Reportagem de Capa

REPORTAGEM DE CAPA

Upgrade: a lagarta-falsamedideira, sempre caracterizada como praga secundária na cultura da soja, passou a ser considerada principal nas recentes safras

O aparecimento de uma nova lagarta nas lavouras da Bahia durante a safra 2012/13 colocou produtores de todo o Brasil em estado de alerta e reabriu a discussão sobre o uso correto de defensivos e a melhor forma de controlar pragas e doenças. Saiba quais são as mais relevantes ameaças fitossanitárias às principais culturas da safra de verão, como fazer um manejo eficaz e qual a orientação dos especialistas antes de começar o controle

Gilson R. da Rosa

Lavoura sã, salva e PRODUTIVA

As culturas de verão estão sujeitas, durante todo o seu ciclo, ao ataque de diferentes espécies de insetos e pragas, além de problemas causados por doenças e plantas daninhas, que, em condições ambientais favoráveis, podem atingir populações capazes de causar perdas significativas. Depois de uma safra de soja com perdas de Norte a Sul do País em 2012/13 por causa da incidência de uma nova lagarta na agricultura brasileira, a Helicoverpa armigera, as orientações dos especialistas sobre como fazer um manejo e controle eficaz de pragas e doenças ganharam relevância ainda maior entre os produtores na hora de planejar a lavoura.

O pesquisador da equipe de entomologia da Embrapa Soja, sediada em Londrina/ PR, Adeney Freitas Bueno explica que a helicoverpa é a mais famosa, porém, é só mais uma entre as tantas pragas que a pesquisa estuda pra combater ou minimizar os danos. “Nem é a pior delas. Existem pragas que são até mais preocupantes. No caso da soja, o complexo de percevejos que ataca as vagens são insetos difíceis de controlar, com poucas opções de inseticidas no mercado”, garante o especialista. Ele observa que, em geral, quando o assunto são as pragas, o ataque ocorre bem no início da plantação, com as pragas iniciais, que são aquelas conhecidas por ocorrerem nos primeiros estágios de desenvolvimento da soja, até 30 dias depois da semeadura. O restante é considerado de valor secundário para a cultura. “No entanto, é preciso antever qualquer imprevisto”, ressalta Bueno.

Um exemplo, conforme o pesquisador, é a lagarta-falsa-medideira (Pseudoplusia includens), sempre caracterizada como praga secundária na cultura da soja, mas que passou a ser considerada principal nas últimas safras. “Trata-se de uma praga importante na soja, mas que pode ser controlada com a adoção do manejo integrado de pragas. É preciso realizar monitoramento constante e usar uma boa tecnologia de aplicação dos inseticidas”, orienta. Para a pesquisadora de Entomologia da Fundação MT Lucia Vivan, o monitoramento é fundamental desde a fase de pré-plantio, com vistorias na palhada, a fim de verificar as espécies de insetos presentes na lavoura. “Esta é uma fase importante para a manutenção de estande. Pragas iniciais como a lagarta-elasmo, a lagarta-rosca e lesmas irão causar a morte de plantas e se tiver o tratamento de sementes correto e a identificação do problema desde o início, o produtor evitará problemas como replantio das áreas. Também é fundamental a presença de técnicos no campo a fim de identificar de forma correta as pragas ocorrentes e o melhor momento de controle”, avalia.

Para auxiliar os produtores, um grupo de especialistas da área de Entomologia da Embrapa produziu um documento considerando diferentes aspectos do manejo integrado de pragas (MIP), principalmente para lagartas e percevejo. “Trata-se de uma tecnologia que consiste, basicamente, de inspeções regulares à lavoura. Nos anos 1980, o MIP chegou a diminuir em até 50% o uso de agrotóxicos nas plantações de soja sem comprometer a produtividade. Adotando o MIP, o produtor evita aplicações desnecessárias e ajuda, principalmente, na redução do custo de produção”, informa Adeney Bueno.

O descobrimento do Brasil — A lagarta Helicoverpa armigera é uma praga cosmopolita que ataca várias culturas no Brasil, como soja, algodão, milho, feijão, grão-de-bico, linhaça, girassol, cereais de inverno, citros, trigo, cevada, aveia e sorgo. É originária da África, mas atualmente está presente em lavouras da Ásia, Europa e Oceania. No Brasil, foi identificada em fevereiro de 2013 por pesquisadores da Embrapa, mediante análises morfológicas e de DNA em adultos do sexo masculino. O Oeste da Bahia já vem lidando com a praga já há três anos, mas recentemente o problema ganhou proporções mais graves.

Algumas hipóteses afirmam que essa praga chegou da Europa em uma importação de flores através da Argentina e outras mencionam a possibilidade de bioterrorismo, como teria acontecido com a ferrugem asiática. O assunto, de acordo com o engenheiro agrônomo e consultor agronômico da Fundação Bahia Celito Breda, está sendo investigado pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Breda teve a oportunidade de conhecer bem o potencial destrutivo dessa lagarta no Sudão, dois anos antes de surgir na Bahia, o que o torna o pesquisador com mais experiência nessa área. Ele conta que os produtores do Oeste baiano estão obtendo bons resultados com a utilização do vírus australiano HzNPV no combate à lagarta. “Os agricultores daquele país já enfrentam a praga há diversas décadas, e conseguiram ‘virar o jogo’ com a utilização massiva de controle biológico, sistema que consiste na introdução de um determinado organismo vivo que combate insetos ou outras moléstias indesejáveis. Eles têm um programa fitossanitário que nós adaptamos ao Oeste da Bahia”, revela Breda.

Segundo ele, não adianta fazer o MIP de forma isolada. É necessário sincronizar as ações. “Assim, colocamos tudo dentro de um guarda-chuva que chamamos Programa Fitossanitário da Bahia, safra 2014/15, para que as ações tenham efeito na paisagem agrícola devido à capacidade migratória da praga. Neste ano, também foi possível ter um vazio sanitário melhor do que nos anos anteriores. Deixamos um período mínimo de 60 dias, com o mínimo de hospedeiros para essa praga se fixar, durante os meses de setembro e outubro”, relata.

A helicoverpa ataca diversas culturas, e pode ter chegado aqui vinda da Europa em uma importação de flores via Argentina ou mesmo, pensam muitos, introduzida em uma ação de bioterrorismo

Conforme o especialista, o vírus paralisa a lagarta, que vai ficando lenta, comendo menos e acaba definhando. “O produto provoca a morte em cinco a sete dias, mas deve ser aplicado assim que for observada a presença da Helicoverpa armigera na lavoura. A aplicação preventiva é ineficaz, pois é necessário ter a lagarta para ‘hospedar’ o vírus na planta. Outra novidade é que os produtores do Oeste da Bahia poderão utilizar o benzoato de emamectina para controlar a Helicoverpa armigera, já que o Ministério de Agricultura decretou estado de emergência na região”, acrescenta.

Adeney Bueno explica que a helicoverpa é a mais famosa praga do momento, mas a espécie recém-chegada é apenas mais uma entre as tantas que merecem atenção

Prevenir é o melhor remédio — Embora a principal ameaça para a safra 2014/15, na análise do entomologista do Instituto Phytus Juliano Farias, continue sendo a helicoverpa, o grupo das lagartas- falsas-medideiras pode ter novamente destaque – nesse caso, pela dificuldade dos produtos em controlar esse grupo de inseto.

Desde o surgimento da ferrugem asiática da soja na safra 2001/02, diversos produtos perderam a eficácia sobre a doença. Em relação aos insetos, existem alguns trabalhos que têm demonstrado a mesma característica. “Na cultura do milho, antes da entrada dos eventos Bt, eram comuns alguns relatos de falhas de controle de lagarta-do-cartucho. Em muitos casos, as falhas não estavam somente relacionadas à resistência dos insetos aos produtos, mas a resistência foi a causa de insucessos de controle em alguns produtos que foram aplicados frequentemente durante um período até a detecção da ineficiência desses”, compara o entomologista.

Já na cultura da soja, Farias explica que as doses de alguns inseticidas utilizados no controle de percevejos têm sido ajustadas ao longo dos anos. “Temos observado que, nas doses tradicionais, esses insetos não têm sido controlados com eficiência. Esses são alguns exemplos que demonstram que podemos ter uma frequência maior de falhas de controle à medida que aumentarmos a frequência de aplicações de um mesmo grupo de inseticida”, informa.

A principal ameaça à cultura da oleaginosa em termos de insetos, na análise de Farias, é o complexo de percevejos da soja. Esse grupo, segundo ele, apresenta um potencial grande de dano que, em muitos casos, é subestimado pelo produtor. “Aliado ao potencial de dano, o número de grupos de inseticidas é limitado para esse grupo de insetos. Além disso, o manejo via inseticida é dificultado após o estabelecimento desses insetos na área em função da limitada tecnologia de aplicação que dispomos para que o produto chegue aos locais onde eles se encontram, especialmente as ninfas”, ressalta.

A melhor maneira de se prevenir, conforme o entomologista, é o monitoramento de populações de insetos. “Aplicações antes da presença do alvo apresentam baixa ou nula eficiência, da mesma maneira quando as aplicações são realizadas tardiamente. Aplicações no início da infestação são mais eficientes. A utilização de inseticidas mais seletivos no início da fase de desenvolvimento da cultura e rotação de ingredientes ativos também são estratégias que auxiliam no manejo”, acrescenta Farias.

Ao adotar o manejo integrado de pragas, com ações como o monitoramento, o produtor evita aplicações desnecessárias de defensivos e consegue reduzir o custo de produção

Retorno em grande estilo — Historicamente, na cultura do milho, a principal ameaça sempre foi a lagarta-do-cartucho, difícil de controlar em função do curto período de exposição das lagartas da sua fase mais suscetível aos inseticidas. “Além disso, em função das altas populações, frequentes infestações dessa espécie eram observadas na cultura. Com a introdução dos eventos Bt, essa espécie deixou de ser um problema. Porém, recentemente, com as falhas de controle dessas tecnologias em razão da evolução da resistência, essa espécie retornou ao status de praga principal da cultura do milho”, lamenta Juliano Farias.

Outro grupo importante que, na opinião de Farias, tem demandado muita atenção por parte dos produtores é o das espécies de percevejo-barriga-verde. “Esses insetos apresentam um grande potencial de dano na fase inicial da cultura do milho, tanto é que o nível de controle está próximo de um percevejo por metro quadrado”, exemplifica.

No caso da lagarta-do-cartucho, o manejo recomendado pela pesquisa começa pelo monitoramento e por aplicações de inseticidas assim que atingidos 10% de plantas raspadas. “Uma boa tecnologia de aplicação responderá muito em termos de eficiência de controle para esse alvo, como, por exemplo, aplicações direcionadas ao cartucho do milho e volume de calda de pulverização. Em relação aos percevejos- barriga-verde, além do tratamento de sementes à base de inseticidas neonicotinoides, dependendo da infestação, pulverizações complementares são necessárias assim que ocorra a emergência das plantas, pois é o período mais suscetível do milho a esses percevejos”, garante o entomologista.

A recomendação da Fundação MT para o controle da ferrugem da soja no Mato Grosso é plantar mais cedo e utilizar material precoce, além de aplicar fungicida preventivamente em todo o ciclo

Problema: o volume de alguns inseticidas utilizados no controle de percevejos tem sido ajustado ao longo dos anos, mas as doses tradicionais não têm controlado a praga com eficiência

De olho na ferrugem — Extremamente agressiva, a ferrugem asiática permanece sendo a principal doença da soja, desde seu surgimento, na safra 2001/02. Para o pesquisador do Instituto Phytus e professor PhD. Ricardo Balardin, esse foi o evento mais impactante na história da cultura da oleaginosa, pelo menos em relação aos últimos anos. “Quando falamos de ferrugem, estamos falando de uma doença com ocorrência em mais de 50 milhões de hectares na América do Sul. Não saberia dizer se existe algum paralelo com outra cultura no mundo”, indaga. O impacto na produtividade, na análise do pesquisador, pode variar devido a vários fatores: data de semeadura, utilização equivocada de fungicidas, locais mais chuvosos, etc. “De qualquer modo, a doença tem o potencial de dano entre 10% e 80%”, calcula Balardin.

A importância econômica de algumas lagartas no algodão tem crescido em razão do aumento populacional por causa de condições climáticas favoráveis, uso excessivo e inadequado de inseticidas e migração de outras culturas

Ele explica que, desde o surgimento da ferrugem, diversos produtos têm perdido a eficácia sobre a doença, como os do grupo químico dos triazois e benzimidazois. Os demais grupos, embora com alguns problemas de eficácia, ainda apresentam níveis aceitáveis de controle. “Atualmente, o controle é feito com a aplicação preventiva de fungicidas, com ênfase nas misturas dos grupos químicos triazois + estrubirulinas ou carboxamidas + estrubirulinas. A adição de produtos de contato, especificamente mancozebe, agregou eficácia significativa aos demais fungicidas”, obseva. O que a pesquisa indica em termos de manejo, de acordo com Balardin, são aplicações preventivas (antes do estabelecimento do patógeno), a intervalos de 15 a 20 dias, e cuidado na tecnologia de aplicação, evitando horários críticos para aplicação (horas quentes do dia).

A recomendação do engenheiro agrônomo e pesquisador da área de Proteção de Plantas da Fundação MT Fabiano Siqueri para o controle da ferrugem no Mato Grosso é plantar mais cedo e utilizar material precoce. “Mas só isso não garante o sucesso do combate. A imprevisibilidade da ferrugem é um fator que infelizmente não nos ajuda a tratar do tema com otimismo. É preciso aplicar fungicida preventivamente em todos os ciclos”, salienta. Em linhas gerais, o pesquisador observa que a ferrugem continua sendo uma ameaça importante para a cultura da soja nesta safra, mas doenças como mancha-alvo e antracnose em locais mais específicos, problemas de raiz (podridão carvão e fusarium) e problemas de nematoides praticamente em todo o País serão responsáveis por perdas importantes.

Pragas do algodoeiro — Dentre as principais espécies de insetos que ocorrem na cultura do algodoeiro, destacamse o bicudo-do-algodoeiro (Anthonomus grandis), lagartas carpofágicas (Heliothis virescens, Helicoverpa armigera, Spodoptera frugiperda e Pectinophora gossypiella), lagartas desfolhadoras (Alabama argillacea, Chrysodeixis includens e Spodoptera eridania), mosca-branca (Bemisia tabaci), pulgão-do-algodoeiro (Aphis gossypii) e ácaros (Polyphagotarsonemus latus e Tetranychus urticae). Dessas, as mais destruidoras são o bicudo e as lagartas dos gêneros Helicoverpa e Spodoptera. “Essas pragas são responsáveis por mais da metade dos esforços de controle de pragas na cultura e representam prejuízos de cerca de R$ 1.100 a R$ 1.500 por hectare de algodoeiro por ano, relacionados aos gastos com controle químico e danos diretos pelo ataque”, ressalta o pesquisador e entomologista da Embrapa Algodão José Ednilson Miranda.

No algodoeiro, a principal praga é o bicudo, cujos danos às estruturas florais são significativos quando ações de controle populacional não são tomadas adequadamente

Ele explica que 95% da área cultivada com algodão está no Cerrado, distribuído pelos estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Bahia, Maranhão e Piauí. “Esse bioma apresenta características ecológicas interessantes para o cultivo do algodoeiro, porém, também favorável ao desenvolvimento de pragas carpofágicas, que atacam as estruturas florais da planta, como o bicudo e espécies de lagartas dos gêneros Helicoverpa e Spodoptera”, observa.

Presente nas lavouras brasileiras desde 1983, o bicudo-do-algodoeiro é desde então a principal praga da cultura. “Seus danos às estruturas florais são significativos quando ações de controle populacional não são tomadas adequadamente. Projetos de controle do inseto são realizados nos estados produtores, porém, na última safra, parte pelo desvio da atenção do bicudo para a Helicoverpa armigera, parte pela não destruição eficiente dos restos culturais de algodoais já colhidos, parte pela ineficiência do controle químico, as populações de bicudo aumentaram e causaram prejuízos”, avalia Miranda.

Quanto às lagartas Spodoptera fugiperda, S. eridania e S. cosmioides e Helicoverpa armigera, o pesquisador aponta que sua importância econômica na cultura do algodão tem crescido ano a ano, principalmente no Cerrado. As causas do aumento populacional dessas espécies, segundo ele, envolvem condições climáticas favoráveis (alta temperatura e baixa umidade relativa do ar), uso excessivo e inadequado de inseticidas e migração de áreas de soja, milho e sorgo, plantas hospedeiras potenciais dessas pragas. O pesquisador alerta para o aumento populacional dessas pragas, cuja severidade varia de acordo com o maior ou menor rigor no uso das técnicas de manejo integrado de pragas. Como exemplo, cita as regiões produtoras dos Chapadões (confluência de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul) e do Oeste baiano, onde é alta a população de bicudo.

Em relação às lagartas do gênero Helicoverpa e Spodoptera, por seu hábito de polifagia (alimentam-se de várias culturas), sua distribuição ocorre indistintamente pelas regiões produtoras, sendo seu controle efetuado entre outras técnicas com o uso de plantas Bt resistentes a essas pragas. “As variedades de algodoeiro resistentes a lagartas, chamados algodoeiros Bt, expressam toxinas Cry de Bacillus thuringiensis (Bt) que conferem à planta proteção ao ataque de diversas espécies de lepidópteros-praga. Entretanto, essa proteção depende da efetiva produção em quantidades suficientes pelas plantas e da suscetibilidade das pragas-alvo”, alerta.

Esses materiais, de acordo com Miranda, podem reduzir a necessidade de pulverizações na cultura para controle de lagartas, porém, o manejo correto será decisivo para evitar a evolução da resistência das espécies-praga de lagartas a esses eventos Bt. Para tanto, a manutenção de refúgio estruturado (pelo menos 20% da área plantada com algodoeiro convencional, distante no máximo 800 metros da área Bt e com controle de pragas com base no MIP) é indispensável. “A resistência do algodoeiro Bt é limitada a certas espécies e o controle adequado das pragas não alvo, como bicudo, percevejos, pulgões e mosca-branca que não são atingidas pela proteína Bt, não pode deixar de ser realizado, sob pena de se ter perdas ao invés de ganhos com o uso de plantas transgênicas”, recomenda. O controle biológico também começa a ser considerado como prática importante e perfeitamente viável mesmo em áreas de grande extensão de culturas, como o caso do algodão no Cerrado brasileiro. “Como exemplo, o uso de vírus e parasitoides para o controle de pragas começa a ganhar força e adeptos. Esse manejo mais racional levará a redução dos custos de controle de pragas e, consequentemente, do custo de produção de algodão no Brasil”, estima Miranda.

Doenças foliares — Em relação às principais doenças foliares que afetam a cultura do algodoeiro, o pesquisador do Núcleo Cerrado da Embrapa Algodão, em Sinop/MT, Luiz Gonzaga Chitarra destaca a mancha de ramulária, causada pelo fungo Ramularia areola. “Ocorre em todas as regiões onde se cultiva o algodoeiro e se não for controlada desde o aparecimento dos primeiros sintomas, pequenos pontos de coloração esbranquiçada nas folhas do baixeiro, isto é, no terço inferior da planta, pode causar perdas econômicas ao produtor”, alerta. No tocante ao manejo da mancha de ramulária, Chitarra recomenda o monitoramento da área por monitores de campo capacitados e treinados na identificação correta dos sintomas/sinais das doenças que incidem sobre a cultura, a utilização de cultivares com grau de tolerância ao patógeno em áreas com elevada ocorrência da doença, a rotação de culturas, a utilização de fungicidas e a alternância dos grupos químicos desses fungicidas.

Dentre os patógenos do solo, Chitarra chama a atenção para o fungo Rizoctonia solani, causador do tombamento de plântulas, e o nematoide de galhas, Meloidogyne incognita. “O tombamento de plântulas geralmente ocorre nas regiões onde a precipitação é elevada na época do plantio do algodoeiro, o que proporciona condição ideal para o ataque do fungo, e, consequentemente, ocorrência do tombamento”, complementa. Para minimizar os problemas em áreas com histórico de tombamento de plântulas, o pesquisador sugere o plantio do algodoeiro sobre palhada (cobertura morta) de braquiária, milho ou milheto; tratamento de sementes e a rotação de culturas. “Em relação ao nematoide de galhas, a rotação de culturas, principalmente com gramíneas, é fundamental para minimizar os problemas nas áreas de ocorrência desse patógeno”, pontua.

Arroz: para começar, atenção à época de semeadura

O principal fator responsável pelas altas produtividades das lavouras de arroz no Rio Grande do Sul é a época de semeadura e a ela estão condicionadas as demais práticas de manejo, principalmente em relação à ocorrência de pragas e doenças. “Levando em conta a previsão climática com possibilidades de El Niño, somadas à pequena área de preparo antecipado, 14% em 15 de agosto, os riscos de perdermos a melhor época de semeadura, que no Rio Grande do Sul vai do início de setembro até a primeira semana de novembro, devem ser considerados, bem como todos os problemas decorrentes desse processo”, avalia o pesquisador do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) Rodrigo Schoenfeld.

A dificuldade no controle de plantas daninhas, segundo Schoenfeld, diz respeito ao clima, ou mais precisamente ao excesso de chuva. “Em anos de maior ocorrência de chuva, o produtor passa vários dias sem condições de entrar na área. Isso dificulta o controle de plantas daninhas, já que elas não param de crescer, independentemente do clima. Uma estratégia é não perder o ‘ponto de agulha’ com a utilização de dessecantes e também o uso de herbicidas pré-emergentes, o que dá ao produtor uma maior flexibilidade”, explica.

Outro aspecto importante levantado pelo pesquisador do Irga é que semeaduras tardias somadas a cultivares susceptíveis aumentam a probabilidade de ocorrência de brusone (na foto). “Essa receita é explosiva: semeadura tardia somada a variedades suscetíveis, aumentam as chances de ocorrência de brusone. Lembramos que a época de semeadura está ligada diretamente à incidência de brusone, em semeaduras realizadas até o fim de outubro dificilmente ocorrem doenças”, argumenta.

A melhor estratégia, diz Schoenfeld, é fazer a semeadura na época recomendada, utilizar materiais resistentes, monitar e fazer o levantamento do histórico do local. “A genética Irga lançada nos últimos anos é resistente a brusone. Quem não consegue seguir essa recomendação deve ter muito cuidado com o momento de aplicação para proteger principalmente a panícula, para isso, o estádio é o R3, emborrachamento, além de monitorar e levar em conta o histórico da área”, ressalta.

Entre as alternativas recomendadas pela pesquisa para o controle do arroz vermelho estão o uso de sementes certificadas e a rotação de culturas com a soja e o milho. “Para reduzir a população de vermelhos nessas áreas, chamo a atenção dos produtores para que escolham áreas que apresentem o menor risco de enchentes, procurando evitar o excesso hídrico na cultura da soja. A sugestão é usar materiais mais tolerantes como a cultivar TECIrga 6070 RR, lançada pelo Irga em parceria com a CCGL Tecnologia, por ser um material melhor adaptado a essas situações”, afirma Schoenfeld.

Fauna diversificada — A cultura do arroz possui uma fauna muito diversificada, sendo que algumas espécies são frequentemente encontradas em níveis populacionais elevados. “Nos últimos sete anos, a população de insetos cresceu assustadoramente no Rio Grande do Sul, abrangendo praticamente todas as seis regiões orizícolas. Alguns, por exemplo, estão longe da lavoura, o que dificulta ainda mais o controle”, reconhece o entomologista e consultor do Irga Jaime Vargas de Oliveira.

Dentre os principais, Vargas destaca a lagarta-da-panícula (Pseudaletia spp), a bicheira-da-raiz (Orizophagus oryzae), o pulgão-da-raiz (Rhopalosiphum rufiabdominal) e o percevejo-do-colmo (Tibraca limbativentris). “A lagarta-da-panícula instalou-se na lavoura a partir de 2003 e a cada ano vem aumentando a incidência. O inseto-praga ataca as plantas de arroz desde o início da fase da emissão da panícula, até poucos dias antes da maturação. O período crítico é após a emissão da panícula. Os danos são provocados pelo corte da panícula, podendo provocar perdas de produtividade de até 20%”, diz Vargas.

O Irga recomenda como medida de prevenção a eliminação da resteva logo após a colheita. “A técnica poderá eliminar até 100% desses insetos para a próxima safra ou reduzir significativamente a população. Além disso, é fundamental o uso de produtos registrados, eficientes e de excelente controle, com menor impacto ambiental”, indica o agrônomo. O manejo correto, de acordo com Vargas, começa pelo levantamento e pela análise do histórico de insetos na área ou região. “A partir daí, o produtor precisa monitorar a população de insetos ainda na fase inicial para determinar qual a melhor forma de controle. Cerca de 90% dos casos de bicheira-da-raiz resolvemse com o tratamento de sementes, que também é recomendado para o percevejo- do-grão. Para outros insetos, nem sempre é efetivo”, compara o entomologista.

O uso de sementes certificadas, o manejo antecipado do solo, a semeadura na época correta e a rotação de culturas são outras formas de controlar ou amenizar o impacto causado por esses insetos. “Em sua maioria, os produtores de arroz do Rio Grande do Sul estão fazendo o manejo adequado. Mas é preciso ficar atento. Em relação ao controle químico, por exemplo, usar de produtos registrados, efetivos e de baixo impacto ambiental. Observar os horários recomendados para a aplicação, geralmente até o final da tarde. Creio que uma área na qual a pesquisa poderia avançar mais é o desenvolvimento de cultivares resistentes a insetos”, resume.