Agricultura Familiar

DENTRO da universidade sem deixar a lavoura

Ricardo Simão Diniz Dalmolin, [email protected], e Marco Antônio Verardi Fialho, [email protected], professores do curso de graduação tecnológica em Agricultura Familiar e Sustentabilidade – EaD

As velozes transformações que ocorrem no meio rural apontam para um grande progresso tecnológico e produtivo, o que eleva o Brasil hoje a ser um dos países de maior produção agrícola, além de grande exportador com considerável uso de fertilizantes e de controladores químico-sintéticos de pragas e doenças, uso de sementes advindas de seleção e melhoramento genético e avanço da moto-mecanização. A agricultura brasileira representa aproximadamente 23% do PIB, gerando emprego e renda para milhões de brasileiros.

Assim como a agricultura empresarial, a agricultura familiar destaca-se na economia brasileira contribuindo com aproximadamente 75% da ocupação de pessoal no meio rural e produzindo cerca de 70% dos alimentos consumidos no País. Apesar dos investimentos nos últimos anos, ainda há muito para ser feito no que se refere às políticas públicas para melhorar, incrementar e qualificar a agricultura brasileira.

O modelo tecnológico utilizado na produção agrícola tem dado pouca atenção ao ambiente. Os atuais sistemas de produção da agricultura são grandes consumidores de água, além de potenciais poluidores de todo o ecossistema. Recente relatório publicado pela FAO relata que aproximadamente 1/3 dos solos do mundo sofre degradação de moderada a alta devido ao manejo inadequado. É, portanto, essencial que as terras sejam utilizadas de acordo com o seu potencial de uso e se trabalhe com o conceito de agroecossistemas sustentáveis, capazes de produzir alimentos de acordo com a necessidade, sem que haja comprometimento à biodiversidade e à qualidade de vida.

Sempre no início de cada semestre, os estudantes dos diferentes polos de apoio presencial tem o chamado "encontro presencial", na UFSM

Assim, é necessário que haja, nas instituições educativas, preocupação na formatação de projetos pedagógicos contextualizados e adequados às demandas atuais, sintonizados com aspirações presentes em amplos segmentos da sociedade e do mundo do trabalho. Hoje, a agricultura familiar é amplamente reconhecida, com inúmeros programas que fomentam esse importante segmento produtivo do País. Junto a esse reconhecimento vem o processo de estudo das características dessa modalidade de agricultura e dos desafios de sua inserção no mercado.

Para que se pudesse estabelecer um curso de ensino superior dedicado à agricultura familiar, pensou-se em oferecê-lo à distância. A Educação a Distância (EaD) cresceu muito no Brasil nos últimos anos, principalmente quando as instituições públicas de ensino superior passaram a adotar essa modalidade através do Sistema da Universidade Aberta do Brasil (UAB), oferecendo cursos técnicos, tecnológicos, bacharelado e também inúmeros programas de pós-graduação em nível de especialização. Assim, aproveitando esse incentivo governamental, é que um grupo de professores do Departamento de Solos e do Departamento de Educação Agrícola e Extensão Rural dentro do Núcleo de Estudos da Agricultura Familiar (Nesaf) da Universidade Federal de Santa Maria/RS, propôs o Curso de Graduação Tecnológica em Agricultura Familiar e Sustentabilidade – EaD.

Pioneiro — Este curso tem por objetivo formar tecnólogos com capacidade técnico- científica e responsabilidade social, aptos a promover, orientar e planejar a gestão de unidades de produção agropecuárias familiares no sentido de sua sustentabilidade econômico-financeira e ambiental. E intervir na transformação e comercialização dos produtos da agricultura familiar e na geração e aplicação de métodos de produção, em consonância com os preceitos de proteção ambiental e com as tendências de consumo favoráveis a alimentos saudáveis. O curso de Graduação Tecnológica em Agricultura Familiar e Sustentabilidade – EaD é pioneiro no Brasil e formou sua primeira turma no final do segundo semestre de 2011, após oito semestres. Na sua primeira edição, foi oferecido em 11 polos municipais de apoio presencial da UAB nos estados do Rio Grande do Sul, São Paulo e Tocantins.

Os estudantes têm à sua disposição materiais didáticos hipermidiáticos para todas as disciplinas, sendo que o contato professor-estudante é mediado pelo ambiente virtual. O estudante deve ler e estudar o material que está à sua disposição, participar de fóruns virtuais, fazer os exercícios propostos para ter o entendimento das informações, esclarecendo suas dúvidas com a equipe de professores e tutores. É possível o estudante frequentar o curso de sua própria casa ou então a partir das dependências do polo de apoio presencial de sua localidade. A grande motivação de continuidade do curso está na valorização do esforço dos estudantes de EaD, na maioria trabalhadores que, se não fosse essa modalidade de ensino, jamais poderia frequentar um curso superior.

Muitos egressos desse curso fizeram concursos (por exemplo, Emater/RS) conseguindo aprovação, outros estão cursando pós-graduação (especialização ou mestrado) e muitos estudantes que trabalhavam como técnicos de nível médio, seja na Emater, em cooperativas, secretarias municipais de agricultura, em assentamentos ou mesmo como agricultores, obtiveram reconhecimento em suas carreiras profissionais e o tão sonhado diploma em um curso superior. Este último deve ser encarado como um aspecto extremamente importante, principalmente por se tratar de sentimentos pessoais como, por exemplo, a autoestima. A aceitação e repercussão desse curso foram destaque não só no Rio Grande do Sul, mas em todo território nacional, sendo que dezenas de pedidos chegam mensalmente à coordenação do curso, seja por informações ou solicitações para implementação do mesmo em diferentes polos da UAB. A segunda edição iniciou no primeiro semestre de 2014. Por fim, aos alunos cabe acreditar na importância e no valor da agricultura familiar para a sociedade brasileira, expressas no empenho e na perseverança que precisaram cultivar ao longo do curso. As dificuldades e limitações não são poucas, principalmente pelas características da Educação a Distância – relação caracterizada pela frieza do teclado do computador, mas gratificantes e valorizadas quando, após oito semestres, o aluno recebe o grau de Tecnólogo em Agricultura Familiar e Sustentabilidade da Universidade Federal de Santa Maria.