima

E o CLIMA está para a safra de verão?

Ainda que no aguardo de um diagnóstico mais seguro da influência do El Niño, a tendência desse fenômeno é de favorecimento (leia-se chuvas) para as lavouras da Região Centro-Sul do Brasil

Meteorologista Danielle Barros Ferreira, do Inmet - Instituto Nacional de Meteorologia

O primeiro semestre foi marcado por chuvas abaixo da média nas Regiões Sudeste e Centro-Oeste, em especial nos meses de janeiro a março, considerados meses de verão. Geralmente nesse período as chuvas são ocasionadas pela atuação da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), porém, este ano foi atípico, havendo ausência de episódios bem configurados desse sistema atmosférico. Eventos severos de chuvas foram observados somente no Sul e na parte Oeste da Região Norte, causando fortes impactos na população.

A ocorrência de estiagem aliada às altas temperaturas prejudicou as lavouras de soja e milho nos estados de Minas Gerais e São Paulo, enquanto que em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul as chuvas não impactaram o final da colheita. Na região conhecida como Matopiba (Sul do Maranhão, Leste do Tocantins, Sul do Piauí e Oeste da Bahia), as chuvas foram suficientes para as culturas de verão e, embora tenham passado por alguns períodos de estiagens, conseguiram recuperação. Agora, diante do início da primavera, em que coincide com o início do plantio das principais culturas de verão e o estabelecimento do período chuvoso na maior parte do Brasil, como o clima irá afetar a safra 2014/2015?

O mês é de transição entre as estações seca e chuvosa no setor central do Brasil, onde há o início da convergência de umidade, principalmente sobre as Regiões Norte (exceto no Extremo-Norte), Centro-Oeste e Sudeste, definindo a qualidade do período chuvoso dessas áreas. Em média, as maiores chuvas no mês de outubro concentraram-se na Região Centro-Sul do País, entre 100 e 260 mm, enquanto que na Região Nordeste, ainda predomina o período de estiagem e os totais acumulados são mais baixos.

Contudo, o que ocorreu durante a primeira quinzena de outubro foram chuvas localizadas somente sobre as Regiões Sul e Oeste da Região Norte.

Em grande parte do Brasil, foi observada a falta de chuvas, temperaturas elevadas e valores de umidade relativa do ar inferiores a 20%. Esse cenário foi provocado pela persistência de uma massa de ar quente e seco sobre o continente, que causou subsidência (descida) do ar, impedindo o desenvolvimento de nuvens e consequentemente não favorecendo a formação de chuvas.

Sob a influência do El Niño — As projeções para os próximos meses indicam que o clima será influenciado pelo fenômeno de grande escala, denominado El Niño – Oscilação Sul (Enos). Esse fenômeno é caracterizado por um aquecimento anômalo das águas superficiais e subsuperficiais do Oceano Pacífico Equatorial, que altera vários fatores climáticos regionais e globais como os índices pluviométricos, padrões de vento e deslocamento de massas de ar. Geralmente no Brasil, em anos de El Niño, a chamada corrente de jato subtropical (ventos que sopram na região subtropical de Oeste para Leste, posicionando-se a dez quilômetros de altitude) é intensificada bloqueando as frentes frias sobre a Região Sul, causando excessos de chuva nos meses de primavera.

Nas Regiões Norte e Nordeste, há uma diminuição das chuvas nos meses de verão e outono. Enquanto que, nas Regiões Sudeste e Centro-Oeste, não existem evidências de efeitos pronunciados no padrão característico das chuvas. Esses efeitos dependem, contudo, de outros aspectos, como a Temperatura da Superfície do Mar (TSM) no Oceano Atlântico, tanto na proximidade da costa do Nordeste quanto da costa do Sul do Brasil. Ressalta- se ainda que existem outros sistemas meteorológicos locais que atuam independentemente dos fenômenos de escala global como o El Niño.

Nos últimos meses, a persistência de águas mais quentes e o enfraquecimento dos ventos alísios sobre a faixa equatorial do Oceano Pacífico vem sinalizando a possibilidade de um El Niño com intensidade fraca entre o fim da primavera e o decorrer do próximo verão. Assim, a previsão climática sazonal do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), em consenso com o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (Cptec) para o trimestre de outubro-novembro- dezembro, indica que há maior probabilidade de ocorrência de totais pluviométricos na categoria abaixo da faixa normal, que é entre 300 e 700 mm, sobre o Centro-Norte da Região Norte. No Centro-Sul da Região Sul, a probabilidade é que as chuvas permaneçam na categoria acima da normal, correspondendo a 200 mm no Extremo-Sul, 600 mm na parte Oeste de Santa Catarina, Noroeste do Rio Grande do Sul e Sudoeste do Paraná.

A previsão para as demais áreas do Brasil indica igual probabilidade para as três categorias, em que o Leste da Região Centro-Oeste e grande parte do Sudeste, as precipitações mais regulares deverão ocorrer a partir da segunda quinzena de outubro e a faixa normal de precipitação para o trimestre é entre 500 e 700 mm. De modo geral, é necessário esperar por atualizações futuras do progresso do El Niño (monitoramento da TSM no Pacífico), baseando-se nos boletins mensais de prognóstico climático do Inmet na Internet (no site www.inmet.gov. b r ) . Além disso, é importante iniciar o plantio no período recomendado, seguindo o calendário agrícola do Ministério da Agricultura, pois os impactos do fenômeno sobre a agricultura brasileira dependem da evolução de cada episódio.

Danielle: deve-se ter cuidado com a alta umidade que pode favorecer o desenvolvimento de doenças fúngicas, bem como dificuldades operacionais para semeadura em função da grande quantidade de chuva

Baseado nos impactos conhecidos historicamente do El Niño sobre a Região Centro-Sul do Brasil, tem-se o favorecimento da safra de verão em função da disponibilidade de água durante o ciclo das culturas, principalmente no período de enchimento do grão, de janeiro a março. No entanto, deve-se ter cuidado com a alta umidade que pode favorecer o desenvolvimento de doenças fúngicas, bem como dificuldades operacionais para semeadura em função da grande quantidade de chuva.