O Segredo de Quem Faz

Esforço pela MODERNIZAÇÃO

Denise Saueressig [email protected]

O mercado de sementes vivencia um momento de grande visibilidade e importância. A demanda dos produtores por cultivares cada vez mais eficientes e o desenvolvimento da biotecnologia valorizam o trabalho do setor e indicam a necessidade constante de evolução. Ao mesmo tempo, é preciso lidar com desafios antigos, como o combate à pirataria e a atualização da legislação. É diante desse cenário que o economista José Américo Pierre Rodrigues assume a Presidência da Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem). Com experiência de 20 anos no segmento, o executivo conta que pretende trabalhar pela modernização e integração da cadeia que envolve produtores, pesquisadores e indústrias.

A Granja – Qual é a sua trajetória de trabalho no setor de sementes e quais são os seus principais objetivos como presidente da Abrasem?

José Américo Pierre Rodrigues – Sou economista e minha origem como profissional é o Banco do Brasil. Trabalhei na Contadoria Geral, na Diretoria de Crédito Rural e na Presidência do banco, entre outras áreas. Foi uma grande escola. Depois iniciei a minha atividade no setor de sementes, quando fui convidado a colaborar com um grupo de produtores de sementes do Centro-Oeste, na Fundação Cerrados, parceira da Embrapa no desenvolvimento de variedades de soja. Lá fui diretor administrativo e financeiro e diretor presidente. O meu trabalho na fundação me fez ser convidado para ocupar a superintendência executiva da Abrasem. Hoje, com o novo modelo de governança, ocupo a Presidência da entidade e também sou vice-presidente da Felas (Federação Latino-Americana de Sementes) e da SAA (Seed Association of the Americas). Na Abrasem, nossos principais desafios são a atualização e simplificação da legislação que regula o setor no Brasil, atualmente muito burocrática, o que nos faz perder eficiência e competitividade. Necessitamos, também, desenvolver ações mais efetivas de combate à pirataria. Já no cenário externo, consideramos importante buscar uma maior inserção da indústria de sementes brasileira no mercado internacional. O Brasil pode ser uma alternativa para a produção de sementes na “contra-estação”, para exportação para o hemisfério Norte, por exemplo. Hoje exportamos em sementes e mudas em torno de US$ 50 milhões. Para se ter uma ideia, o Chile, por exemplo, exportou no ano passado US$ 650 milhões. A diferença básica é a legislação menos burocrática.

A Granja - O que precisa mudar na legislação? Qual é a prioridade nesse sentido?

Rodrigues - Necessitamos simplificar o decreto que regulamenta a lei de sementes e mudas. Também precisamos promover mudanças na legislação de proteção de cultivares, cujo objetivo principal é garantir o direito do pequeno produtor de produzir o seu grão para uso próprio. Entretanto, os demais produtores devem pagar pelo uso e benefícios gerados pelas tecnologias visando garantir o retorno dos investimentos feitos em pesquisa. A legislação atual regula todo o processo, da produção ao comércio. Isso gera burocracia, gastos e uma enorme perda de tempo e energia. Uma legislação mais moderna, com foco no produto final, nos colocaria em melhores condições de competitividade, inclusive externa. Para trabalhar essas questões, estamos atuando junto ao Ministério da Agricultura, que tem se mostrado sensível aos nossos pleitos. Mantemos um comitê de legislação que acompanha a lei e seus impactos, assim como propõe ajustes e mudanças. Sem dúvida, o nosso maior desafio hoje é o combate à pirataria. Consideramos que será muito difícil reduzir a pirataria sem uma mudança na legislação que limite o uso próprio - porta para a informalidade –, aliada a ações de inteligência do Ministério da Agricultura, com fiscalizações focadas na informalidade. A indústria de sementes também tem um papel importante, fornecendo informações aos órgãos de fiscalização e desenvolvendo ações de informação e educação junto aos produtores. Ações integradas, envolvendo órgãos como Ministério da Agricultura, Receita Federal e Polícia Federal seriam muito bem vindas.

A Granja – O novo modelo de governança da Abrasem também prevê o fortalecimento das ações dos comitês técnicos da associação. Qual é o objetivo desse trabalho?

Rodrigues - São vários comitês já trabalhando (legislação, olerícolas, forrageiras, etc.). Entretanto, sentimos a necessidade de reorganizá-los, assim como de criarmos outros comitês por demanda dos nossos associados. A Abrasem trata de temas muito diversos e, por isso, sentimos a necessidade de trazer pessoas com experiência em outros segmentos para nos ajudarem a encontrar soluções para os desafios que o setor enfrenta. Criamos os comitês de biotecnologia, tratamento de sementes, trigo e culturas de inverno, capacitação, entre outros. Todos já estarão em funcionamento até setembro. É uma enorme responsabilidade assumir a associação neste momento de grandes mudanças na indústria de sementes no mundo, mas acredito que nossos executivos e técnicos ajudarão muito no trabalho pela modernização do marco regulatório do setor.

A Granja - Qual é o tamanho e a representatividade do setor de sementes no Brasil?

Rodrigues - Hoje o Brasil é o terceiro maior mercado de sementes do mundo, movimentando, aproximadamente, US$ 4 bilhões ao ano. Estamos atrás somente dos Estados Unidos, com US$ 12 bilhões, e da China, com US$ 10 bilhões. Temos filiados ao Sistema Abrasem 12 associações representativas do setor, que congregam 700 produtores, gerando mais de um milhão de empregos.

A Granja - Quais são os principais números do mercado de sementes certificadas no Brasil e qual é o índice de utilização de sementes certificadas?

Rodrigues - Ainda não temos os números finais da safra 2013/2014. Entretanto, podemos fazer uma estimativa: para a soja, estimamos uma produção de 1,65 milhão de toneladas, o que representaria um acréscimo de 13% em relação ao ciclo anterior. A taxa de utilização de sementes de soja em 2012/2013 foi de 64%. Espera-se uma queda na taxa para 2013/2014, tendo em vista o crescente uso de grãos plantados para uso próprio, utilizados como sementes, além da pirataria propriamente dita. Ou seja, mesmo com o aumento da produção pelo lançamento de novas tecnologias, o uso de materiais certificados deve ter queda pelas razões citadas. Já para o milho, a previsão é de uma produção de 350 mil toneladas, o que representaria um incremento de 9%. Também já se registra crescente pirataria de sementes de milho. A taxa de utilização, que foi de 90% em 2012/2013, poderá cair um pouco em 2013/2014.

O Brasil é o terceiro maior mercado de sementes do mundo, movimentando cerca de US$ 4 bilhões ao ano

A Granja - Para o produtor rural, qual é a importância do uso de uma semente certificada? Por outro lado, quais são os prejuízos que podem ocorrer com o uso de sementes piratas?

Rodrigues - As sementes certificadas são produzidas em condições de altíssima tecnologia, o que propicia à indústria colocar no mercado materiais com elevada qualidade e sanidade. Além disso, o produtor tem o acompanhamento técnico e a garantia de um produtor de sementes legalmente estabelecido e fiscalizado pelos órgãos competentes. Os grãos usados como sementes ou os materiais piratas podem trazer problemas de vigor, germinação e sanidade. Além disso, existe a sonegação de impostos nesse caso.

A Granja - Como está a procura por sementes para a safra 2014/ 2015? Houve aumento de preços em comparação com a safra anterior?

Rodrigues - Ainda não temos os números fechados. Entretanto, temos notado uma procura grande por sementes de soja, que deve ter um incremento com relação ao ciclo 2013/ 2014. Normalmente isso ocorre quando há lançamento de novas tecnologias, como é o caso desta safra. Estimamos que haverá uma pequena elevação nos preços das cultivares mais procuradas. Já para o milho, o mercado está estável, nos níveis de 2013/ 2014, por enquanto. Não identificamos variações significativas nos preços. Os segmentos de forrageiras e olerícolas estão cada vez mais organizados e tecnificados, disponibilizando cultivares de elevada qualidade. Consequentemente, os melhores materiais deverão ser valorizados.

A Granja - De que forma o desenvolvimento e a evolução da biotecnologia impactou o mercado de sementes no Brasil e quais projeções podem ser feitas para esse segmento para os próximos anos?

Rodrigues - Impactou fortemente, pois houve um salto de qualidade, uma mudança no estágio tecnológico da nossa indústria, o que exigiu investimentos. Esse cenário contribuiu, em muito, na disponibilização, por parte da indústria, de cultivares transgênicas altamente produtivas, com características diversas e adaptadas às mais diversas regiões do País. A perspectiva é que a indústria de sementes continue investindo, pois existe espaço para crescimento, basta olhar as taxas de utilização de transgênicos. Entretanto, o setor também sofre com a ameaça da pirataria e com a regulamentação exageradamente burocrática.

A Granja - As empresas de defensivos que também atuam com sementes vêm enfrentando importantes desafios na área de biotecnologia, como a resistência a determinadas pragas e plantas daninhas. Qual deve ser o caminho para a solução desse tipo de problema e até que ponto o produtor pode colaborar com a manutenção da tecnologia adotando boas práticas?

Rodrigues - Hoje temos alguns problemas pontuais, gerados por uso e manejo indevidos. A adoção do refúgio e as boas práticas são fundamentais para preservar essas tecnologias. Isso é do interesse de toda a cadeia. O nosso trabalho de informação e educação é contínuo, seja na orientação quanto à importância da área de refúgio, seja com relação à adoção das boas práticas, como rotação de culturas, dessecação, tratamento de sementes e monitoramento constante da lavoura. Do lado da indústria, o interesse é atender as demandas do agricultor. Os desafios são grandes e os investimentos também, o que nos faz pensar que teremos produtos cada vez mais eficientes.

A Granja - Qual é a importância das parcerias entre empresas privadas e instituições públicas como a Embrapa na área de desenvolvimento de sementes?

Rodrigues - Lamentamos a pequena participação da Embrapa no mercado brasileiro de sementes. A Embrapa poderia voltar a ser uma boa opção para muitos produtores de sementes atuarem nesse mercado, hoje tão competitivo. A empresa tem um bom corpo técnico, instalações em todo o Brasil, capacidade de negociar boas parcerias com desenvolvedores de biotecnologia, entre outras qualidades. Mas acreditamos que falta um projeto. Em outros tempos, a Embrapa teve importante participação no mercado, por meio de parcerias público-privadas, via fundações de apoio à pesquisa. Esse modelo está em crise. A Embrapa poderia, tranquilamente, liderar um projeto de uma rede de pesquisa pública para sementes, envolvendo outras empresas públicas de pesquisa e universidades.

Os grãos usados como sementes ou os materiais piratas podem trazer problemas de vigor, germinação e sanidade