Estados Unidos

TECNOLOGIA para uma agricultura líder

Produtores norte-americanos investem em equipamentos cada vez mais sofisticados para plantar e colher uma safra de recordes

Texto e fotos Denise Saueressig* [email protected]

Líderes mundiais na produção de alimentos, os produtores dos Estados Unidos também são experts no uso de tecnologia. A cada safra, os maiores fabricantes de equipamentos voltados à agricultura apresentam uma série de novidades direcionadas ao incremento da produtividade nas lavouras.

Tradicional mostra realizada anualmente no país, a Farm Progress Show é uma grande oportunidade para aproximar empresas e produtores e revelar o que há de mais moderno para o uso nas propriedades. Itinerante, a feira deste ano chegou a 61ª edição e foi realizada em Boone, no estado de Iowa, na região do Corn Belt, o cinturão do milho americano.

A reportagem d’A Granja visitou o primeiro dia da exposição, que ocorreu entre 26 e 28 de agosto. No último dia, no entanto, a feira precisou ser encerrada ainda pela manhã devido ao mau tempo e à previsão de tempestades para a região.

Além dos estandes de fabricantes de estruturas de armazenagem, automóveis, insumos, sementes, sistemas de irrigação, agricultura de precisão e máquinas de diferentes portes para produtores de todos os perfis, a Farm Progress Show destina um pavilhão onde são expostos tecnologias e serviços diversos para tudo o que pode ser necessário em uma fazenda, incluindo itens voltados à qualidade de vida do produtor e sua família, como equipamentos e cadeiras de massagem e até travesseiros ergonômicos. A exposição também conta com atrações dinâmicas, como demonstração de tratores e colheitadeiras em áreas de lavoura, além de uma parcela destinada à pecuária.

A edição 2014 da Farm Progress Show teve a participação de mais de 600 expositores e recebeu visitantes de cerca de 60 países. Pelo estande da Case IH circularam mais de 300 clientes de diferentes regiões do planeta. “É a feira em que mais recebemos produtores estrangeiros. Este ano, por exemplo, são grupos de países como Austrália, Bélgica, Brasil, África do Sul, Argentina, Uruguai, Bolívia e China”, relata a diretora global de marcas da empresa, Paula Inda. Segundo ela, a época de realização da mostra, antes do início da colheita, é a ideal para conversar com produtores e lançar os equipamentos que estarão no campo na safra seguinte.

Entre as novidades levadas pela Case à feira deste ano está o trator Magnum Rowtrac, que vem com esteiras triangulares nas rodas traseiras com o objetivo de reduzir a compactação do solo durante a operação. Outro lançamento foi o AFS Connect 2.0, um software que permite que o produtor monitore, em tempo real e a distância, o trabalho dos equipamentos na lavoura.

Mercados consistentes - É difícil precisar quando um equipamento lançado nos Estados Unidos chegará ao produtor brasileiro, observa Inda. “São mercados com pontos em comum, mas ainda assim diferentes. Cada um tem a sua cultura, características e desafios. O que tentamos é entender essas particularidades para atender as demandas específicas de cada região”, destaca. Segundo a executiva, alguns produtos comercializados nos EUA custam menos em comparação ao Brasil devido à alta carga tributária do país. No entanto, o Brasil tem vantagens no momento da venda pelas boas condições de financiamento. “De uma forma geral, o mercado das Américas é muito consistente e consolidado. São clientes que buscam constante inovação”, conclui.

O principal desafio da Case no Brasil está relacionado à carência de mão de obra qualificada, avalia Paula. “Precisamos da formação e capacitação de operadores que possam trabalhar com máquinas cada vez mais sofisticadas”, analisa. Segundo ela, a partir da percepção dessa necessidade, a Case mantém parcerias de treinamento com instituições como o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai).

Paula Inda, da Case IH: Farm Progress Show é uma boa oportunidade para encontrar clientes e apresentar as novidades para a safra seguinte

Ainda nos Estados Unidos, a reportagem d’A Granja visitou a fábrica da Case IH em Racine, no estado de Wisconsin. A unidade tem capacidade de produção de 40 tratores/dia. Do total fabricado na planta, 30% seguem para exportação. São produzidos 14 tipos de tratores, sendo que 75% são da Case e 25% da New Holland, marcas da CNH Industrial.

Perfil diferenciado - Em conversa com um fazendeiro norte-americano, é fácil perceber o quanto os investimentos em tecnologia são importantes para o perfil da agricultura do país. O produtor Larry Schliefert conta que, em um prazo máximo de dois anos, renova todo o maquinário da propriedade em Louisville, estado de Nebraska. O cenário da região é típico do meio-oeste americano: extensas áreas de lavouras ao lado das casas e silos de diferentes modelos e tamanhos localizados muito próximos a rodovias e ferrovias.

Tecnologia de solo, de plantio e de colheita também é importante em uma agricultura na qual a mão de obra contratada é rara. Na fazenda de Schliefert, quem cuida de todo o processo é ele, a esposa e os dois filhos de 29 e 25 anos. Quando decide pela compra de um trator ou colheitadeira novos, os equipamentos antigos são vendidos. “Gosto de me manter atualizado e preciso disso para produzir cada vez mais”, justifica.

A propriedade em Nebraska já está na terceira geração e tem uma história de 115 anos que iniciou pelas mãos do avô de Larry. Em 1982, quando seu pai faleceu, ele passou a tomar conta das terras da família.

Produtor Larry Schliefert na sua propriedade em Nebraska: planejamento é fundamental para enfrentar os ciclos da agricultura

A lavoura de soja e milho da família é cultivada em cerca de 570 hectares em um esquema de rotação. “Planto metade da área com um e metade com outro. É mais seguro e corro menos riscos”, salienta o produtor. Na atual safra, ele acredita que vai obter produtividade de 11,3 mil quilos por hectare no milho e de 3,7 mil quilos por hectare na soja. Seu recorde de rendimento foi em 2009, quando conseguiu 15,7 mil quilos por hectare no milho e 5.043 quilos por hectare na soja.

Além dos investimentos em máquinas, Schliefert mantém atenção constante ao manejo do solo e às sementes utilizadas na lavoura. Ele tem interesse especial em variedades resistentes à seca, que há dois anos provocou enormes prejuízos às plantações norte-americanas. Nesta safra, cultivou 30% da área de milho com uma cultivar com essa característica.

Ciclos exigem preparação - Em um momento em que o país deve colher uma safra recorde e os preços acusam a super oferta mundial, é preciso estar preparado, analisa o produtor. “O agronegócio é feito de ciclos que normalmente duram entre três e cinco anos. Viemos de quatro anos com preços ótimos e, agora, vamos enfrentar um momento de margens mais apertadas. Por isso, quem não faz um bom planejamento pode ter problemas. Percebemos que o número de produtores recua ano após ano, mas quem permanece na atividade, fica maior”, reflete.

Os preços mais baixos e os custos em alta deste ano exigem mais cálculos do produtor. Com o bushel do milho a US$ 3,50, por exemplo, ele precisa de uma produtividade mínima no milho de 200 bushels por acre, ou 12,55 mil quilos por hectare. Se for confirmada a produtividade esperada para este ano, em torno de 180 bushels por acre, ou 11,3 mil quilos por hectare, o ideal seria um preço de venda do cereal por US$ 5 o bushel. Há dois anos, quando a safra foi afetada pela estiagem, o milho chegou a ter cotações em torno de US$ 8 por bushel.

Cenário típico no meio-oeste dos EUA: extensas lavouras e propriedades bem equipadas, com silos próprios para armazenagem

A soja, por ter custos inferiores em comparação com o milho, exige menos retorno em produtividade. Com um rendimento de 45 bushels por acre, ou 3.026 quilos por hectare, a cultura tem rentabilidade. O grão, que chegou a ter valores recordes em torno dos US$ 17 por bushel há dois anos, agora vale em torno de US$ 10 o bushel.

O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda) estima a produção de soja do país em 106,5 milhões de toneladas e a safra de milho, em 365,6 milhões de toneladas. Se confirmados, os números superam a última temporada em 19% e 3,4%, respectivamente.

Otimista, Larry Schliefert acredita em um 2015 positivo, mesmo que a rentabilidade seja inferior em comparação com os últimos anos. Ele diz que procura manter o pensamento sempre adiante, na próxima safra. Com 57 anos, o produtor planeja a aposentadoria para daqui cinco anos. Para isso, já conduz o processo de sucessão para que os filhos tomem conta dos negócios.