Eduardo Almeida Reis

NATUREZA

Há cerca de seis anos contei-lhes, não me lembro se em uma crônica ou uma reportagem, da fazenda que visitei em Minas. Projetada para produzir 50 mil litros de leite/dia, andava próxima da meta. Gado holandês confinado em imensos galpões climatizados, três turnos de trabalho, três ordenhas diárias, assistência técnica residente na fazenda, silagem de milho abundante, empresa sensacional.

Quando o dono da fazenda, banqueiro muito rico, foi encomendar dois tanques de expansão para 20 mil litros cada e o fabricante explicou que seus tanques não eram projetados para guardar todo o leite produzido em uma semana ou em um mês, o banqueiro divertiu-se dizendo que os queria para estocar o leite de um dia. Pois muito bem: os dois tanques não davam para estocar todo o leite, obrigando a Nestlé a deixar estacionada no pátio da fazenda uma carreta isotérmica, que recebia o leite resfriado nos tanques aguardando a chegada de outra carreta, quando o cavalo-mecânico era engatado na carreta cheia com o leite da véspera.

Montanhas de tortas de oleaginosas, imensas ordenhadeiras em linha onde assisti à chegada de um lote de 40 vacas produzindo em média 80 quilos de leite/dia. Saí de lá abismado, porque me lembrei de um livro sobre vacas leiteiras, que publiquei em 1980, quando as fazendas recordistas andavam produzindo 8 mil quilos por dia. Havia uma produtora de leite tipo A no Sul de Minas que beirava os 50 mil litros para vender em São Paulo. Todo mês recebia a visita de um nutricionista norte-americano da Universidade de Phoenix, Arizona, só para trocar ideias com o fazendeiro, grande produtor de café. O esterco dos estábulos era encaminhado para as lavouras de café. Nunca lá estive, portanto não vi como funcionava a empresa sul-mineira, mas me lembro de ter escrito o nome do nutricionista, porque fui amigo do pai de um rapaz que estudou Zootecnia em Phoenix com o tal americano.

Por enquanto, estamos no terreno do possível, difícil mas possível, sem contrariar a natureza: fazendas produzindo 50 mil quilos/dia, lotes de 40 vacas com média diária de 80 quilos, assistência técnica residindo na empresa, inseminação orientada pela programação genética das centrais, imensos tanques de expansão, carretas isotérmicas estacionadas na fazenda. O rapaz que estudou em Phoenix voltou dizendo que produções médias em torno de 60 quilos diários eram normais e que o negócio leiteiro ficava complicado acima dessas médias.

Agora em agosto, no Torneio Leiteiro da Megaleite 2014, em Uberaba/ MG, a situação complicou-se com um recorde que contraria a natureza. Uma vaca 3/4 de sangue girolanda produziu em três dias a quantidade espantosa de 325,290 quilos de leite. Quer dizer: deve ter produzido mais leite que a metade de seu próprio peso. Ainda que pesasse 650,580 quilos de carne, ossos e sangue, produzir a metade de seu peso em leite, durante três dias, seria contrariar a natureza. Mas a recordista, nas fotos, é uma vaca normal, batizada Indiana Canvas 2R.

Não contente com os 325,290 kg em três dias, Indiana Canvas 2R ainda nos fez a proeza de bater o recorde mundial de produção em um dia com 115,020 quilos de leite, superando em 4,12 quilos o recorde que pertencia, desde 1982, a uma vaca cubana chamada Ubre Blanca. Fidel Castro, formado em Direito, tinha obsessão pela genética bovina. Ubre Blanca morreu em 1985, merecendo necrológio no jornal Gramma e estátua de mármore em Nueva Gerona, sua cidade natal.

Vale notar que a produção de Indiana Canvas 2R, hoje pertencente ao expositor Delcio Tannus Filho, foi anotada em Uberaba/MG, à vista de todos, enquanto os recordes cubanos dependem de certa boa vontade dos observadores, como aqueles que vivem dizendo que Cuba é a única democracia das Américas (sic). Circula na Internet um vídeo com o discurso feito em Cuba pelo doutor honoris causa Lula da Silva atestando a felicidade e a dignidade do povo cubano.

Não sei se já lhes contei que o jovem empresário mineiro, passando sua lua de mel na Praia de Varadero, em Cuba, desceu do hotel 5 estrelas para fazer seu cooper matinal. Jovens têm dessas coisas: compatibilizam as luas de mel com o cooper matinal. Ali mesmo na praia foi alcançado por um cidadão cubano com a oferta de uma jovem ainda sem tetas por US$ 50. Trocando em miúdos: mocinha de 13 ou 14 anos, ainda sem seios, por 50 dólares. Deve ser o conceito de paraíso de alguns doutores honoris causa, não muitos, que a maioria é digna e fez por merecer o título