Fitossanidade

Tratamento de sementes: o princípio da PROTEÇÃO

A eficiência de todo o programa de aplicações de fungicidas a ser realizado na área foliar da soja está condicionado a um tratamento de sementes que reduzirá a quantidade de inóculo inicial a ser transmitido para a planta

Doutora em Agronomia Caroline Gulart e engenheira agrônoma e doutora Mônica Paula Debortoli, ambas do Instituto Phytus

A mancha púrpura ou crestamento foliar de cercospora é facilmente identificada pela coloração púrpura das sementes, e as sementes infectadas irão originar lesões primárias nos cotilédones e hipocótilo

Os dados de área plantada na última safra, bem como de produtividade da cultura da soja no Brasil, mostram um cenário bastante otimista. De acordo com dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra de soja 2013/2014 ocupou mais de 30 milhões de hectares, apresentando um acréscimo de 8,7% na área plantada em relação à safra anterior, com produtividades próximas a três toneladas por hectares. Certamente essa frente positiva do complexo soja – que abrange grãos, farelo e óleo – deve-se às crescentes exportações para China e União Europeia, fato que, em última análise, permite um aumento de investimentos no pacote tecnológico por parte dos produtores (máquinas, fertilizantes, sementes). Dentro desse contexto, é necessário considerar que, juntamente com o aumento das áreas plantadas, também estão crescendo os prejuízos causados por doenças e insetos nas fases iniciais de desenvolvimento da cultura.

Especialmente quando a semeadura ocorre em condições de baixa umidade do solo e temperatura desfavoráveis à rápida germinação, o tratamento de sementes desempenha papel fundamental para que se obtenha uniformidade no estande de plantas e, principalmente, minimização dos danos decorrentes de fungos de solo como damping-off. Quando as condições, logo após a semeadura, não favorecem a emergência, a semente ficará mais tempo no solo exposta aos danos decorrentes de patógenos como Fusarium sp., Pythium sp., Rhizoctonia sp., assim como aqueles que causam apodrecimento como Aspergillus sp. e Penicillium sp. Importante salientar que, além dos fungos presentes no solo, existem vários outros que vêm junto com a semente, podendo estar aderidos externamente, ou ainda nas estruturas seminais.

Diante desse contexto, salienta-se que o mercado de fungicidas para tratamento de sementes mais que dobrou nos últimos dez anos, sendo que a cultura da soja é a responsável por esse aumento expressivo. Estima-se que o custo do tratamento de sementes na cultura da soja esteja entre de 0,8% e 2% do custo total de produção da cultura, sendo, portanto, um investimento de baixo custo, que, além de evitar a introdução de patógenos em novas áreas, irá reduzir fontes de inóculo primário na lavoura, assim como a incidência e severidade de algumas doenças.

Teste de sanidade — A semente, de maneira geral, constitui-se na forma mais eficiente de disseminação de patógenos necrotróficos a longas distâncias e, portanto, é de grande importância o conhecimento de quais espécies estão presentes no lote. Da mesma forma que nós, ao termos sintomas de uma doença, realizamos uma série de exames para direcionar o tratamento, a análise sanitária das sementes que irão para o campo irá determinar quais patógenos e em que quantidade estão presentes, para que assim seja possível determinar qual fungicida em tratamento de sementes deve ser utilizado.

Na cultura da soja, diversas doenças podem ser transmitidas pelas sementes, sendo que as de maior relevância para discussão entre os patógenos de solo são as seguintes:

Fusarium spp. – Causa síndrome da morte súbita na soja, responsável por apodrecimento de sementes, tombamento de plântulas e morte da planta da metade para o fim do ciclo da cultura, acarretando maiores perdas quando se manifesta entre V5 e R1, em função do abortamento de flores e vagens.

Cercospora kikuchii – Doença conhecida por mancha púrpura ou crestamento foliar de cercospora, facilmente identificada pela coloração púrpura das sementes, salientando-se que nem toda semente púrpura irá manifestar os sintomas da doença. As sementes infectadas irão originar lesões primárias nos cotilédones e hipocótilo, iniciando dessa forma o ciclo primário da doença. Alguns dados demonstram que a transmissibilidade do patógeno via semente é em torno de 30%.

Colletotrichum truncatum – A antracnose da soja é uma doença que, uma vez nas sementes, provoca a sua morte antes ou logo após a emergência. Além disso, ao ser transmitida para o cotilédone, se iniciará o ciclo primário da doença em que as plantas que emergem apresentam cancros com frutificações do patógeno (setas) bem visíveis, a partir do qual se iniciará a infecção de hastes e folhas, sendo a taxa de transmissibilidade dessa doença aproximadamente 10%. Vale ressaltar que se trata de uma doença policíclica com alta produção de esporos e fácil disseminação por respingos de chuva, visto que os acérvulos produzidos nos cotilédones produzem inóculo para hastes, legumes e novas plantas e, dessa forma, sempre que as condições de umidade forem favoráveis à esporulação, liberação e infecção, novas infecções irão ocorrer na lavoura.

Sclerotinia sclerotiorum (mofo branco) – É outra doença que merece atenção por parte do produtor por ser altamente destrutiva e com uma transmissibilidade via sementes de 40%-70%. É uma das doenças capazes de interferir desde a germinação até, e principalmente, o florescimento da soja. O tratamento de sementes no caso dessa doença é de fundamental importância, pois o patógeno é encontrado no tegumento, de onde se inicia o processo infeccioso. Uma vez introduzida na lavoura e tendo condições ambientais favoráveis, o fungo aumenta a quantidade de escleródios para as safras seguintes.

Diaporthe/Phomopsis – É um complexo patogênico que tem apresentado crescente importância nas últimas safras, causando perdas de produtividade, estando associado a várias doenças: a seca da haste e da vagem, o cancro da haste e a podridão da semente. Apesar da principal forma de controle ser a utilização de cultivares resistentes, o tratamento de sementes com fungicidas do grupo dos benzimidazois (tiofanato metílico, carbendazim e tiabendazol) reduz a transmissão da doença e é recomendado para o seu controle.

Phytophthora sojae, Rhizoctonia solani e Pythium spp. – São patógenos que também possuem a semente como veículo de disseminação, conhecidos por causar as podridões radiculares e ocorrem mais frequentemente em solos úmidos. Pythium sp. costuma ter alta incidência em condições de temperaturas mais baixas do solo. O tratamento de sementes é fundamental, especialmente no caso de Phytophthora sojae que vem causando perdas consideráveis. Os danos em função de P.sojae são apodrecimento de sementes, morte de plântulas e planta adulta em qualquer fase de desenvolvimento. Fungicidas contendo metalaxil e mefenoxam apresentam eficácia de controle em tratamento de sementes sobre esse patógeno. Rhizoctonia solani pode causar tombamento de plântula, podridão na haste e da raiz. Normalmente o patógeno é identificado por lesões castanho-avermelhadas nas raízes logo abaixo do nível do solo, ocorrendo estrangulamento do tecido afetado e morte das plantas.

Fusarium spp. é responsável por apodrecimento de sementes, tombamento de plântulas e morte da planta da metade para o fim do ciclo da cultura, acarretando maiores perdas quando se manifesta entre V5 e R1

O que o tratamento pode evitar?

— Quando se pensa no ganho com a utilização do tratamento de sementes, é importante ter conhecimento da seletividade de cada ingrediente ativo frente aos patógenos transmitidos pelas sementes. Certamente, o ideal seria se os tratamentos proporcionassem controle total sobre os fungos. Entretanto, sabe-se que na prática isso não ocorre. A rigor, o tratamento de sementes exerce dois princípios de controle de doenças, a erradiação e a proteção. O primeiro incide sobre a presença já estabelecida do(s) patógeno(s) sobre a semente, efetuando o seu controle efetivo; o segundo estabelece a proteção da semente sadia contra patógenos que estão presentes no solo e podem atuar de forma deletéria à viabilidade da mesma.

As particularidades com relação ao controle efetivo de cada produto estão diretamente relacionadas com a sua percentagem de incidência nas sementes, com a capacidade de transmissão para plântulas, com a qualidade no momento do tratamento (cobertura homogênea), bem como com a sua formulação comercial.

A seguir, são apresentados alguns dados de eficiência de quatro fungicidas comerciais utilizados para tratamento de sementes em soja. Aspergillus flavus e Penicillium sp. são fungos de armazenamento que têm sua incidência elevada quando a soja é colhida com alta umidade e armazenada fora das condições ideais. Quando não controlados, causam apodrecimento de sementes impedindo a germinação, prejudicando o estande ou acabam gerando plântulas com baixo vigor.

Em ensaios realizados com inoculação artificial de Aspergillus flavus, os melhores controles foram obtidos com a utilização de piraclostrobina + tiofanato metílico + fipronil na dose de 0,2 litro/ 100 kg de sementes com 88,9% de eficácia sobre o patógeno. O segundo melhor controle foi obtido com os fungicidas tiofanato metílico + fluazinam (0,215 l/100 kg de sementes) e carboxina + thiram (0,25 l/100 kg de sementes) que obtiveram 72,2% de controle sobre o patógeno. Já no caso de Pythium sp., os fungicidas com melhor desempenho sobre o patógeno foram piraclostrobina + tiofanato metílico + fipronil na dose de 0,2 l/100 kg de sementes, carboxina + thiram (0,30 l/100 kg de sementes) e fludioxonil + metalaxyl”m (0,10 l/100 kg de sementes).

Como já citado anteriormente, apesar de alguns produtos apresentarem um amplo espectro de ação, controlando uma boa parte dos fungos transmitidos por sementes, a maioria apresenta especificidade para alguns grupos. Isso pôde ser observado nos resultados aqui apresentados, sendo que, no caso de Sclerotinia sclerotiorum, todos os fungicidas testados apresentaram controle efetivo sobre o patógeno, com exceção da dose mais baixa de carboxina + thiram. Entretanto, apenas quando utilizado tiofanato metílico+ fluazinam (0,215 l/100 kg de sementes), houve 100% de controle do patógeno.

Se pegarmos como exemplo um lote de sementes de soja com uma incidência de 5% de Colletotrichum truncatum, considerando a taxa de transmissão média desse patógeno em torno de 10%, teria-se em um hectare de soja (300 mil plantas) aproximadamente 1.500 novos focos da doença, caso a semente não fosse tratada e considerando condições ambientais favoráveis. Se utilizado nesse lote um tratamento de sementes com 80% de eficácia, se estaria reduzindo esse inóculo inicial para 300 plantas com potencial de inóculo da doença. No caso de uma doença policíclica como a antracnose, essa redução teria um grande impacto na redução de danos.

Mônica e Caroline: estima-se que o custo do tratamento de sementes na soja esteja entre de 0,8 a 2% do custo total de produção da cultura, portanto, um investimento de baixo custo

O início cada vez mais precoce do surgimento das manchas na área foliar da lavoura, causada por patógenos necrotróficos, tem como um dos pontos fundamentais a transmissibilidade pela semente contaminada. Assim, o sucesso de todo o programa de aplicações a ser realizado na área foliar está condicionado a um tratamento de sementes assertivo que reduzirá a quantidade de inóculo inicial a ser transmitido para a planta. Portanto, o teste de sanidade de sementes é uma ferramenta de baixo custo e fundamental para orientar o técnico sobre qual produto precisa ser adicionado à semente, reduzindo a transmissão para futura parte aérea da planta e prejudicando o controle.