Agricultura Familiar

Importância do MILHO para os pequenos do SulImportância do MILHO para os pequenos do Sul

Jane Rodrigues de Assis Machado, pesquisadora da Embrapa Milho e Sorgo, [email protected]

A agricultura familiar catarinense é responsável por 77% da produção do milho com destino às agroindústrias, e o cereal é muito relevante na economia de municípios da Região Oeste do estado

O reconhecimento da agricultura familiar, por meio da Lei nº 11.326/2006, de 24 de junho de 2006, possibilitou a caracterização, o desenvolvimento de políticas públicas e o fortalecimento dessa modalidade de agricultura no Brasil. No Censo Agropecuário de 2006, foram identificados 4.367.902 estabelecimentos da agricultura familiar, representando 84,4% de todos os estabelecimentos brasileiros, no total de 80,25 milhões de hectares, correspondentes a 24,3% da área ocupada pela agropecuária brasileira (IBGE, 2009). Esses dados contribuem para consolidar a importância da agricultura familiar na política de segurança alimentar nacional, por ser, majoritariamente, provedora do mercado interno de alimentos e de matérias-primas componentes das cadeias exportadoras, e contribuir, ainda, para a sustentabilidade de produção, equidade econômica e a inclusão social no Brasil.

Na agricultura familiar, o milho é um dos produtos mais cultivados e, segundo o Censo Agropecuário de 2006, 46% da produção nacional de milho foi obtida pela agricultura familiar. Outra função não menos importante do milho na agricultura familiar é a manutenção deum sistema de produção rentável e sustentável, permitindo a rotação de culturas, fornecendo palha para cobertura e auxiliando no processo de reestruturação do solo, além de diminuir a incidência de pragas e doenças em outras espécies cultivadas.

O milho também é utilizado de forma indireta nas propriedades familiares, estando ligado à produção de suínos, aves e bovinos de corte e leite. Muitas vezes, o milho produzido na propriedade também é usado na agroindústria, que pode funcionar no próprio estabelecimento, nas comunidades ou no município. Esse cereal pode ainda ser usado para produção de silagem, que supre a necessidade de alimento em épocas em que o pasto é insuficiente.

O Sudoeste paranaense tem a maior concentração de agricultores familiares do estado. A produção em quase sua totalidade é consumida na propriedade, seja na alimentação animal, seja pela própria família. Além disso, ele é também utilizado no sistema de rotação de culturas, garantindo a produção do feijão, na qual o estado do Paraná se destaca como grande produtor nacional.

Os dados de produção de milho no Paraná mostram que cerca de 30% da produção desse cereal vem da agricultura familiar, em que se destaca, ainda, a produção de suínos, aves e leite, em que o milho é consumido em grande quantidade. Nesse contexto, a região Sudoeste é importante na produção estadual de milho. Em 2008, foi responsável por 14% da produção do estado e o fator que chama atenção é que cerca de 70% dessa produção foi originária da agricultura familiar.

Em Santa Catarina, 87% dos estabelecimentos agrícolas são ocupados pela agricultura familiar, colocando-o entre os estados onde há as maiores concentrações desses agricultores no País. A agricultura familiar catarinense é responsável por 77% da produção desse cereal para as agroindústrias, principalmente de suínos, que têm grande expressão. O milho desempenha papel de destaque também na economia dos municípios da mesorregião do Oeste catarinense. Inicialmente, esse cereal foi sendo cultivado para o autoconsumo e produção de suínos, que mais tarde se tornou a atividade principal nos estabelecimentos familiares, onde a instalação de agroindústrias e a implantação de sistemas de integração impulsionou o desenvolvimento da agricultura familiar.

No Rio Grande do Sul, os dados de produção vegetal da agricultura familiar mostram que cerca de 25% produzem soja; 60%, milho; e 4%, trigo, e, na produção animal, 75% estão relacionados à produção de bovinos; 70%, criação de aves; 55%, criação de suínos; e 50% produzem leite. Sendo que, em um mesmo estabelecimento de agricultura familiar, essas atividades são realizadas de forma simultânea e o milho continua sendo a base para a maioria delas. O Rio Grande do Sul é o estado que possui a segunda maior área plantada com milho no País, na primeira safra, usando o cereal para os mais diversos fins. Uma dessas atividades é a produção leiteira, que vem crescendo nos últimos anos de maneira surpreendente que garante renda para agricultura familiar. Outra atividade tradicional na região gaúcha do Vale do Rio Pardo é a produção de fumo, e a melhor forma de aproveitar adubação residual após sua colheita é o cultivo de milho para duas finalidades principais: a produção de grãos e de silagem, em que o cereal é plantado após a colheita do fumo, geralmente nos meses de dezembro/janeiro. Além dessas duas utilidades, o milho pode ser consumido na propriedade, na alimentação de suínos, bovinos de corte e leite e outros animais. Já no Noroeste do estado, onde a bacia leiteira também é expressiva, o sistema é diferente, sendo que a semeadura do milho é iniciada em julho, com o objetivo de produção de grãos. Em seguida, faz-se uma safrinha, sendo algumas vezes de soja ou até mesmo de milho para produção de silagem.

Associativismo — A capacidade de associação dos produtores familiares do Rio Grande do Sul e sua herança cultural promovem o desenvolvimento de pequenas agroindústrias. É comum encontrar nas feiras livres, em feiras de produtores e no comércio local salames, conservas (minimilho e milho-doce), queijo e farinhas de milho, biscoitos, pães e outros produtos que, direta ou indiretamente, são provenientes do cultivo de milho. Outro trabalho que vem sendo fomentado, principalmente para a agricultura familiar, é o artesanato, com o objetivo de possibilitar a participação de mulheres na geração de renda das famílias. A palha de milho tem sido usada como matéria-prima na confecção de bonecas, cestas, chapéus e vários outros produtos, que são comercializados em feiras de artesanato, feiras de agricultores e/ou no comércio local. Por sua importância nacional, o Ministério do Desenvolvimento Agrário tem aumentado seus investimentos nos últimos anos para essa cultura, tanto no que diz respeito ao custeio por meio do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), quanto ao Seguro da Agência Familiar (Seaf).