Feijão

Maneiras de enfrentar a MOSCA-BRANCA

Entre os métodos de controle da praga que transmite doenças, inclusive o mosaico-dourado ao feijoeiro, foi estabelecido até o vazio sanitário em Goiás

Eliane Quintela, entomologista da Embrapa Arroz e Feijão

O complexo Bemisia tabaci (Hemiptera: Aleyrodidae), conhecida popularmente por mosca-branca, é considerada uma das principais pragas do mundo, transmissora de mais de 110 espécies de vírus de plantas com predominância para o vírus do gênero Begomovirus, família Geminiviridae. No Brasil, tem-se verificado a expansão das áreas de plantio com os cultivos e habitats que são favoráveis ao desenvolvimento desse inseto, aumentando significativamente o dano econômico à lavoura causado pela praga.

Devido à grande plasticidade genética e à falta de caracteres morfológicos que possam diferenciar os diversos fenótipos, a caracterização taxonômica dessa espécie tem sido muito complicada, confundido, há muito tempo, os taxonomistas. A maioria dos pesquisadores tem considerado B. tabaci um grupo complexo de biótipos, enquanto outros têm proposto ser um complexo de 24 ou mais espécies. Entretanto, como ainda não há consenso para uma nova nomenclatura, o nome de B. tabaci biótipo B será usado neste texto. Esse inseto tão frágil e diminuto (1 milímetro) tem causado prejuízos alarmantes à agricultura brasileira. Os danos diretos são causados pela sucção da seiva das plantas e injeção de toxinas, causando debilidades às plantas. Ao sugar a seiva, causam danos indiretos pela excreção de substância açucarada, que favorece a formação de fumagina, responsável por redução da área fotossintética e do valor comercial da produção.

Os vírus desse gênero têm limitado significativamente o cultivo de tomate e feijão, especialmente em clima quente e seco. Além do seu alto potencial reprodutivo (uma fêmea pode colocar até 300 ovos), a mosca-branca apresenta grande plasticidade genética (grande variação morfológica de ninfas e várias raças ou biótipos), desenvolvimento rápido, resistência aos inseticidas sintéticos, ampla gama de hospedeiros, grande habilidade de adaptação a novas zonas geográficas, mesmo em latitudes e altitudes mais frias e grande mobilidade.

Vazio sanitário — Na safra 2012/13, em decorrência da alta incidência de mosca- branca e do vírus do mosaico-dourado na cultura do feijoeiro comum, bem como sua alta população nas lavouras de soja, algodão, tomate e hortaliças no Distrito Federal, Goiás e Noroeste de Minas Gerais, os danos atingiram proporções alarmantes, comprometendo e inviabilizando a consolidação da agricultura regional. Nessas regiões, as perdas pela mosca- branca/geminivírus foram estimadas em 69% da produção (R$ 1,7 bilhão somente no feijoeiro e na soja).

Dessa forma, a partir de iniciativas do setor produtivo e com o apoio de várias instituições governamentais, foram estabelecidas várias ações emergenciais para o manejo integrado da mosca-branca, com ênfase no vazio sanitário para o feijoeiro comum. O período de vazio sanitário obrigatório foi estabelecido em dois períodos para o estado de Goiás. Para as regiões Sudoeste, Sul e Sudeste do estado, o período de vazio sanitário é de 5 de setembro a 5 de outubro de cada ano.

Métodos de controle — Para o manejo da mosca-branca e, consequentemente, das doenças que surgem na planta, o ideal é a combinação de diversos métodos de controle, de forma que a população da praga seja mantida abaixo do seu nível de dano econômico. A seguir, os principais métodos de controle.

Controle químico: o controle químico é uma importante ferramenta no manejo da mosca-branca, principalmente em cultivos que ela transmite vírus. Dessa forma, o uso de inseticidas sintéticos continua sendo o principal método de controle, que são aplicados várias vezes praticamente durante todo o ano, nas diversas culturas. Um número aproximado de 23 princípios ativos está registrado para o controle da mosca-branca B. tabaci. Entretanto, poucos deles têm se mostrado eficientes. Estudos demonstraram a seleção de indivíduos de B. tabaci resistentes aos inseticidas dos grupos químicos dos organofosforados, carbamato, piretroide e ciclodieno. Os inseticidas que estão sendo mais utilizados são as misturas de neonicotinoides + piretroides, neonicotinoides isolados, juvenoides e inibidores de síntese de quitina. Devido à falta de outros princípios ativos, o uso de neonicotinóides, isoladamente ou em mistura com piretroides, constitui-se na principal ferramenta utilizada no controle de adultos da mosca-branca. Essa exposição frequente da mosca-branca a esse grupo químico trouxe como consequência uma redução na eficiência e no poder residual.

Uso de óleos: várias outras táticas de controle da mosca-branca vêm sendo estudadas como alternativas aos inseticidas sintéticos, nas quais se inclui o uso de produtos biorracionais como os óleos vegetais e minerais. Esses produtos podem ser empregados contra B. tabaci na agricultura convencional, principalmente em programas de manejo da resistência aos inseticidas. Adicionalmente, os óleos vegetais podem ser utilizados em agricultura de base ecológica. Vários óleos vegetais e minerais com atividade inseticida vêm sendo estudados para o controle de ninfas de B. tabaci biótipo B.

Controle biológico: no Brasil, os inimigos naturais da mosca-branca são pouco conhecidos e explorados e os resultados de pesquisa que comprovem a efetividade de predadores, parasitoides e patógenos para o controle desse inseto são escassos. Entretanto, existe uma diversidade grande de inimigos naturais no campo que podem ter potencial para serem utilizados no seu controle. Mais de 150 espécies de predadores, 72 espécies de parasitoides e 11 espécies de fungos de ocorrência natural associados a B. tabaci têm sido relatadas ao redor do mundo. Vários fungos entomopatogênicos têm sido reconhecidos como importantes agentes de controle biológico de aleirodídeos- praga e são os únicos patógenos capazes de infectar ativamente pela cutícula seus hospedeiros, uma vantagem para o manejo de insetos sugadores. O potencial epizoótico de certos fungos em populações de mosca-branca limita o crescimento populacional dessa praga, como é o caso do Isaria sp., que tem exercido importante papel como agente de mortalidade natural.

Época de semeadura: a época de semeadura é uma das principais táticas de controle cultural que compõe o manejo integrado de pragas. Por isso, recomendase efetuar a semeadura dos cultivos no menor espaço de tempo possível, procurando obter maior concentração e uniformidade da época de semeadura. Outra prática importante a ser adotada é a manutenção dos campos no limpo, eliminando-se as plantas espontâneas hospedeiras da mosca-branca e de fontes dos vírus. Devem- se também eliminar soqueiras e rebrotas de algodão, tigueras de soja, feijoeiro comum e outras culturas hospedeiras após a colheita, a fim de reduzir a população de B. tabaci e dos vírus remanescente nas áreas. As lavouras abandonadas ou com ciclo interrompido e as plantas voluntárias deverão ser destruídas imediatamente