Plantio Direto

Variabilidade espacial nos sistemas CONSERVACIONISTAS

Leandro Gimenez, pesquisador na Fundação MT

São inquestionáveis os avanços da mecanização agrícola e das novas ferramentas para o manejo localizado na produção nos últimos anos. Nas conversas com produtores e com os profissionais da área agronômica, mesmo quando o assunto é outro, são recorrentes as menções às novas ferramentas. É certo que a eletrônica inserida nas máquinas trouxe novas oportunidades, mas também trouxe novos desafios.

Como utilizar essas ferraentas para promover ganhos financeiros e assegurar que a produção ocorra de modo sustentado? É ilusão assumir que as ferramentas levem automaticamente ao uso mais eficiente dos insumos. Por exemplo, o uso de máquinas com dimensões maiores que aquelas indicadas para o sistema de produção têm levado a danos expressivos na estrutura do solo. Com os sistemas de direcionamento e a facilidade em operar máquinas com maior largura, é também recorrente a eliminação de estruturas de contenção de água para que essas máquinas operem com capacidade operacional que justifique o investimento realizado. Trocam-se os pilares de sustentação dos sistemas de produção pela capacidade operacional, com efeitos desastrosos em longo prazo. Na aplicação de fertilizantes e corretivos de modo localizado, há aqueles usuários que orgulhosamente monitoram a qualidade e as quantidades aplicadas a partir de mapas. Contudo, os sistemas mensuram, via de regra, apenas a rotação de eixos e não quanto e como o produto foi efetivamente depositado.

Filosofia de gerenciamento da produção — Com essas novas ferramentas, há a oportunidade de evoluir na produção e preservar os recursos naturais, melhorar a relação entre investimento e retorno em insumos e, de quebra, tornar a vida no campo menos desgastante para aqueles diretamente envolvidos. Porém, para isso é fundamental que se mantenha a visão do todo e os valores que a agricultura brasileira conquistou ao longo de anos com o desenvolvimento do sistema de semeadura direta e que se deve defender com todo empenho. Mais do que um conjunto de ferramentas avançadas, o manejo da variabilidade espacial, conhecido pelo consagrado jargão "agricultura de precisão", compreende uma filosofia de gerenciamento da produção em que se adaptam em cada local da lavoura os níveis de investimento e as práticas mais adequadas. Aproveitando a analogia com o sistema de semeadura direta, os princípios são os mesmos, mas as ferramentas utilizadas são distintas em cada região e sistema de produção. Não se pode utilizar os mesmos momentos de semeadura, as mesmas culturas, rotações, cultivares e estratégias de uso de máquinas na Região Central e no Sul do país. Da mesma maneira, não se podem utilizar os mesmos procedimentos para caracterização e tratamento da variabilidade em sistemas de produção distintos.

As novas ferramentas e a mecanização — Ferramentas como os sistemas para orientação de máquinas, controladores de vazão, controladores de seção, monitores para semeadura, monitores para pulverização, monitores de colheita, computadores de bordo e a telemetria viabilizam as operações agrícolas voltadas ao manejo da variabilidade. Entretanto, é fundamental compreender que esses sistemas visam prioritariamente melhorar a eficiência da mecanização agrícola. Seu uso é amplamente justificado mesmo naquelas operações em taxa fixa, pois reduzem a sobreposição ou falhas em aplicação, ajustam a vazão em função da velocidade de deslocamento, auxiliam na redução do número de manobras, reduzem a fadiga do operador, permitem aos gestores dos sistemas mecanizados maior controle, apoiam a tomada de decisão, auxiliam na identificação de problemas nas máquinas, além de melhorar as rotinas de manutenção.

Os benefícios oscilam em função do sistema de produção, da intensidade de uso das máquinas, disponibilidade de recursos humanos e dos valores pagos pela adição destes às máquinas em sua configuração padrão. São mais facilmente calculáveis que aqueles relacionados ao manejo da variabilidade espacial.

Nos últimos anos, houve resultados econômicos satisfatórios na maior parte das atividades agropecuárias. Com isso, equipamentos com capacidade e nível de tecnologia, muitas vezes em desarmonia com as necessidades, foram adquiridos. A ciência agronômica busca responder as questões o que, quando, quanto e por que adotar esta ou outra prática, estabelecendo os requisitos desejados das máquinas. A engenharia fornece soluções sobre como fazer atendendo a esses requisitos. Uma preocupante inversão nesse processo ocorre periodicamente, sendo o produtor que adquire esses “insumos” o agente estimulador, em função de uma situação econômica transitória.

Variabilidade espacial e temporal — É bastante comum o questionamento sobre a rentabilidade pelo manejo da variabilidade espacial. Não há uma resposta única a essa questão, mesmo considerando condições regionais. Os retornos pelos investimentos em “agricultura de precisão” dependem da intensidade de variabilidade espacial presente, a qual varia em cada talhão. Todo produtor sabe que nenhum campo é igual a outro. Por mais simples que pareça, ainda há aplicações de doses fixas em condições que exigiriam montantes distintos, assim como aplicações em taxa variável para condições em que esta não se justifica.

Equívoco frequente é considerar que as aplicações em taxa variável permitirão homogeneizar os níveis de nutrientes no solo, levando a uma condição em que se poderia realizar aplicações em taxa fixa. Se as amostragens e aplicações forem corretas, esse é o resultado esperado, entretanto, como o sistema solo-planta-atmosfera é dinâmico, sempre haverá regiões que reterão mais ou menos nutrientes e promoverão maior ou menor produtividade, e com isso extração e exportação de nutrientes.

O uso de máquinas com dimensões maiores que aquelas indicadas para o sistema de produção tem levado a danos expressivos na estrutura do solo

Além da espacial, é importante considerar a variabilidade temporal, ou seja, a que ocorre ao longo da safra ou entre uma safra e outra. As manchas de teores de nutrientes identificados em um ano relacionam- se com aquelas no ano seguinte? E as regiões com maiores e menores produtividades? O vigor de plantas identificado por uma amostragem ou sensor no meio do ciclo reflete a condição da lavoura próximo à colheita?

Sabe-se que a variabilidade gerada na lavoura por parâmetros do solo tende a se repetir ao longo dos anos e aquelas associadas a pragas e doenças tendem a oscilar entre os anos. Entretanto, mesmo para a variabilidade devida ao solo, há respostas distintas em função da cultura e da condição climática entre um ano e outro. Para facilitar a tomada de decisão em sistemas complexos como o agrícola, é interessante construir o que se denomina fluxograma ou árvore de decisão, como o apresentado na Figura 1.

Pode ocorrer, entretanto, que haja variabilidade em alguns fatores que não causem efeito negativo à cultura – o que deve ser checado com monitores de colheita –, mas que poderiam ser manejados de modo mais eficiente em taxa variável. Um exemplo é o manejo do teor de nutrientes no solo. Desde que adequadamente caracterizado, pode se proceder à aplicação em taxa variável com benefícios financeiros em situações onde porções das áreas estão com teores acima dos níveis adequados. Muitas vezes, não se pode corrigir os fatores restritivos à produtividade. Por exemplo, a disponibilidade hídrica em função da variação da granulometria do solo em sistemas em sequeiro. Por outro lado, é possível ajustar o nível de investimento para esses ambientes que apresentam menor potencial.

Figura 1 – Fluxograma para tomada de decisão quanto ao manejo da variabilidade espacial

Manejo — Ferramentas que permitem a identificação detalhada da variabilidade no solo, como a condutividade elétrica, e das plantas, como os sensores de vigor e as imagens, trazem oportunidades de avançar. Essas ferramentas permitem subdividir as glebas em porções com características distintas, denominadas de unidades de manejo, que podem ser avaliadas e tratadas de modo mais efetivo. Têm sido acompanhadas diversas situações em que há benefícios expressivos pelo manejo da variabilidade identificada com estas ferramentas: população de plantas, doses e estratégias de aplicação de fertilizantes, aplicação localizada de herbicidas e adubação de sistema. Favorecer o desenvolvimento das plantas de cobertura nas porções mais restritivas das áreas é um exemplo de manejo que pode ser adotado com sucesso. Na Figura 2, é apresentado um exemplo.

Figura 2 – Fontes de informação e unidades de manejo

Considerações finais — A evolução da gestão da variabilidade espacial passa pela recuperação da visão de sistema de produção e pelo desacoplamento das práticas de aplicação em taxa variável das vendas de insumos ou mesmo de serviços padronizados. Embora importantes, essas práticas terão os efeitos reduzidos dia a dia. Os problemas nutricionais dos sistemas vêm sendo resolvidos, enquanto outros persistem.

Trata-se de algo semelhante ao observado na evolução dos sistemas em semeadura direta. A presença de material sobre o solo, a volta da biota, sua reestruturação do solo e demais benefícios permitiram que regiões antes de baixa produtividade atingissem novos patamares. Com o passar dos anos, algumas porções que já eram “boas” ficaram “muito boas”. Em outras, desenvolveram- se problemas como as pragas e doenças de solo, e em algumas ainda a produtividade estacionou. A evolução da agricultura é contínua e vem ocorrendo para aqueles que passaram a adotar o “sistema de semeadura direta” ao invés de enxergarem a “semeadura direta” como prática isolada.

No caso do manejo da variabilidade espacial, o que se realizou até o momento, com maior ou menor sucesso, foi administrar os teores de nutrientes no solo. Há diversas ferramentas para manejar outros fatores limitantes. O desafio de todos será o de selecionar caso a caso a sua adoção e simultaneamente promover os sistemas de produção conservacionistas, quer seja de grãos, fibras, biomassa e proteína. Tratase de um tema multidisciplinar envolvendo tanto engenharia, eletrônica e mecanização agrícola como a agronomia. Os próximos anos sinalizam margens mais estreitas e a necessidade de ser mais eficientes. Ferramentas não faltam, são muitas, algumas com custo elevado. Cabe a todos uma melhor percepção quanto à sua utilização, que ocorrerá quer por vontade, de modo proativo, quer pela do “mercado”, de modo reativo.