Armazenagem

Grãos guardados A SALVO de pragas

O Manejo Integrado de Pragas na Unidade Armazenadora consiste na série de medidas adotadas para evitar danos de insetos. São muitas as ações e que devem ser sempre agregadas umas às outras

Engenheiro agrônomo Irineu Lorini, pesquisador Embrapa Soja, [email protected]

Perdas de grãos ocasionadas por pragas em armazéns, presença de fragmentos de insetos em subprodutos alimentares, deterioração da massa de grãos, contaminação fúngica, presença de micotoxinas, efeitos na saúde humana e animal, dificuldades para exportação de produtos e subprodutos brasileiros devido ao potencial de risco, etc. são alguns dos problemas que a armazenagem inadequada de grãos produz na sociedade brasileira. O conhecimento do hábito alimentar de cada praga constitui elemento importante para definir o manejo a ser implementado nos grãos e nas sementes durante o período de armazenamento.

Segundo esse hábito, as pragas podem ser classificadas em primárias ou secundárias. Existem dois principais grupos de pragas que atacam as sementes armazenadas, que são besouros e traças. Entre os besouros encontram-se as espécies Rhyzopertha dominica, Sitophilus oryzae, Sitophilus zeamais, Acanthoscelides obtectus, Lasioderma serricorne. As espécies de traças mais importantes são Sitotroga cerealella , Ephestia kuehniella e Ephestia elutella.

Entre essas pragas, R. dominica, S. oryzae e S. zeamais são as mais preocupantes economicamente e justificam a maior parte do controle químico praticado nos armazéns. Além dessas pragas, há roedores e pássaros causadores de perdas, principalmente qualitativas, pela sujeira que deixam no produto final, que também devem ser considerados no manejo integrado de pragas (MIP). Uma das soluções para o problema de perdas ocasionadas por pragas em armazéns é o Manejo Integrado de Pragas na Unidade Armazenadora. Esse processo consiste na série de medidas que devem ser adotadas pelos armazenadores para evitar danos causados por pragas. Essa técnica compreende várias etapas, tais como:

Mudança de comportamento dos armazenadores: é a fase inicial e mais importante de todo o processo, no qual todas as pessoas responsáveis que atuam na unidade armazenadora de grãos têm de estar envolvidas. É necessário que desde operadores das unidades, que lidam com o grão propriamente dito, até dirigentes das instituições armazenado ras desses grãos participem do processo. Nessa fase, o alvo é conscientizar sobre a importância de pragas no armazenamento e danos diretos e indiretos que elas podem causar.

Conhecimento da unidade armazenadora de grãos e das pragas: essa deve ser conhecida em todos os detalhes, por operadores e administradores, desde a chegada do produto à recepção até a expedição, após o período de armazenamento. Essa inspeção deve identificar e prever pontos de entrada e abrigo de pragas dentro do sistema de armazenagem. Nessa fase também deve ser levantado o histórico do controle de pragas na unidade armazenadora nos anos anteriores, identificando problemas passados e as pragas com maior ocorrência.

Medidas de limpeza e higienização da unidade armazenadora: o uso adequado dessas medidas definirá o maior sucesso da meta preconizada. O uso de simples equipamentos de limpeza, como, por exemplo, vassouras, escovas e aspiradores de pó em moegas, túneis, passarelas, secadores, fitas transportadoras, eixos sem-fim, máquinas de limpeza, elevadores, etc., nas instalações da unidade armazenadora representa os maiores ganhos desse processo. A eliminação total de focos de infestação dentro da unidade, como resíduos de grãos, poeiras, sobras de classificação, sobras de grãos, etc., permitirá o armazenamento sadio. Após essa limpeza, o tratamento periódico de toda a estrutura armazenadora, com inseticidas protetores de longa duração, é uma necessidade para evitar reinfestação de insetos nesses armazéns.

“Todas as medidas devem ser tomadas através de atitudes gerenciais durante a permanência dos produtos no armazém, e não somente durante o recebimento”, adverte Lorini"

Uso dos Métodos de Controle — O controle das pragas depende praticamente de três métodos principais, descritos a seguir:

1) Inseticidas químicos líquidos (tratamento preventivo): os grãos e as sementes, após terem sido beneficiados, expurgados ou não, podem ser tratados preventivamente para obter proteção contra o ataque das pragas durante o armazenamento. Se o período de armazenagem das sementes for superior a 60 dias, pode-se fazer esse tratamento químico preventivo, que consiste em aplicar inseticidas líquidos sobre as sementes, na correia transportadora ou na tubulação de fluxo da semente beneficiada, no momento de ensacar a semente, ou de armazenar nos silos. Recomenda-se a dosagem de um a dois litros de calda por tonelada, a ser pulverizada sobre as sementes, e uso dos inseticidas pirimiphos-methyl, fenitrothion, deltamethrin, bifenthrin ou lambdacyalothrin. Não se deve realizar tratamento via líquida na correia transportadora, caso exista infestação de qualquer praga nos grãos ou nas sementes, pois poderá resultar em falhas de controle e início de problema de resistência das pragas aos inseticidas.

2) Inseticida natural à base de terra de diatomáceas (tratamento preventivo): métodos alternativos de controle estão sendo enfatizados, a fim de reduzir o uso de produtos químicos, diminuir o potencial de exposição humana e reduzir a velocidade e o desenvolvimento de resistência de pragas a inseticidas. Os pós inertes à base de terra de diatomáceas constituem uma alternativa para o armazenador controlar as pragas durante o armazenamento, através do tratamento preventivo. O pó inerte à base de terra de diatomáceas é proveniente de fósseis de algas diatomáceas, que possuem naturalmente fina camada de sílica, e pode ser de origem marinha ou de água doce. O preparo da terra de diatomáceas para uso comercial é feito por extração, secagem e moagem do material fóssil, o qual resulta em pó seco, de fina granulometria. No Brasil, apenas dois produtos comerciais, Insecto e Keepdry, à base de terra de diatomáceas, estão registrados como inseticidas e são recomendados para controle de pragas no armazenamento de sementes e de grãos. A dose empregada é variável de um a dois quilos de terra de diatomáceas por tonelada de grão ou semente.

3) Expurgo das sementes (tratamento curativo): a fumigação ou expurgo é uma técnica empregada para eliminar qualquer infestação de pragas nos produtos armazenados mediante uso de gás. Esse processo pode ser realizado nos mais diferentes locais, desde que sejam observadas a perfeita vedação do local a ser expurgado e as normas de segurança. Assim, pode ser realizado em lotes de sementes, silos de concreto e metálicos, em armazéns graneleiros, em câmaras de expurgo, entre outros, observando-se sempre o período de exposição e a hermeticidade do local. O gás introduzido no interior da câmara de expurgo deve ficar nesse ambiente em concentração letal para as pragas. Por isso, qualquer saída ou entrada de ar deve ser vedada, sempre com materiais apropriados, como lona de expurgo. O inseticida indicado para expurgo de sementes, pela eficácia, facilidade de uso, segurança de aplicação e versatilidade, é a fosfina, que deve permanecer em uma concentração mínima de 400 ppm por um mínimo de 120 horas de exposição.

Existem dois principais grupos de pragas que atacam os grãos armazenados, os besouros e as traças, e entre os besouros encontram-se as espécies como o Lasioderma serricorne

Monitoramento da massa de grãos — Uma vez armazenados, os grãos devem ser monitorados durante todo o período em que permanecerem estocados. O acompanhamento da evolução de pragas que ocorrem na massa de grãos armazenados é de fundamental importância, pois permite detectar o início da infestação que poderá alterar a qualidade final do grão. Esse monitoramento tem por base um eficiente sistema de amostragem de pragas, com medição de variáveis, como temperatura e umidade do grão e a presença de pragas. Registra o início da infestação e direciona a tomada de decisão por parte do armazenador, a fim de garantir a qualidade do grão.

Gerenciamento da unidade — Todas essas medidas devem ser tomadas através de atitudes gerenciais durante a permanência dos produtos no armazém, e não somente durante o recebimento, permitindo que todos os procedimentos interajam no processo e garantindo melhor qualidade de grão e semente armazenados.