O Segredo de Quem Faz

Proezas do agora Ramal da PRODUTIVIDADE

Leandro Mariani Mittmann [email protected]

A menção da agricultura do estado de São Paulo pode remeter a cultivos de cana, laranja, café e até flores, além de gado. Porém, tem uma região paulista exemplar na produção de soja, milho, feijão e até trigo. Ao Sudoeste do estado, a apenas 80 quilômetros do Paraná, em municípios como Buri, Itapeva e Itaí – região outrora chamada de “Ramal da Fome” – alguns produtores obtêm altos rendimentos destas culturas, como Frederico d’Avila, diretor geral da Fazenda Jequitibá do Alto, de Buri, que possui 1.360 hectares. Na recente safra, a média das produtividades – incluindo lavouras de sequeiro e irrigada – atingiu 72,6 sacas/hectare de soja e 201 sc/ha de milho. No inverno, foram destinados 300 hectares ao trigo e agora serão plantados 62 hectares de feijão (irrigado). D’Avila, que é associado da cooperativa Capal, sediada em Arapoti/PR, descreve como funciona a fazenda do pai em que ele introduziu os cultivos há 15 anos.

A Granja — A princípio, qual é a sua história e a de sua família no envolvimento com a agricultura, com a região...

Frederico D’Avila — Meu pai, Aluízio d’Avila, engenheiro civil, adquiriu a fazenda em 1976. A nossa região era conhecida como “Ramal da Fome”, pois era muito pobre e sem vocação econômica definida. Como as terras eram baratas e o acesso difícil, entre as décadas de 1950 e 1960, muitas pessoas compraram terras aqui para projetos de reflorestamento com pinus e eucalipto. A agricultura era incipiente e a pecuária começava a dar seus primeiros passos na década de 1970.

A Granja — Quais são os cultivos da fazenda, que áreas cada cultura têm e quais as produtividades?

D’Avila — A Fazenda Jequitibá do Alto tem 1.360 hectares, dos quais 352 em reservas e água em abundância. Temos 807 hectares destinados à agricultra de grãos, e nas áreas de topografia íngreme, são 160 hectares em reflorestamento, sendo 90 de pinus e 70 de eucalipto. Ainda cultivamos uma área não contígua da fazenda de 80 hectares também com grãos. São 420 hectares irrigados, o restante de sequeiro. Normalmente destinamos entre 60% e 70% da nossa área para soja e o restante para milho de verão. Seguimos uma rotação “religiosa”, pois repetimos a soja em uma área no máximo por duas vezes, e nunca o trigo. O feijão é cultivado somente nas áreas irrigadas, voltando no mesmo pivô no mínimo depois de dois anos, mas procuramos deixar três. Graças ao trabalho em conjunto de todos, incluindo corpo técnico e de colaboradores, nossa média de soja há três anos está acima de 70 sacas/hectare. E milho de verão, acima de 190 sc/ha. Nesta última safra 2013/14, fechamos com 72,6 sc/ha de soja e 201 sc/ha de milho. O feijão é muito sensível ao clima e não ocupa mais do que 10% da nossa área total por ser uma cultura de risco. Na safra 2013, tivemos média de 63 sc/ha, mas na de 2014, caiu para 38 sc/ha. No inverno, a área cultivada com trigo costuma ser entre 30% e 40% da nossa área total, e o restante com aveia-preta para cobertura verde. O trigo é semeado tanto nas áreas irrigadas, quanto nas de sequeiro, seguindo sempre a rotação. Nossas produtividades variam conforme as condições climáticas do inverno e produzimos entre 58 e 70 sc/ha, dependendo muito da pressão de doenças, luminosidade, temperatura e regime de chuvas. Costumo dizer que nossa região está geograficamente em São Paulo, porém, climatologicamente no Paraná. O clima daqui não tem nenhuma semelhança com o restante do estado. Temos invernos frios, com geadas que às vezes são severas (entre junho e agosto), com um clima muito semelhante aos Campos Gerais do Paraná.

A Granja — Essas produtividades são altas, acima da média. Qual é a explicação? Como se dão os processos produtivos na fazenda para alcançar esses níveis?

D’Avila — Fazemos um trabalho de análise de solo anual, onde entre 40% e 50% da área recebe uma manutenção com calcário e gesso, basicamente. Fósforo e potássio são aplicados conforme necessidade, mas isso é pontual. Além disso, sempre procuramos nos manter atualizados tecnicamente através de dias de campo, palestras, trabalhos técnicos de institutos de pesquisa como o Grupo ABC (formado pelas cooperativas paranaenses Capal, Batavo e Castrolanda), da qual nossa cooperativa faz parte (a Capal) e costumamos ir, todos os anos, às feiras Show Rural Coopavel e Expodireto Cotrijal.

A Granja — E essas produtividades não são exceção na região. O que leva a região a atingir tais números? Clima favorável, gestão dos produtores...

D’Avila — Nossa região é muito tecnificada e tem produtores extremamente competentes e apaixonados por tecnologia. Um amigo meu que pertence à Cooperativa Holambra, de Paranapanema/SP, me falou que eles fizeram um comparativo de rendimento financeiro por hectare entre a nossa região e o Mato Grosso. Chegaram ao resultado que um hectare irrigado aqui dá o mesmo rendimento que nove hectares no Mato Grosso e um de sequeiro equivale a quatro hectares de lá. Fiquei feliz, porque me senti um latifundiário quando apliquei essa regra sobre a área que cultivo. Nossa região também tem um clima abençoado por estarmos em uma região de transição climática (paralelo 24) e por isso há por aqui vários sementeiros produzindo materiais de altíssima qualidade. Inclusive na semana passada recebi sementeiros da região de Passo Fundo/RS interessados em expandir seus negócios para cá.

A Granja — A cada safra, como é definida a área de cada cultivo? Os critérios são agronômicos, conforme tendência de mercado, enfim...

D’Avila — Muitos produtores conduzem sua programação pelo mercado, mas outros são persistentes na rotação, como é o nosso caso. Nas safras 2013/14 e 2012/ 13, aproveitamos a boa maré da soja e reduzimos nossa área de milho para apenas 25%. Neste ano, se fizéssemos isso, entraríamos em algumas áreas com três anos consecutivos de soja, o que na nossa doutrina é impensável.

A Granja — No caso específico do feijão, como é possível empreender nesta cultura, visto as costumeiras oscilações drásticas nas suas cotações?

D’Avila — Feijão é uma loteria, por isso só cultivamos nas áreas irrigadas e, mesmo assim, no máximo 10% da nossa área total. Tenho amigos que cultivam 400, 500 hectares, até 1.200 hectares de feijão de uma vez só, principalmente na Holambra II (distrito de Paranapanema/SP), Itaberá/ SP e Taquarituba/SP. Mas eles são profissionais do feijão, parece que eles conversam com a planta e ela responde pra eles! Mas confesso que não tenho essa coragem. Haja coração!

A Granja — E quanto ao trigo, seu cultivo irrigado é viável economicamente? O trigo é comercializado onde?

D’Avila — O trigo irrigado, dependendo da situação, chega a produzir até 50% a mais do que o sequeiro. A comercialização é idêntica ao resto do país – tranquila quando os preços estão altos e complicada quando estão baixos. Nossa região melhorou muito no quesito qualidade, pois há dez, 15 anos, não havia variedades selecionadas para a nossa região. Ora o problema era produtividade, ora qualidade, ora doenças. Graças à pesquisa, hoje temos variedades bem adaptadas para cá. Atualmente o Grupo ABC inaugurou um moinho em Ponta Grossa/PR, do qual nossa cooperativa é participante junto com as cooperativas Castrolanda e Batavo. Na nossa região, temos um produtor que é dono de um renomado moinho de São Paulo, capital, que compra os trigos de boa qualidade colhidos por aqui.

A Granja — E o que significa a irrigação para a produção/produtividade da fazenda? Quais são os ganhos com essa ferramenta, quais os custos e, sobretudo, a relação custo/ benefício da irrigação na fazenda?

D’Avila — A irrigação é uma das grandes ferramentas de sucesso da nossa região. Aprendi isso com os agricultores da Holambra II nos idos os anos 2000, quando andava por lá maravilhado com as culturas irrigadas. Por outro lado, aprendi a cuidar do solo com atenção e carinho, como fazem os produtores da região de Arapoti, Tibagi e Ponta Grossa, no Paraná, um dos berços do sistema de plantio direto na palha.

Granja — Ainda sobre a irrigação, quais seriam as suas dicas, recomendações, para quem pensa em investir nessa ferramenta para aumentar a produtividade? E por vezes irrigar significa a única maneira de garantir a produção.

D’Avila — A irrigação é um seguro, mas também é uma ferramenta de programação. Se não chover e você tiver um cronograma de plantio, pode cumprir à risca, pois pode iniciar o plantio exatamente quando programou, aproveitando as melhores épocas. Além do mais, você tem a opção de instalar duas culturas, uma de inverno e uma de verão, sem ter que se preocupar se aquele investimento inicial com todo o processo produtivo talvez não retorne por falta d’água. Tem anos que a gente fica meio bravo porque não usou a irrigação. Isso acontece bem naqueles anos que você compra um pivô novo! Mas, por outro lado, tem anos em que a cultura passa de 70% a 80% do seu ciclo às custas da irrigação. Tem pessoas que acham que por ter água precisam aproveitar desesperadamente a área irrigada e não podem deixá- la vazia nem por um minuto. O que tenho observado é que em determinado momento a natureza manda a conta e começam os problemas de fusariose, nematoides, compactação, etc. É importante manter a “religiosidade” da rotação, mesmo nas áreas irrigadas. Todo ano tenho pivôs que ficam o inverno inteiro parados, apenas com aveia para cobertura.

A Granja — Como se dá a comercialização da propriedade? Via venda antecipada, entrega à cooperativa...?

D’Avila — Fazemos grande parte de nossa comercialização via Capal, principalmente nos contratos futuros. Negociações pontuais são feitas com cerealistas ou traders quando há alguma condição comercial vantajosa.

A Granja — Neste momento, qual é o planejamento para a próxima safra de verão quanto à área de cada cultura? O porquê de cada definição?

D’Avila — Estamos nesta safra 2014/ 15 com 501 hectares de soja, 385 de milhoverão e 62 de feijão, vindos de um inverno com quase 300 hectares de trigo e 600 de aveia. O plantio direto é como uma indústria: tem horas que tem que parar um pouco para fazer manutenção nas máquinas, no nosso caso, o solo.

A Granja — E as perspectivas quanto às rentabilidades das culturas? O Usda acaba de anunciar previsão “baixista” para as principais commodities em nível global.

D’Avila — Este próximo ano será um ano difícil para o agricultor, mas, por outro lado, muito bom para colocar as coisas no lugar. Por aqui estavam ocorrendo preços absurdos para arrendamento de terra, bem como os valores de comercialização de algumas áreas. Outra coisa muito ruim foi a entrada de gente que nunca mexeu com agricultura na vida, entrando no ramo atraída apenas pelas margens de lucro dos últimos três anos. No fim isso acabou causando um “loucurão”, como se diz por aqui, atrás de terras, máquinas e mão de obra, transformando o campo em um recinto de leilão a céu aberto, prejudicando os profissionais do ramo. Conheço gente que arrendava terras há mais de 15 anos que perdeu a área para uns malucos que chegaram aqui oferecendo quase o dobro. No fim, alguns donos de terra estão a ver navios quanto ao recebimento do valor e agora correm atrás dos antigos arrendatários.

A Granja — Independentemente de quem ganhe a eleição presidencial, o que você espera das ações do Governo em prol da agricultura para os próximos quatro anos?

D’Avila — Para mim, há princípios inegociáveis. Ser contra o homem do campo, a agricultura e o produtor rural para mim não tem perdão. Lógico que ninguém diz que é contra, mas as atitudes acabam demonstrando a verdadeira essência de cada um. O Governo que está aí afaga o agricultor de um lado e o maceta do outro, mas é lógico que só diz que faz coisas boas para nós. As estradas, os portos e a recente retirada da Tarifa Externa Comum (TEC) do trigo em agosto são as maiores provas de que este Governo não está nem aí para o produtor rural. As populações urbanas também acabam pagando caro pelo déficit logístico do nosso país e, principalmente, pela falta do seguro de renda, há tempos reivindicado pelo setor. Acho que já está mais do que provado que a agricultura é a “galinha dos ovos de ouro” do nosso país. A nossa região, assim como diversas outras no Brasil afora, tem suas vantagens, peculiaridades e deficiências. A revista A Granja é uma grande vitrine de experiências, realidades regionais e desafios que são enfrentados por agricultores de todo o país. Espero poder ver, junto com todos os “irmãos-agricultores” do Brasil, o dia em que chegará ao Planalto Central um governo que valorize o produtor rural e enxergue que, sem nós, tudo e todos padecerão.