Glauber em Campo

UMA SAFRA DE ALTOS RISCOS, O QUE FAZER?

GLAUBER SILVEIRA

Asafra de soja já se iniciou e quando perguntamos ao produtor qual a sua maior preocupação a partir deste momento, mais de 90% respondem: o clima. O que é mais do que natural, afinal, na semente colocada na terra está toda a esperança de uma safra de rendas. Esta safra, porém, iniciase diferente. A maior preocupação do produtor é o mercado, o preço. Há muito tempo não víamos um cenário tão assustador não só pelo preço da soja, mas também pelo custo de produção.

A safra norte-americana consolida- se como a maior de sua história. O frio que poderia atrapalhar a colheita não ocorreu até agora, sendo assim, os americanos colherão soja e milho como nunca visto. E outro cenário aponta o aumento de área na América do Sul, com perspectiva de clima favorável. A soma desses fatores aponta para uma safra cheia também por aqui, ou seja, produção alta, oferta sobrando, e o resultado de tudo isso só poderia ser preços baixos.

Pelo que tudo indica, as chances de termos preços perto do que o produtor deseja estão cada dia mais distantes. Sendo assim, o que nos resta é racionalizar esta safra que iniciamos a semeadura agora. Muito produtores já estão tomando suas providências para diminuir custos. Uma das alternativas é a racionalização dos fertilizantes, afinal, foram vários anos de preços bons, e com isto o produtor que investiu em adubação pode, nesta safra, reduzir a adubação e manter a produtividade.

Na região Centro-Oeste, os produtores via de regra colocam de 80 a 100 pontos de fósforo e potássio, quantidade suficiente para altas produtividades. Sendo assim, a pesquisa já mostrou que a redução da adubação após várias safras de boa adubação pouco interfere no resultado. Esse é um dos pontos que um produtor pode considerar ao fazer suas contas, afinal, no MT, com custos de adubação que estão em média US$ 224/hectare com a soja, a US$ 16/saca, o custo fica 14 sacas/hectare. Um ajuste na adubação onde se tem reserva no solo pode ser uma opção.

É preciso fazer uma gestão muito eficiente do manejo da lavoura. Fiquei muito assustado quando fui fechar os defensivos para a lavoura. Na primeira cotação, o custo com defensivos fechou em US$ 250/hectare. Após muita briga, os custos caíram para US$ 220/ha, ou seja, US$ 30 a menos. Isso hoje significa quase duas sacas de soja por hectare. Me impressionou a quantidade de aplicações de inseticidas recomendadas ou previstas, que vão de sete a dez. Realmente precisamos juntar esforços para reverter esse cenário de defesa vegetal.

O manejo adequado da lavoura pode significar economias importantes em um ano como este. Qualquer aplicação de inseticida significa uma saca de soja por hectare de custo. Sendo assim, é fundamental se monitorar e fazer o controle adequado para se evitar a reaplicação. O mesmo ocorre com os herbicidas e fungicidas. Qualquer vacilo do produtor significa custos a mais, e nesta safra precisamos reduzir custos com eficiência e eficácia no manejo da lavoura. Com uma boa gestão o produtor, ao invés de aumentar os custos em duas a três sacas/hectare, pode reduzir.

Há poucos anos, fertilizantes, defensivos e sementes significavam custos em torno de 22 a 24 sacas/hectare. Nesta safra, representam de 32 a 36 sacas. Lembrando que temos ainda custos operacionais como plantio, colheita, transporte, mão de obra, aplicação de defensivos, prestação de máquinas e equipamentos, depreciação, arrendamento, etc. Com tudo isso e com os preços atuais, já amargamos um prejuízo de três a seis sacas/hectare.

Já passamos por um cenário desses em 2004 e 2005, que fez um estrago no Mato Grosso e no Brasil. O que temos diferente agora é que naquele momento os produtores estavam muito alavancados, o que não ocorre no geral nesta safra. Mas em algumas regiões que já vêm de safras com dificuldade, como no Rio Grande do Sul, e algumas regiões da Bahia e do Mato Grosso do Sul, e mesmo com quem entrou há pouco nas áreas de pastagem do Mato Grosso, vai sentir muito mais se esses preços não retornarem ao menos para patamares aceitáveis à condição brasileira de logística e armazenagem.

Como podemos ver, é uma safra de muita gestão e racionalização dos insumos agrícolas. Os produtores terão que ser cirúrgicos na condução da lavoura, afinal, isso pode significar uma redução de quatro a seis sacas/hectare de custo. É preciso estudar bem antes de fazer qualquer operação na lavoura para que ela seja muito eficiente. Claro que todos sabemos que eficiência e eficácia são sinônimos de rentabilidade. Então, vamos lá, boa sorte e um ótimo plantio, pois ele é a base de tudo.

Presidente da Câmara Setorial da Soja, diretor da Aprosoja e produtor rural em Campos de Júlio/MT