Bactérias

BACTÉRIAS a favor da produção

Espécies descritas por especialistas da Embrapa têm importância agronômica, ambiental e econômica

A foto mostra uma raiz de soja inoculada. Prática é ambientalmente correta e ajuda a reduzir uso de fertilizantes nitrogenados

Denise Saueressig [email protected]

Novas espécies de bactérias benéficas ao desenvolvimento de culturas e promotoras de crescimento das plantas foram descobertas por pesquisadores da Embrapa. Os organismos dos gêneros Rhizobium e Bradyrhizobium podem atuar como parceiros de culturas como a soja, o feijão, o feijãocaupi e a leucena. O trabalho dos cientistas é possível por meio de um banco de microrganismos mantido pela estatal.

Segundo a engenheira agrônoma Mariangela Hungria, pesquisadora da Embrapa Soja, apenas na unidade em Londrina/PR, são mantidas mais de 3 mil bactérias em laboratório, sendo que algumas já descritas são utilizadas em fórmulas de inoculantes comerciais. “No total, considerando todas as unidades da empresa, são mais de 18 mil bactérias armazenadas em uma coleção de grande valor biológico”, destaca a especialista. O caminho para a identificação de novas espécies vem sendo facilitado pela melhoria das metodologias empregadas nes- R. R. Rufino ses estudos. “Os investimentos realizados nos últimos dez anos nos ajudaram a aprimorar todo o conhecimento necessário para esse trabalho”, resume.

Essa evolução é expressa pelos resultados obtidos pela Embrapa. Em três anos de trabalhos, o grupo de pesquisadores que se dedica a essa área identificou as sete espécies, número que representa praticamente o dobro do que foi descrito em cerca de 40 anos. “O Brasil é líder mundial em pesquisas que envolvem a fixação biológica de nitrogênio na soja e essas últimas descobertas também nos projetam internacionalmente. É importante mostrarmos que, além de termos uma grande biodiversidade, temos capacidade para estudar nossos recursos”, acrescenta Mariangela. O trabalho deve continuar evoluindo, projeta a pesquisadora. Apenas no laboratório da Embrapa Soja, quatro novas espécies devem ser descritas no próximo ano.

Produção mais sustentável — Para a agricultura, as bactérias têm importância agronômica, econômica e ambiental. Depois de identificado, o material passa por testes de campo e é enviado para o Ministério da Agricultura, que é responsável pela distribuição para as empresas que comercializam inoculantes. O mercado brasileiro é calculado em cerca de 30 milhões de doses de inoculantes ao ano, sendo que 98% desse total são representados pela cultura da soja.

A estimativa é de que a economia com fertilizantes nitrogenados alcance em torno de US$ 18 bilhões ao ano em diferentes culturas por meio da inoculação. E a conta inicia com o produtor. Para chegar a rendimentos em torno de 3 mil quilos por hectare, o investimento necessário em fertilizantes nitrogenados é de cerca de R$ 450 por hectare. “No caso da inoculação, o custo vai reduzir à medida que aumenta a escala, mas o valor estimado fica entre R$ 3 e R$ 5 por hectare. Se o produtor utilizar o inoculante todos os anos na semeadura, preferencialmente na semente, poderá obter um aumento médio de 8% no rendimento da lavoura”,

enumera Mariangela. As bactérias, que são capazes de captar o nitrogênio presente no ar e transformar o elemento em uma forma assimilável pela planta, ainda auxiliam na mitigação dos gases causadores do efeito estufa. “Além de ser considerado muito poluidor, o fertilizante nitrogenado tem aproveitamento de apenas 50% e perdas que podem ser ainda maiores no caso de fortes chuvas”, cita a pesquisadora. O benefício ambiental da fixação biológica de nitrogênio é tão significativo que é uma das boas práticas recomendadas e financiadas pelo Plano ABC (Agricultura de Baixo Carbono), do Ministério da Agricultura. Por meio do programa, o Governo pretende, até 2020, expandir o uso da técnica em 5,5 milhões de hectares e reduzir a emissão de 10 milhões de toneladas de CO2 (dióxido de carbono) equivalentes.

Mariangela Hungria, pesquisadora da Embrapa Soja: investimentos dos últimos anos ajudaram a aprimorar os estudos com microrganismos