Solos

O resgate de terras DEGRADADAS

O Brasil pode ter até 16,5% de sua superfície total de solos degradados, sobretudo de péssimas pastagens. O que fazer e quais os passos para recuperar essas áreas e integrá-las ao sistema produtivo

Eng. Agrônomo Aluísio Granato de Andrade, doutor em Ciência do Solo, pesquisador da Embrapa Solos, e geógrafa Fernanda Figueiredo, mestre em Geografia, consultora em projetos de planejamento ambiental

A estimativa é de que existam no Brasil 30 milhões de hectares somente de pastagens degradadas, áreas que podem ser encontradas em todas as regiões

Dentre os fatores responsáveis pela sustentabilidade dos sistemas de produção agrícola, o solo é considerado um dos mais importantes. Essa fina camada que recobre a superfície da terra e leva milhões de anos para se formar pode ser perdida em poucos anos pela erosão ou se tornar improdutiva dependendo do uso e das práticas de manejo adotadas. Estimativas da área do território nacional que apresentam problemas de degradação variam da ordem de mais de 140 milhões de hectares de terras degradadas a 30 milhões de hectares somente de pastagens degradadas. Considerando a pior situação, isso corresponde a 16,5% da área do país, quase do tamanho da maior Unidade da Federação, o estado do Amazonas. A estimativa com maior precisão dessas áreas necessita do desenvolvimento de ferramentas de geoprocessamento que possibilitem identificar diferentes níveis de degradação do solo através da interpretação de imagens orbitais. Essas áreas degradadas podem ser encontradas em todos os biomas e regiões do país, sob variadas condições ambientais e socioeconômicas, sendo mais frequente no bioma Mata Atlântica, onde a exploração dos recursos naturais foi mais intensa desde a chegada dos portugueses. Compreendem áreas que foram abandonadas devido ao mau uso, com processos de erosão laminar, em sulcos e/ou voçorocas. Apresentam baixa produtividade das culturas e perda de resiliência, com comprometimento dos mecanismos de regeneração natural.

Este artigo pretende despertar a atenção de técnicos, agricultores, gestores e outros tomadores de decisão sobre a necessidade de se desenvolver e aplicar tecnologias adequadas para se evitar o avanço da degradação e recuperar as terras que se encontram degradadas, sendo necessário aperfeiçoar as fases de diagnóstico do estado de degradação do solo, seleção de insumos, planejamento, manejo e monitoramento de diferentes sistemas de produção, que sejam capazes de recuperar a produtividade dessas áreas gerando renda e serviços ecossistêmicos.

Causas da degradação — A transformação de terras produtivas em terras degradadas teve início durante os ciclos do monocultivo da cana-de-açúcar e do café e posteriormente com a exploração da pecuária extensiva, como a área de Mata Atlântica, que foi desmatada para o cultivo do café, gerou muita riqueza e hoje se encontra em avançado estado de degradação. Com o advento da revolução verde na década de 1970 e a consequente expansão da agricultura através do preparo excessivo do solo, monocultivo e aplicação exagerada de agroquímicos, os problemas causados pela erosão agravaram- se.

Atualmente, a maior parte das terras desmatadas brasileiras encontra-se ocupada com pastagens degradadas, com baixa capacidade de lotação animal. A falta da aplicação de tecnologias impossibilita que esses sistemas alcancem a sustentabilidade econômica, social e ambiental. Dentre as principais causas da degradação dessas áreas, é possível destacar as seguintes: a falta de um planejamento de uso conservacionista das terras, com a exploração de áreas em desacordo com sua aptidão agrícola, o uso intensivo do solo, o monocultivo, a aplicação inadequada de fertilizantes e defensivos, o uso de queimadas, o preparo excessivo do solo, principalmente a aração morro abaixo, o superpastoreio e a falta da aplicação de práticas conservacionistas.

Consequências da degradação — A exploração inadequada em áreas aptas para a agricultura, juntamente com a ampliação da fronteira agrícola sobre solos frágeis, de alta suscetibilidade à degradação, vem acarretando graves prejuízos à capacidade de produção agropecuária brasileira, ampliando, a cada ano, o quantitativo de terras em diferentes níveis de degradação. Além de comprometer a capacidade de produção e de prestação de serviços ambientais, essa situação contribui para o insucesso de parte do setor agrícola, provocando endividamentos ao produtor, desvalorização da propriedade e aumento do êxodo rural.

Verifica-se também uma redução no armazenamento de água no solo e um aumento do assoreamento e da contaminação dos recursos hídricos, gerando escassez de água em períodos de menor precipitação, o que reflete negativamente na produção de energia hidroelétrica, no abastecimento de água para o consumo e na produtividade dos sistemas de produção agropecuários. Acarreta ainda uma maior pressão sobre os remanescentes florestais, tornando-os mais fragmentados, gerando ameaças à preservação da biodiversidade, sobretudo das espécies endêmicas e/ou das ameaçadas de extinção.

Essas áreas poderiam estar produzindo alimentos, fibras, energia e outras matérias- primas se estivessem sendo manejadas adequadamente, considerando suas limitações e potencialidades naturais e aplicadas tecnologias conservacionistas, contribuindo assim para o aumento da oferta de produtos agropecuários, valorização do negócio rural e para a redução do desmatamento para a exploração de novas áreas.

Recuperação — Para reincorporar terras degradadas ao sistema produtivo e evitar o avanço da degradação, é necessário eliminar as causas da degradação, avaliar o nível de comprometimento da capacidade vegetativa do solo e viabilizar e desenvolver tecnologias que possibilitem a estruturação de sistemas de produção agrícola sustentáveis. O sistema de plantio direto, a integração lavoura-pecuária- floresta, os sistemas agroflorestais e outros de base ecológica, além de contribuir para manter a sustentabilidade do solo também podem ser adaptados para recuperar essas áreas.

Nesse sentido, é necessário implementar e/ou desenvolver tecnologias para conter a erosão, recuperar a fertilidade do solo no sentido amplo, considerando suas propriedades químicas, físicas e biológicas e definir os sistemas de produção de acordo com a aptidão agrícola das terras, as demandas de mercado e a viabilidade econômica, social e ambiental do projeto, sendo importante considerar as seguintes etapas para a recuperação dessas terras:

? Preservação e recuperação das áreas de preservação permanente.

? Divisão da área agricultável em glebas (zonas de manejo) de forma mais homogênea possível de acordo com as seguintes principais características: relevo, topografia, cobertura vegetal, solos de uso atual, produtividade das culturas (quando existentes) e histórico de exploração, adoção de práticas conservacionistas, grau de degradação ambiental do solo (principalmente inspeções visuais relacionadas ao tipo e à frequência dos processos erosivos), tamanho do talhão, distância dos recursos hídricos (em caso de áreas irrigáveis) e/ou de estradas, entre outros aspectos relevantes.

? Diagnóstico detalhado do estado de conservação e/ou degradação do solo em cada uma das zonas de manejo visando caracterizar e dimensionar os processos erosivos e a presença de resíduos (restos de culturas, corretivos e/ou fertilizantes, dejetos de animais, embalagens de agrotóxicos, sacos plásticos, etc.). Nessa etapa, recomenda-se também avaliar a taxa de infiltração de água no solo e a ocorrência de camadas compactadas, coletar amostras de solo para avaliação da granulometria e da fertilidade (análise de rotina com inclusão de carbono) e descrever a cobertura vegetal natural e/ou o uso atual e as práticas de manejo existentes.

? Seleção de culturas e plantas de cobertura de acordo com a aptidão agrícola das terras, exigências climáticas das culturas e demandas de mercado.

? Recomendação de práticas de conservação de solo e água (terraceamento, cultivo em nível, rotação e/ou consórcio de culturas, cultivo em faixas, plantio direto, implantação de cordões vegetados, etc.), de aplicação de adubos e corretivos, de controle integrado de pragas e doenças e de aproveitamento de resíduos.

A imagem mostra claramente uma área de pastagem submetida a um bom manejo, à esquerda, e outra bastante degradada

Planejamento conservacionista participativo — Em síntese, para se evitar a degradação, a primeira etapa é realizar o planejamento conservacionista participativo da propriedade, utilizando as terras de forma a manter ou melhorar as propriedades químicas, físicas e biológicas do solo, manejando suas limitações e potencialidades para a produção agrícola, possibilitando maior agregação, armazenamento de água e disponibilidade de nutrientes essenciais para o crescimento vegetal.

Através de informações dos meios físico e biótico e de sistemas de informação capazes de integrar esses dados, é possível separar a paisagem em zonas agroecológicas, garantindo maior eficiência na aplicação de insumos e tecnologias para a produção agrícola e/ou para a recuperação ambiental. Recuperar terras degradadas além de possibilitar o aumento da produção agrícola sem a necessidade de abertura de novas áreas, irá também contribuir para reter mais carbono no solo, regular o fluxo hídrico, evitar o assoreamento de canais, rios e reservatórios, maximizar a ciclagem de nutrientes e ainda funcionar como filtro para elementos e compostos tóxicos, garantindo o fornecimento de água com qualidade.

Os sistemas conservacionistas empregam a redução ou até a ausência do preparo do solo, o plantio em nível, a aplicação de adubos e corretivos de acordo com a necessidade das culturas e interpretações da análise do solo, o consórcio e/ou a rotação de culturas e plantas de cobertura, a reciclagem de resíduos, a implantação de cordões vegetados, terraços e bacias de captação quando necessário, a seleção de espécies vegetais, variedades e cultivares adaptadas às diferentes condições ambientais do país, o manejo integrado de pragas, doenças e plantas daninhas, a diversificação da produção e a destinação adequada de resíduos inservíveis.

O intercâmbio de experiências entre agricultores e técnicos se faz necessário para se aumentar a eficiência do planejamento conservacionista, permitindo, cada vez mais, que agricultores, em sistemas de produção familiar e empresarial, gerem produtos de qualidade, com o mínimo impacto sobre o meio ambiente e ainda se mantenham em suas regiões de origem, preservando suas culturas e tradições.