Inseticidas

Tratamento contra as PRAGAS INICIAIS

Todas as pragas iniciais da soja podem ser controladas com o emprego de inseticidas nas sementes

Crébio José Ávila, Embrapa Agropecuária Oeste, [email protected]

As plantas de soja podem ser atacadas por pragas desde a germinação das sementes e emergência das plântulas até a sua fase de maturação fisiológica, sendo esses organismos maléficos constituídos por insetos, moluscos, diplópodes e ácaros. Essas pragas são classificadas como de importância primária, regional ou secundária, em função da sua frequência de ocorrência, abrangência e do potencial de danos que podem causar à cultura.

As pragas que atacam as raízes da soja são normalmente insetos subterrâneos pertencentes a diferentes grupos, embora Coleoptera e Hemiptera sejam as duas principais ordens que abrangem esse complexo de organismos. Dentre os quais os corós e o percevejo-castanho são as duas principais pragas que causam danos à cultura na região do cerrado brasileiro. Com a expansão da cultura da soja para novas regiões agrícolas, tem-se observado também um número crescente de pragas que atacam plântulas, hastes e pecíolos das plantas de soja, sendo esses organismos maléficos constituídos basicamente por insetos (tamanduá-da-soja, lagartaelasmo), moluscos (lesmas e caracóis) e diplópodes (piolho-de-cobra). Os danos causados por essas pragas iniciais à cultura da soja afetam diretamente o estande, ou o vigor, e o desenvolvimento das plantas e, consequentemente, a produtividade da cultura.

Para o manejo de pragas iniciais que atacam as plantas de soja, é necessário fazer o monitoramento preciso desses organismos antes mesmo da instalação da lavoura, uma vez que todas as táticas de controle a serem implementadas são preventivas. Como estratégia efetiva de controle, a aplicação de inseticidas nas sementes da soja constitui uma importante alternativa para o manejo, tanto das pragas de solo como de hastes e pecíolos da soja, especialmente em sistemas conservacionistas, como o plantio direto. Essa estratégia de controle tem grande vantagem comparativa por ser um método que pode garantir o controle das pragas iniciais na cultura, garantindo o estande e a uniformidade das plantas. Isso preserva ou melhora o vigor da soja, além de ser relativamente de baixo custo, o que proporciona uma relação de custo/benefício favorável ao produtor.

Outra característica importante que está relacionada ao emprego de inseticidas via semente é com relação a sua seletividade ecológica, uma vez que o inseticida é depositado de forma localizada em uma pequena área do solo onde a cultura da soja é cultivada, ao passo que, em uma pulverização, o inseticida é aplicado em toda a lavoura. Essa seletividade ecológica preserva os diversos agentes de controle biológico natural das pragas como os predadores, parasitoides e patógenos, contribuindo para o estabelecimento do equilíbrio biológico no agroecossistema.

Além de uma boa qualidade da semente e do equipamento de aplicação, a formulação do inseticida influencia decisivamente no sucesso do tratamento. A adesão do inseticida nas sementes depende de forças moleculares e físicas existentes nas partículas, sendo essa um dos principais fatores a ser observado, pois está diretamente relacionado à qualidade da cobertura do produto na superfície da semente e à eficácia de controle da praga-alvo.

As formulações SC ou FW são normalmente as mais utilizadas em tratamento de sementes com inseticidas na soja, porque além de serem prontamente utilizáveis, proporcionam melhor aderência às sementes quando comparadas a outras formulações. Outra característica comum a todas as formulações é a presença de corantes, que têm como finalidade alertar o usuário para que as sementes tratadas com inseticidas tenham um manuseio adequado e seguro e que não sejam destinadas ao consumo humano e animal.

O tratamento das sementes de soja com inseticidas pode ser realizado na fazenda (on farm) ou industrialmente pelas empresas detentoras das cultivares ou dos produtos químicos. As sementes tratadas industrialmente apresentam melhor cobertura e uniformidade de distribuição do ingrediente químico na sua superfície, sendo essa característica estritamente relacionada ao potencial de controle da praga-alvo.

Lagarta-elasmo — De um modo geral, todas as pragas iniciais da soja podem ser controladas com o emprego de inseticidas nas sementes. Uma das principais pragas iniciais da soja em que se preconiza constantemente o emprego de inseticidas nas sementes é a lagartaelasmo, Elasmopalpus lignosellus Zeller. Com o ataque dessa lagarta na soja, as plantas inicialmente murcham e posteriormente secam, em razão da obstrução do transporte de água e de nutrientes do solo para a parte aérea da planta. Quando a planta de soja está mais desenvolvida e com o caule mais lignificado, a lagarta alimenta-se apenas da sua parte externa, deixando cicatrizes externas visíveis da injúria do inseto; nessa região, pode ocorrer a formação de tecido frágil e, em razão disso, há a possibilidade de se quebrar facilmente pela ação do vento. Inseticidas dos grupos fenilpirazois e diamidas têm mostrado boa eficácia no controle da lagarta-elasmo quando aplicados nas sementes de soja. Os corós, Phyllophaga cuyabana, Phyllophaga capillata e Liogenys fusca são outro grupo de pragas em que o tratamento de sementes da soja com inseticidas pode proporcionar um bom controle, dependendo do produto e da dose empregada.

Essas pragas consomem as raízes ou até mesmo os nódulos de fixação biológica de nitrogênio, acarretando a redução na capacidade das plantas de absorver água e nutrientes, elementos esses essenciais para o seu desenvolvimento. Os principais ingredientes ativos considerados eficientes no controle de corós pertencem aos grupos fenilpirazois e neonicotinoides. Da mesma forma, o tamanduá-da-soja, Sternechus subsignatus, pode ser eficientemente controlado pelo tratamento de sementes com inseticidas, sendo os ingredientes ativos dos grupos fenilpirazois e neonicotinoides também os mais eficientes. Os adultos dessa praga raspam e desfiam os tecidos da haste principal da soja e, eventualmente, os ramos laterais e pecíolos das folhas, enquanto que as larvas são endofíticas, ou seja, alimentamse no interior da haste principal, mais precisamente em sua medula.

Quando o ataque ocorre no início de desenvolvimento das plantas, a gema apical pode ser atingida e o dano tornase irreversível, resultando no desfiamento total da haste principal, causando assim redução da população de plantas. Quando o ataque ocorrer mais tarde e a postura e o desenvolvimento da larva acontecer na haste, ocorre a formação de uma galha com tecido muito frágil nessa região, que pode se quebrar pela ação do vento ou de chuvas fortes, causando a morte da planta e, consequentemente, redução do estande.

Os piolhos-de-cobra podem também ser eficientemente controlados através de inseticidas aplicados nas sementes de soja. Essas pragas podem danificar as sementes de soja em fase de germinação ou em emergência no solo, bem como plântulas recém-emergidas, ingerindo partes dos cotilédones ou até mesmo as folhas novas, podendo matar as plantas e causar acentuada redução do estande nas lavouras. Inseticidas dos grupos carbamatos e fenilpirazois, quando aplicados nas sementes de soja, têm-se mostrado eficientes no controle dessa praga.

Já os percevejos-castanho, bem como as lesmas e os caracóis, são pragas iniciais da soja em que o tratamento de sementes não tem se mostrado eficiente no controle em condições de campo. No caso do percevejo-castanho, a pulverização do sulco com inseticidas é mais eficaz, enquanto que, para as lemas e os caracóis, o melhor método de controle é conseguido através do uso de iscas à base de metaldeído.