Educação

Incentivo às novas GERAÇÕES

Projeto realizado em Mato Grosso estimula a qualificação e incentiva a permanência de jovens no meio rural

Denise Saueressig [email protected]

A preocupação com a sucessão é frequente entre os produtores brasileiros. É comum ouvir relatos de que as novas gerações preferem investir em carreiras profissionais que se distanciam da realidade do meio rural em vez de permanecerem no campo, dando sequência ao trabalho dos pais. Debatida em reuniões e encontros de produtores, a preocupação transformou-se em iniciativa e, no ano passado, teve início o projeto Futuros Produtores do Brasil. Criado e desenvolvido pela Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso (Famato) e pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar/MT) e com patrocínio da Monsanto, o programa busca justamente sensibilizar e informar as futuras gerações a respeito das possibilidades do agronegócio.

Segundo o Censo 2010 do IBGE, Mato Grosso, estado que mais produz grãos no País, tem uma população jovem rural de 89.070 pessoas com idade entre 20 e 29 anos. O número indica um recuo de 11% em comparação com o levantamento de 1996. Além das razões identificadas entre os agricultores, os dirigentes da Famato buscaram inspiração no programa Future Farmers of America (FFA), que foi criado em 1928, nos Estados Unidos. O perfil da iniciativa americana justifica que a missão é preparar as futuras gerações para o desafio de alimentar uma população em crescimento. O FFA trabalha com a definição de que a “agricultura é mais do que plantar e colher – é uma ciência, um negócio e uma arte”.

Entusiasta do projeto brasileiro, o pecuarista Arnaldo de Campos, vice-presidente da Região I da Famato, acredita que o desconhecimento seja a principal causa da falta de motivação dos jovens. “Entendemos que precisávamos explicar a eles que o agronegócio não é apenas importante para nós, que vivemos disso, mas para o mundo todo”, declara. O conhecimento é gerador de motivação, elemento que, na opinião do produtor, é essencial para convencer a nova geração a ficar no meio rural. “O campo nem sempre consegue oferecer o mesmo conforto da cidade. É um trabalho a céu aberto, exposto ao sol, ao calor e à chuva, ou seja, se não houver motivação, fica difícil”, avalia.

Informação e relacionamento — Para gerar o estímulo necessário à formação de novos profissionais e lideranças, o Futuros Produtores oferece gratuitamente aos inscritos atividades com atrativos que envolvem diferentes áreas de atuação do setor. Participam, a cada turma, 30 jovens com idade entre 16 e 24 anos. A programação até agora incluiu visitas a propriedades que são referência em suas áreas, a cooperativas, à Bolsa de Valores de São Paulo e ao Porto de Santos/SP. Porém, além de conhecimentos técnicos sobre produção e mercado, os jovens recebem noções sobre desenvolvimento de carreira, empreendedorismo, sucessão familiar e relacionamento com os pais.

Como o resultado da primeira turma foi considerado altamente positivo, este ano o projeto teve continuidade com duas turmas: uma de novos inscritos e outra, com os participantes de 2013. A reação dos jovens indica que o projeto deve ter continuidade e, possivelmente, expansão. “Queremos estabelecer parcerias para ampliar as atividades e, quem sabe, realizar intercâmbio internacional e levar o programa para outros estados”, observa Campos.

Natália Becker de Oliveira: participação no projeto ajudou na decisão pelo curso de Agronomia

Filho do vice-presidente da Famato, Arnaldo Campos Júnior ouviu o pai comentar sobre o projeto e achou que seria uma boa oportunidade para buscar entender mais sobre a atividade. “Precisamos pensar que vamos receber toda uma estrutura dos nossos pais, e que, quanto mais conhecermos sobre o negócio onde trabalhamos, mais poderemos fazer para obter sucesso”, afirma. Aos 23 anos, Júnior chegou a iniciar o curso de Veterinária, mas pela distância da fazenda, em Cotriguaçu/ MT, para a faculdade, em São José do Rio Preto/SP, resolveu trancar os estudos por um tempo. Como filho único, ele se dedica a ajudar o pai na parte administrativa e técnica da fazenda voltada à pecuária. “Fiz alguns outros cursos, mas pretendo retomar a faculdade”, revela.

No Futuros Produtores, o jovem conta que encontrou muitas novidades e descobriu experiências diferentes visitando outras fazendas. “São vivências assim que ajudam a abrir a cabeça e estimular a imaginação. Além disso, fiz novas amizades e aprendi com os exemplos de famílias que passaram pelo processo de sucessão”, destaca.

Definição sobre a carreira — A participação no projeto foi fundamental para a estudante Natália Becker de Oliveira, de 17 anos, decidir seu futuro profissional. Ela relata que, até o ano passado, quando entrou na primeira turma, não tinha interesse pela realidade do agronegócio. E foi pelo incentivo do pai, o produtor Silvésio de Oliveira, que ela se envolveu nas atividades. Cursando o último ano do ensino médio, Natália resolveu que vai estudar Agronomia depois que aprendeu sobre o setor. “Foi surpreendente. Descobri que o trabalho no campo não é só plantar e colher, e isso é apaixonante”, define.

Arnaldo Campos Júnior: novas amizades e aprendizado com famílias que passaram pelo processo de sucessão

Depois de participar da primeira turma em 2013, a jovem continuou no programa este ano. Uma das atividades que mais chamou a sua atenção foi a visita à Fazenda Gamada, da família Wolf, em Nova Canaã do Norte/MT. Lá, os futuros produtores conheceram um sistema de referência em integração lavoura-pecuária-floresta. “Com exemplos como esse, entendemos que precisamos e podemos produzir cada vez mais sem prejudicar o meio ambiente”, descreve. Motivada, Natália diz que pretende trabalhar ajudando o pai na Fazenda Verde Vale, em Tapurah/MT, onde a família tem criação de gado e lavouras de soja e milho. “Um dos meus objetivos é convencer meu pai a fazer integração lavoura-pecuária”, ressalta.