Reportagem de Capa

MATOPIBA: onde a agricultura não para de crescer

O empreendedorismo e a audácia dos produtores transformaram a paisagem e a realidade em municípios do Norte/Nordeste do País. A vegetação do Cerrado e as áreas de pecuária extensiva deram lugar a lavouras favorecidas pelo clima nos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Na próspera região conhecida como Matopiba, onde os números avançam a cada safra e superam as médias de crescimento do Brasil, oportunidades e desafios andam juntos e apontam os caminhos em direção ao desenvolvimento

Denise Saueressig [email protected]

Os números ajudam a dar uma ideia do crescimento em uma das mais promissoras fronteiras agrícolas do país. Formada pelos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, a região do Matopiba registra incrementos produtivos acima das médias do Brasil e de outros estados com vocação agrícola. A área plantada com grãos em Tocantins, por exemplo, teve aumento de 30,3% na última safra, com o cultivo de 1,06 milhão de hectares. Já a produção no Piauí apresentou alta de 73,5%, chegando a 2,77 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

No ciclo 2004/2005, o plantio da soja nos quatro estados ocupava 1,797 milhão de hectares, e a produção foi de 4,863 milhões de toneladas. Na última safra, a área com a oleaginosa alcançou 3,35 milhões de hectares e a colheita foi de 8,67 milhões de toneladas, o que representa em torno de 10% da produção nacional. Em 2012/2013, o cultivo de grãos nos quatro estados foi de 6,49 milhões de hectares, passando para 7,35 milhões de hectares na última temporada. Já a produção, que foi de 13,183 milhões de toneladas em 2012/2013, chegou a 18,101 milhões de toneladas em 2013/ 2014.

Estudo da Embrapa Gestão Territorial: mesorregiões do IBGE que fazem parte do limite preliminar teórico do Matopiba

Áreas propícias à agricultura moderna, com terrenos planos e extensos, além de clima favorável, com ocorrência adequada de chuva e dias com elevada intensidade de sol, são alguns dos fatores que contribuem para atrair produtores ao Matopiba, onde muitos gaúchos, paranaenses e paulistas aventuraram-se ainda na década de 1970. “É preciso reconhecer a ousadia e o empreendedorismo admiráveis desses produtores que se arriscaram em um ambiente inóspito para dar início a uma nova realidade de vida e de trabalho”, destaca o gerente de levantamento e avaliação de safras da Conab, Francisco Olavo Batista de Sousa.

Na opinião dele, os índices de incremento da região ainda acontecem com o “pé no freio” devido aos gargalos de infraestrutura e logística. E são justamente os investimentos nesses setores que podem determinar um crescimento maior nos próximos anos. “O mercado e os preços das commodities também ajudarão a definir o desenvolvimento nesses estados. Mas é importante que tudo ocorra com sustentabilidade, porque a produção pode ser elevada com produtividade e práticas como a integração lavoura-pecuária sem a necessidade de abertura de novas fronteiras de Cerrado. Por isso, é fundamental que medidas de fiscalização sejam cumpridas e mantidas”, ressalta.

Pesquisador José Roberto Peres: 6 milhões de hectares de pastagens degradadas podem ser utilizadas para a agricultura nos quatro estados

Uso da terra — Ações de pesquisa na região estão voltadas à verticalização produtiva e pretendem ajudar a evitar a incorporação de novas áreas, garante o chefe geral da Embrapa Cerrados, José Roberto Peres. “Podemos recuperar as áreas de pastagens degradadas, e que, nos quatro estados, somam em torno de 6 milhões de hectares com potencial para a agricultura”, observa. Segundo o pesquisador, é possível e necessário atingir 100% de uso da terra com sistemas integrados. “Hoje o Brasil tem média de produção entre 3,5 mil e 4 mil quilos por hectare com 45% de uso da terra. Ou seja, podemos fazer mais”, defende.

Além do esforço pela geração de tecnologias e melhoramento genético de plantas, Peres cita que a Embrapa está envolvida em iniciativas como o Programa ABC, que disponibiliza crédito oficial para práticas sustentáveis, e o projeto Biomas, que é desenvolvido em parceria com a iniciativa privada para avaliar experimentos com árvores, incluindo a recuperação de espécies nativas. Atualmente, dos cerca de 200 milhões de hectares do Cerrado, em torno de 50% estão antropizados, ou seja, foram transformados pela ação do homem. “Existem todas as razões para trabalharmos pela sustentabilidade econômica desse bioma. Das 12 bacias hidrográficas brasileiras, oito nascem no Cerrado”, completa o pesquisador.

Quando a Embrapa Cerrados foi criada, em 1975, a atividade rural no bioma era resumida a lavouras de arroz de sequeiro com baixas produtividades e em áreas de pecuária extensiva, lembra Peres. A partir de ações como o Prodecer (Programa de Cooperação Nipo-Brasileira para o Desenvolvimento dos Cerrados), a ocupação da região passou a ser focada no desenvolvimento econômico. “O Prodecer tinha os pilares da tecnologia, do acesso ao crédito e da assistência técnica, trabalhando com o manejo do solo e o melhoramento genético. Inicialmente, foram contempladas áreas de Mato Grosso, Minas Gerais e Goiás, já que na época a região do Matopiba apresentava ainda mais desafios logísticos do que tem hoje”, recorda.

Informações servem como base — Além das ações voltadas ao Cerrado, a Embrapa mantém uma série de iniciativas estratégicas voltadas especificamente para o Matopiba. Um dos mais recentes trabalhos foi desenvolvido pela Embrapa Gestão Territorial. O estudo que deu origem à nota técnica “Matopiba: caracterização das áreas com grande produção de culturas anuais” levantou informações sobre as características de bioma, clima, relevo e solos predominantes onde há grande produção de soja, milho e algodão. Para análise, foram consideradas quatro mesorregiões do IBGE: Sul maranhense, Oriental do Tocantins, Sudoeste piauiense e Extremo Oeste baiano.

O trabalho comprova, entre outras informações, que a produção está concentrada em locais onde os períodos sem chuva são de até cinco meses, e em áreas de Chapadas e Depressões, onde o risco de erosão é menor e há maior facilidade para a mecanização. “Essa análise é apenas uma etapa de um conjunto de atividades definidas para a região e que pode servir como base para ações de apoio à produção no Matopiba”, explica o pesquisador Rafael Mingoti. Uma das próximas missões da Embrapa Gestão Territorial é avaliar a vulnerabilidade do lençol freático a contaminações pelo uso de defensivos. “Queremos ter o conhecimento das localidades onde os riscos são maiores para estimular ações sustentáveis e de prevenção”, menciona o especialista.

Transformação — Quando chegou com a família ao Oeste baiano, em 1987, o gaúcho Júlio Cézar Busato enxergou, além das vantagens naturais da região, um cenário onde não existiam estradas pavimentadas, escolas ou hospitais. “O que havia era muita terra a ser explorada e apenas uns 200 mil hectares cultivados com soja. Agora são 2,2 milhões de hectares plantados com diferentes culturas”, descreve o produtor, que também é presidente da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), entidade que representa 1,3 mil produtores.

Os 80 hectares que a família cultivava em Casca, no interior do Rio Grande do Sul, transformaram-se em 43 mil hectares de soja, algodão e milho divididos em 14 fazendas no Oeste da Bahia. Números que não vieram sem muito trabalho e dedicação, garante Busato. “Quando chegamos, a tecnologia de cultivo praticamente não existia, e é aí que está o grande mérito dos produtores locais. Nos unimos e, junto com pesquisadores, consultores e técnicos, construímos índices de produtividade surpreendentes”, relata.

Produtor Júlio Cézar Busato: a pequena propriedade no Rio Grande do Sul virou um grande empreendimento na Bahia

Também foi necessário treinar mão de obra para o trabalho nas lavouras. O produtor conta que a primeira equipe de operadores de máquinas era do Rio Grande do Sul. “Nos anos seguintes, fomos treinando trabalhadores locais”, completa. Atualmente, 49% dos empregos da região têm origem nas atividades do agronegócio. Melhorias na correção e fertilidade do solo, sementes adaptadas e máquinas com modernas tecnologias tornaram viável e rentável a agricultura. Outro grande diferencial é o regime de chuvas bem definido. Em localidades do Extremo Oeste, próximas a Luís Eduardo Magalhães, a precipitação média anual pode variar entre 1,4 mil e 1,8 mil milímetros. E é lá que estão as terras mais caras da região, com valores entre 200 e 600 sacas de soja o hectare.

A Aiba estima uma manutenção do crescimento da agricultura nos próximos 25 anos, com índices variando entre 4% e 6% ao ano para a soja, o milho e o algodão. Na safra 2013/2014, a região obteve, no milho e no algodão, rendimentos acima das médias nacionais, com 8,7 mil quilos por hectare no cereal e 4,05 mil quilos por hectare na pluma.

Busato lembra que existe a disponibilidade de incorporação de 4 milhões de hectares no estado, respeitando as normas do Código Florestal. “Claro que são áreas mais marginais, onde o índice pluviométrico é menor do que as áreas já cultivadas, mas que têm um ótimo potencial para irrigação, pastagens, silvicultura, criação de aves, suínos, bovinos de corte e de leite, além da agroindústria”, projeta. Entre os períodos de 1999/2000 e 2013/2014, o Oeste baiano registrou um incremento de 236,32% na área cultivada e de 294,82% em produção, segundo a Aiba. Da área cultivada na safra 2013/2014, a soja ocupou 58%; o algodão, 14%; o milho, 12%; e as outras culturas, como café, arroz, feijão e sorgo, 16%.

Propriedade do produtor Moysés Barjud, em Bom Jesus, no Piauí: criação de gado e lavouras irrigadas

Incremento além do Cerrado — Nascido no Piauí, o produtor Moysés Barjud chegou a sair do estado para estudar Direito, em 1995, mas acabou voltando dez anos depois para ajudar o pai nas terras da família. “Retornei graças ao desenvolvimento da região”, resume. O pai, José Lustosa Barjud, trabalhava com lavoura de feijão e produzia leite. Hoje, pai e filho cultivam soja e milho irrigado e têm criação de gado de corte em Bom Jesus, no Sul do estado.

A irrigação por pivô central é feita em 360 hectares. Outros 750 hectares são utilizados para a pastagem do gado. A produtividade do milho é de cerca de 180 sacas por hectare, enquanto a soja fica em uma média entre 55 e 56 sacas por hectare. “Estamos descobrindo que o Cerrado não é a última fronteira agrícola do nosso estado. Podemos investir em lavouras irrigadas na Caatinga e utilizar linhas de crédito para isso. Mesmo que os custos de implantação sejam altos, o investimento é viável porque os resultados são muito bons. Temos um grande potencial hídrico e a possibilidade de obter duas safras e meia por ano”, enumera Barjud, que é presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Piauí (Aprosoja/PI).

A atenção à região de semiárido também pode ajudar a evitar a abertura de novas áreas de Cerrado, diz o produtor. “O estado mantém 5,1 milhões de hectares de áreas públicas preservadas e pode e deve verticalizar a produção. A questão é um imperativo ambiental e comercial”, constata. Segundo ele, embora a informação não seja precisa, existe a estimativa de que é possível triplicar a área cultivada no Piauí sem interferência sobre o meio ambiente. “No Norte do estado, podemos expandir a agricultura familiar típica do Nordeste”, acrescenta.

Diversificação — Depois de sair do interior de São Paulo e trabalhar em Mato Grosso do Sul e em Minas Gerais, o produtor Ricardo Khouri migrou para o Tocantins, em 1996, por meio do Prodecer, programa lançado na década de 1970, em uma parceria entre os governos brasileiro e japonês para estimular o desenvolvimento da agricultura no Cerrado.

Os 500 hectares do primeiro lote de terra acabaram se transformando em 1 mil hectares próprios e outros 1,4 mil hectares mantidos em parceria no município de Pedro Afonso. Lá o produtor trabalha com a engorda do gado e cultiva soja, milho, arroz, sorgo e cana-de-açúcar. “Entre as nossas vantagens estão um regime hídrico muito bem definido, com uma ótima distribuição de chuvas entre outubro e maio, além da maior quantidade de horas de luz em comparação com outras regiões e que favorece a atividade fotossintética das plantas”, analisa o produtor. Nas suas lavouras, ele colhe uma média de 53 sacas de soja por hectare, mas revela que a meta é chegar a 60 sacas por hectare nos próximos três anos.

Em 1998, Khouri ajudou a fundar a Cooperativa Agroindustrial do Tocantins (Coapa), que tem 270 associados e da qual ele é o atual presidente. Na safra 2013/2014, a cooperativa obteve um recorde com o recebimento de quase 83,5 mil toneladas de soja e 19,2 mil toneladas de milho. Para o dirigente, mesmo que as condições de transporte até o embarque ainda não sejam as ideais, a proximidade com o Porto do Itaqui favorece o agronegócio local, já que 95% da safra de soja é exportada para a China e países da Europa.

Natural do Tocantins, o produtor João Damasceno de Sá Filho recorda que ele e os irmãos chegaram a pensar em vender as terras da família, tamanha era a dificuldade de manter os negócios na agricultura na década de 1980. No entanto, a chegada de muitos empreendedores de outros estados e o incentivo do Prodecer fizeram com que eles mudassem de ideia.

A pecuária extensiva foi substituída inicialmente pelo cultivo do arroz e, depois, pela soja e por milho e sorgo na safrinha. Hoje, ele e seus três sócios (um irmão e dois cunhados) administram a Fazenda Brejinho, em Pedro Afonso. Na propriedade de 3,5 mil hectares, eles também cultivam seringueira e fazem integração lavoura-pecuária. “Nossa área é limite e, por isso, investimos em produtividade e diversificação. Conseguimos reduzir nossos custos fixos e ainda ajudamos na melhoria de todo o sistema”, declara.

Entre os objetivos da família para os próximos anos está conseguir o melhoramento genético do gado e a ampliação dos índices de rendimento das lavouras. “Assim como deve acontecer com a logística, nossa região terá melhores condições de competitividade com o passar do tempo”, acredita o produtor. Hoje a Fazenda Brejinho tem médias de produtividade entre 55 e 58 sacas por hectare na soja e de 92 sacas na safrinha do milho. A meta é alcançar pelo menos 60 sacas por hectare na oleaginosa e entre 100 e 110 sacas por hectare no cereal.

Produtor João Damasceno de Sá Filho: diversificação é o foco da Fazenda Brejinho, em Pedro Afonso, no Tocantins

Do Paraná para o Maranhão — As notícias sobre o desenvolvimento da agricultura no Maranhão chamaram a atenção do produtor paranaense Isaías Soldatelli no início dos anos 2000. Natural de Corbélia, no Oeste do Paraná, ele o irmão Juarez mantinham uma propriedade de 120 hectares no estado do Sul e decidiram conhecer de perto a nova realidade que se apresentava em outras regiões. Depois de visitarem áreas no Mato Grosso e no Piauí, os irmãos optaram pelo investimento no Maranhão, onde um amigo da família já havia se instalado. “Inicialmente fizemos um contrato de colheita para ele, mas já pensávamos em ter nossa própria fazenda”, detalha Soldatelli, que é vicepresidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Balsas (Sindibalsas) e presidente da Aprosoja Maranhão.

Produtor Ricardo Khouri: regime hídrico bem definido é um dos diferenciais da agricultura no Tocantins

Na época, o hectare de terra inexplorada valia entre 20 e 30 sacas de soja. As aquisições e arrendamentos foram feitos aos poucos e, agora, em parceria com a família Camera, os irmãos administram o Condomínio Agrícola Camera e Soldatelli, com lavouras no Sul do estado. Na última safra, o grupo colheu 1 milhão de sacas de milho e 900 mil sacas de soja em áreas que hoje valem até 350 sacas de soja o hectare. “Investimos em tecnologias como a agricultura de precisão para aumentar nossa produtividade e pensamos em adotar a integração lavoura-pecuária nos próximos anos”, afirma Soldatelli.

Segundo o produtor, as condições da região permitem o cultivo de uma segunda safra em cerca de 80% da área. “Conquistamos muitas melhorias, mas algumas coisas ainda dependem de nós. A estrada que dá acesso às nossas fazendas, por exemplo, é mantida com nossos investimentos”, comenta. Prevista para o ano que vem, a inauguração do Terminal de Grãos do Maranhão (Tegram), no Porto do Itaqui, vai favorecer o escoamento da produção do estado, que na safra 2013/2014 foi de 4,3 milhões de toneladas, um aumento de 20,4% em relação ao período 2012/2013. “No entanto, precisamos melhorar as estradas que ligam a região produtora ao porto”, ressalva o produtor.

Mais do que a logística — Produtores e representantes do setor têm a mesma opinião quando analisam os grandes desafios do Matopiba. As deficiências na estrutura logística e de armazenagem, e entraves em serviços como energia, comunicação e até segurança representam os principais gargalos para um maior desenvolvimento da região. Mesmo que algumas localidades tenham maior proximidade dos portos exportadores em comparação com o Centro-Oeste, por exemplo, obras voltadas a rodovias, ferrovias e hidrovias são apontadas como necessárias e urgentes para facilitar o escoamento da safra.

No interior dos estados ainda é comum encontrar estradas de terra que dificultam o deslocamento entre as cidades e as fazendas. Em muitos casos, são os próprios produtores que realizam obras e arcam com os custos de melhorias em trechos vicinais. Parcerias público-privadas também são realizadas com esse objetivo. “A falta de manutenção preventiva e a grande circulação de caminhões em determinadas épocas deixam esses trechos em situação bastante precária”, assinala o diretor de agronegócios da Aiba, Ernani Sabai.

De toda a produção agrícola do Oeste baiano, 65% permanecem no mercado interno, abastecendo a Bahia e outros estados do Norte e do Nordeste. Praticamente a metade da safra de soja, milho e algodão da região é destinada para exportação. E para chegar até os portos, essa produção precisa necessariamente circular por rodovias, sendo que a BR 242 é o eixo principal. A distância entre Luís Eduardo Magalhães e os portos de Ilhéus e Salvador, por exemplo, varia entre 950 e 1 mil quilômetros.

SLC Agrícola: gigante investimento

Uma das maiores empresas do agronegócio brasileiro investe há bastante tempo nas prósperas terras do Nordeste. Das 16 fazendas da SLC Agrícola, cinco estão na Bahia, duas no Maranhão e duas no Piauí. O primeiro negócio na região foi em 1988, com a aquisição de uma área em Tasso Fragoso, no Maranhão. É lá que está a Fazenda Parnaíba, com 50.518 hectares de área plantada com soja, milho e algodão. “Na época, vendemos uma propriedade que tínhamos no Rio Grande do Sul e decidimos apostar na nova fronteira agrícola que se apresentava. Lembro que não existiam estradas verdadeiras na região e que nosso gerente precisou montar uma barraca para dar início ao trabalho na área”, conta o diretor presidente da SLC Agrícola, Aurélio Pavinato (foto).

O executivo recorda que a terra no local foi adquirida por US$ 15 por hectare. Hoje, o hectare da área administrada pela SLC vale US$ 4,2 mil. Os primeiros cultivos no novo terreno foram de arroz e, em uma parcela plantada com soja, a produtividade da oleaginosa foi de 8,5 sacas por hectare. Na lavoura colhida em 1993, o rendimento já foi de 40 sacas por hectare, volume que passou a 50 sacas por hectare cinco anos depois e para 55 sacas por hectare em 2003. “Agora estamos em 59 sacas por hectare, mas nosso objetivo é chegar próximo de 65 sacas por hectare nos próximos anos”, prossegue Pavinato.

Na safra 2013/2014, a SLC cultivou 185 mil hectares com soja em seis estados do País. Desse total, 122,7 mil hectares foram plantados nas fazendas do Nordeste. Dos 93,7 mil hectares com algodão, 52,14 mil hectares foram cultivados na região. No milho, dos 50,43 mil hectares, 27,7 mil hectares corresponderam ao plantio no Nordeste. Além de apontar a logística como principal desafio para o Matopiba, Pavinato também identifica a necessidade de investimentos públicos e privados em pesquisa e em treinamento de mão de obra. “Mesmo com as dificuldades que ainda existem, de uma forma geral, o Cerrado é uma das principais regiões do mundo em potencial produtivo”, salienta.

Uma das obras mais esperadas para a região e que tem término previsto para 2015 é a Ferrovia de Integração Oeste Leste (Fiol), que terá mais de 1,5 mil quilômetros e ligará Figueirópolis/TO a Ilhéus/BA. No município baiano, a expectativa é pela conclusão do Porto Sul, que vai ampliar a capacidade de exportação do estado e evitar que cargas sejam desviadas para outras localidades, como Santos/SP e Paranaguá/ PR. “Em torno de 30% do que ganhamos, gastamos com o custo logístico. Enquanto nossos colegas argentinos pagam US$ 25 em frete para transportar uma tonelada, nós pagamos US$ 95”, reclama o presidente da Aiba, Júlio Busato.

Para o presidente da Aprosoja Maranhão, Isaías Soldatelli, o setor produtivo carece de maior atenção dos governos nessas regiões de recente ocupação. “Ainda temos algumas deficiências básicas nas fazendas, como problemas com sinal de celular e com energia elétrica, o que prejudica os projetos com irrigação”, avalia. O produtor Ricardo Khouri aponta a necessidade de uma maior oferta de materiais de milho adaptados às baixas latitudes das propriedades do Tocantins e defende investimentos na verticalização da produção. “Hoje a maior parte da nossa colheita não fica no estado, que poderia receber granjas de aves e suínos”, sustenta.

O presidente da Aprosoja Piauí, Moysés Barjud, concorda com esse argumento, lembrando que municípios como Bom Jesus e Uruçuí podem agregar valor à cadeia por meio de investimentos com esse perfil. “Apenas 20% do milho que produzimos permanece no estado”, afirma. Na safra 2013/2014, de acordo com a Conab, a safra de milho no Piauí aumentou 89,6%, chegando a 1,029 milhão de toneladas.

Novo terminal para exportação — Um dos projetos que deve facilitar o escoamento da produção agrícola do Matopiba é aguardado há 10 anos e tem previsão de inauguração para os primeiros meses de 2015. O Terminal de Grãos do Maranhão (Tegram), junto ao Porto do Itaqui, em São Luís/MA, terá uma capacidade de movimentação inicial de 5 milhões de toneladas entre soja, milho e farelo. Já em uma segunda fase, o volume passará para 10 milhões de toneladas em dois berços de atracação. Os números irão ampliar a atual movimentação de Itaqui, que exporta em torno de 3 milhões de toneladas de grãos ao ano.

Formado por quatro silos com capacidade estática de armazenagem de 125 mil toneladas cada um, o Tegram está recebendo investimentos de R$ 600 milhões do consórcio formado pelas empresas CGG Trading, NovaAgri, Glencore, Louis Dreyfus e Amaggi. Além de favorecer os estados do Matopiba, a obra deve colaborar para reduzir custos e prazos de transporte para os produtores de algumas regiões de Mato Grosso e do Pará, informa o diretor de Logística da CGG Trading, Luiz Claudio Santos. “Além disso, é uma viagem com sete dias de vantagem para a Europa em comparação com o embarque em Santos ou Paranaguá”, destaca.

Entre 70% e 80% do volume movimentado chegarão ao Tegram por meio de ferrovias. “A capacidade de descarga será de 4 mil toneladas/hora via ferrovia e de 3 mil toneladas/hora via caminhão. Para organizar a movimentação dos caminhões junto ao terminal e evitar a formação de filas, haverá um posto de triagem a 20 quilômetros do porto e onde podem ser estacionados 500 veículos”, informa o executivo.

Terminal de Grãos do Maranhão (Tegram) terá capacidade inicial para escoar 5 milhões de toneladas

As consorciadas do Tegram também pretendem investir em estruturas de armazenagem em localidades produtoras do Matopiba. Nesse projeto, serão aplicados em torno de R$ 300 milhões nos próximos cinco anos em pontos onde existe déficit de armazéns que podem ajudar a escalonar o transporte da produção. ”São regiões onde o crescimento não deve parar tão cedo. No Piauí, o incremento deve ser de 2 milhões de hectares, enquanto que em Tocantins podem ser incorporados à produção entre 3 e 4 milhões de hectares. Por isso, a estrutura precisa crescer junto”, justifica Santos.