Soja

VANTAGENS múltiplas da ILP para a soja

O sistema integração lavoura-pecuária bem executado promove ganhos econômicos e técnicos para o pecuarista e para o agricultor. No caso de quem planta soja, saiba quais os passos para diversificar a renda e melhorar o sistema produtivo

Edemar Moro, coordenador do curso de Especialização em ILPF da Universidade do Oeste Paulista (Unoeste)

No início da década de 1990, a cultura da soja assumiu o status de cultura com a maior área cultivada no Brasil, e essa soberania amplia-se a cada novo ano agrícola. O Brasil já faz sombra aos Estados Unidos, maior produtor mundial da oleaginosa. Apesar da crescente expansão no País, o monocultivo gerou uma série de problemas. O mais discutido atualmente é como obter maiores produtividades por hectare. O potencial produtivo de lavouras comerciais de soja é superior a 6 mil quilos/hectare, no entanto, a produtividade média nacional emperrou em 3 mil kg/ha.

O maior obstáculo para elevar a produtividade média da soja é entender o conceito de agricultura moderna que não mais direciona o foco para uma cultura, mas sim para o sistema de produção. Nesse contexto, o Brasil começou muito bem com o sistema plantio direto. Porém, nem todas as premissas básicas do plantio direto foram implantadas, principalmente com relação à rotação de culturas. A não condução do SPD de forma correta e a falta de conhecimento são as razões da expansão da soja apenas em área cultivada, não mais em produtividade por unidade de área.

A busca por maior produtividade levou ao aprimoramento do sistema de produção. Surgiu então a integração lavoura- pecuária (ILP), a qual é considerada a evolução do SPD. A ILP é tida por muitos como a nova Revolução Verde. Sistema genuinamente tropical, apresenta benefícios inquestionáveis e, aos poucos, tem conquistado até aqueles que outrora eram críticos assumidos do sistema integrado. É importante destacar que a ILP não veio substituir o SPD, mas aprimorá-lo e resgatar suas primícias básicas (rotação de culturas e cobertura permanente do solo).

A ILP, além de resgatar os preceitos fundamentais do SPD, acrescentou um componente importantíssimo para o sucesso dos sistemas de produção em regiões tropicais, especialmente para solos arenosos sujeitos a perdas de nutrientes por lixiviação. Esse componente é a manutenção de uma espécie fotossinteticamente ativa e o consórcio de espécies durante o máximo período possível (no ano). Nota-se que a conotação ano perdeu a importância, visto que o sistema passa a ser planejado em longo prazo.

A rotação de pastagem com a cultura da soja apresenta um sinergismo perfeito. A soja gera benefícios pela grande quantidade de nitrogênio que fixa e deixa para a pastagem. E é beneficiada pela palhada que ajudou a formar com o nitrogênio fixado. Deve-se destacar que a pastagem formada após a colheita da soja é algo que impressiona até mesmo aqueles que já conhecem o sistema. Mediante as vantagens que a ILP agrega, torna-se fácil entender porque a produção de soja em áreas com SPD com pouca palhada é 50% menor do que nas áreas com ILP. Essa queda de produção notadamente ocorre em anos com baixos índices pluviométricos, como foi o caso das safras 2011/ 2012 e 2012/2013.

É importante relatar que a ILP desenvolveu- se com foco na recuperação de áreas degradadas. Porém, o sistema evoluiu e atualmente é indicado não só para recuperação de áreas degradadas, mas também para melhorar a eficiência de sistemas de produção com altos níveis de tecnologia e será fundamental para o sucesso do SPD, especialmente para solos arenosos com histórico frequentes de veranicos em que a palhada de braquiária ou de outra gramínea é extremamente necessária para evitar perdas de água e a elevação da temperatura do solo.

O ciclo de pastagens e cultura da soja é variável e cada região do Brasil adota diferentes períodos de substituição de pastagens por culturas. Na região de Presidente Prudente/SP, o modelo que tem gerado bons resultados é a sequência de dois anos com soja, alternados com dois anos de pastagem. A substituição de uma atividade por outra depende de cada região, do retorno econômico de cada atividade. Porém, a manutenção de uma ou outra atividade após um período de três anos não é interessante.

A rotação de pastagem com soja apresenta um sinergismo perfeito, pois a cultura gera grande quantidade de nitrogênio fixado para a pastagem, e é beneficiada pela palhada que ajudou a formar com esse nitrogênio

Para a agricultura, a substituição da atividade por pastagem representa quebra do ciclo de pragas e doenças e melhorias nas condições físicas, químicas e biológicas do solo. E para a pecuária, a substituição da atividade pela agricultura significa redução dos custos com adubação de manutenção da pastagem. Outro aspecto importante e vantajoso da ILP para a pecuária é que, no verão, parte da área é ocupada com agricultura, mas no inverno toda a área pode ser utilizada com pecuária, antes ou após a implantação da cultura do milho em segunda safra.

Milho consorciado com capim e soja, exemplo de outro aspecto importante e vantajoso da ILP para a pecuária, pois, no verão, parte da área é ocupada com agricultura, mas no inverno toda a área pode ser utilizada com pecuária antes ou após o milho safrinha

Quando os ingressantes na ILP são pecuaristas, a cultura da soja é o grande atrativo. Isso se deve a alta liquidez, redução dos custos de renovação da pastagem e qualidade que a pastagem forma após a oleaginosa. Quando a procura pelo sistema ILP é por agricultores, a princípio o interesse surge pela capacidade que as gramíneas apresentam em produzir palhada para a cobertura do solo. Mas logo percebem que a forrageira implantada pode ser transformada em carne de baixo custo, especialmente em regiões onde a segunda safra não é predominante. A soja é a cultura chave na ILP, não só porque é a principal cultura agrícola do País, mas também porque seria ilógico pensar no sucesso de um sistema de produção apenas com gramíneas (milho e capim). As leguminosas são obrigatórias nos sistemas de produção e, por sua demanda internacional, a soja é soberana na ILP. Não há cultura de verão que ameace esse reinado. Além disso, a soja é uma planta com grande capacidade de fixação biológica de nitrogênio. Entretanto, para que ocorra a nodulação em áreas com vários anos sem o cultivo da soja, fato comum no início da implantação da ILP, é imprescindível que o inoculante seja aplicado no sulco de semeadura e não apenas nas sementes.

Embora o conceito do SPD tornava obrigatória a manutenção de cobertura morta sobre o solo e a rotação de culturas, na maioria dos casos isso não acontecia. Com a adoção da ILP, a rotação de culturas passou a ser realizada e a pastagem tornou-se a fonte de palha tão necessária para as culturas graníferas, especialmente à cultura da soja. É comum pesquisadores e consultores de pecuária tentarem provar que o boi é tão ou mais rentável que a soja; e pesquisadores e consultores de agricultura, defender que a soja é mais rentável. O fato é que a ILP apresenta um sinergismo tão grande que os dois setores são potencializados, ao mesmo tempo em que um depende do outro e também se complementam.

A fase de dúvida com relação à eficiência da ILP é passado, mas a inclusão de uma segunda atividade exige planejamento e aprimoramento da gestão da propriedade, o que é natural quando se inclui uma nova atividade. Quando a nova atividade é a agricultura, será necessário um mapeamento completo da propriedade para avaliar a aptidão do solo para a cultura da soja e/ou milho. Muitos proprietários não conhecem o potencial e as limitações de suas áreas para produção de grãos. Se a microrregião circunvizinha já tem áreas com bons níveis de produtividade de soja, é um bom indicativo que a cultura tenha boa adaptação. As principais informações necessárias são análise química e física do solo, históricos de chuvas e topografia do terreno.

Calcário e gesso — A partir da interpretação da análise de solo, será necessário reconstruir a fertilidade do solo, a qual foi exaurida ao longo dos anos de exploração extrativista da pecuária. A aplicação de calcário e gesso, sempre que possível, deve ser realizada pelo menos um ano antes da implantação da soja. Outro aspecto que merece destaque para iniciar a cultura da soja é a escolha certa e bem dimensionada das máquinas agrícolas que serão adquiridas. Um bom planejamento evita sub ou superdimensionamento dos maquinários. Quando a nova atividade é a pecuária, a preocupação é com os custos com estrutura, currais, cerca, aguada e o desembolso inicial com aquisição dos animais.

Atualmente, é simples implantar um projeto de ILP. Há um grande volume de informações sobre sistemas integrados. Difícil e desafiador foi para quem implantou o sistema há mais de dez anos. Outro fator favorável para implantação atual é a disponibilidade de crédito. Nunca houve um volume tão grande de recursos e, melhor, com baixas taxas ou até mesmo isenção de juros em algumas modalidades de financiamento. Portanto, a implantação da ILP é mais uma questão de decisão. As informações e os recursos financeiros existem e, quando o pecuarista ou agricultor não se sentir seguro do ingresso na nova atividade, sugere-se o modelo de parceria. Dessa forma, o sistema não deixará de ser implantado e ambos sairão ganhando.