Eduardo Almeida Reis

EDAFOLOGIA

Edafologia é a ciência que trata da influência dos solos em seres vivos, particularmente nas plantas, motivo pelo qual é disciplina ministrada nos cursos de Agronomia, Engenharia Florestal, Zootecnia e outros. Em linhas gerais, solos ótimos produzem forrageiras de melhor qualidade, que otimizam o ganho de peso e a produção leiteira. Novidade, para mim, foi o sucesso da plantação de cabelos em ilustre senador, sinal de que sua moleira é das mais estercadas.

O cirurgião pernambucano Fernando Basto, especializado em agricultura capilar, é um craque. Já foi definido como “o homem que muda a cabeça dos políticos”, mas é certo que encontrando solo estercado, curtido pelo excesso de estrume produzido ao longo da vida pública, os 10 mil fios de cabelos nascem mais depressa, bonitos e vistosos.

Sempre tive cabelos muito lisos e ainda os tenho, apesar da idade. Houve tempo em que pensei estar ficando careca quando me olhava no espelho ao fazer a barba. Até hoje, nas fotos com flashes tenho “entradas” que na verdade não existem, tudo por culpa da lisura dos cabelos, que felizmente repete, em sentido figurado, a retidão de caráter do cavalheiro que compõe estas linhas.

Carlos Caetano Bledorn Verri, gaúcho de Ijuí que vocês conhecem como Dunga e voltou ao comando da seleção brasileira, passou de cômico a acômico. Na Copa 2010, com aquelas roupas desenhadas por sua filha, era cômico. Agora, vestido feito gente, ficou acômico, isto é, veicula sua estranha acomia: falta ou queda de cabelos; calvície. Na dependência do ângulo da foto, é calvo como ele só. Mas é problema que o Dr. Basto resolve sem solucionar o que existe por dentro da cabeça do referido treinador.

Abgar Renault, meu tio por afinidade, foi dos homens mais brilhantes e cultos que conheci. Político honesto, ainda por cima. Careca desde muito moço, escreveu no livro Reflexões Efêmeras: “Todo mundo se acostuma com a calvície, menos o seu proprietário”. Suas reflexões, que nada têm de efêmeras, são deliciosas. Dois exemplos: “Há pessoas que não mentem, mas possuem várias verdades para o mesmo fato”; “O mais extraordinário excesso de palavras que encontrei em minha vida está escrito numa parede do aeroporto de Florianópolis: Aeroporto Local”.

Que haveria na cabeça do brasileiro que autorizou essa obviedade: “Aeroporto Local”? Deve ter sido homem público no estado em que a senhora Ideli Salvatti faz política e chega a ser eleita senadora da República, mas o tema desta conversa de hoje é a edafologia. Dizem que a Ucrânia, muito em evidência no noticiário recente, tem solos de primeiríssima qualidade. Aqui mesmo, nos muitos milhões de quilômetros quadrados do Brasil, temos regiões de solos excelentíssimos, como também há muita porcaria.

Não me canso de repetir a lição de Ibrahim Abudi, fundador de quatro cidades no Norte do Paraná, sobre a melhor maneira de saber se uma região é ruim: tem turco mudando e latão de leite na beira da estrada. Realmente, latões indicam que é região leiteira, mau sinal. Turco mudando é sinal ainda pior, indicando que a região não se presta para ganhar dinheiro. No fundo, no fundo, todos andamos preocupados com os nossos dinheiros, tanto assim que o perdularismo, a prodigalidade, a gastança, sempre foram objeto da atenção dos estudiosos do Direito.

No Jockey Clube Brasileiro, que frequentei quando rapazinho, havia um herdeiro muito rico, órfão, que tinha um curador judicialmente incumbido de cuidar dos seus interesses e bens. Autorizado pelo curador a manter um cavalo no Jockey, o rapaz perdulário tinha 37 em nome de terceiros, mas não se esquecia de levar, todo dia, sacos imensos de cenouras para os seus 38 animais.

Em uma tarde em que o curador o viu alimentando um cavalo que oficialmente não era o seu, interpelou o treinador responsável pelas cocheiras, que só faltou chorar: “Ah, doutor, este menino é tão bom, tão caridoso, que faz questão de trazer cenouras para os cavalos dos outros”.

Anos mais tarde, já livre da curatela, o rapaz estourou o cotovelo em um acidente de automóvel e foi atendido em modesto hospital público da Baixada Fluminense. Sim, o Brasil já teve medicina pública de boa qualidade. Reconstruído o osso, desperto da anestesia, meteu-se em uma ambulância e foi procurar o Hospital Geral dos Acidentados, no Rio, padrão de excelência em ortopedia e traumatologia.

Examinado pelo Dr. Mário Jorge e constatada a excelência da operação feita no hospital da Baixada Fluminense, a direção do hospital carioca tratou de contratar o jovem traumatologista desconhecido ganhando vinte vezes mais.