Canola

Novas oportunidades para a CANOLA

Com o aumento da porcentagem de biodiesel no óleo mineral para 7%, ampliam-se as perspectivas para a oleaginosa, que agora pode ganhar terreno pela sua “tropicalização”

Drª Flavia Andrea Nery Silva, Grupo de Estudos e Pesquisas em Canola do Instituto de Ciências Agrárias, Universidade Federal de Uberlândia [email protected]

No dia 6 de agosto, o Governo brasileiro aprovou a Medida Provisória nº 647/14, a MP do Biodiesel, que aumenta o percentual de biodiesel adicionado ao diesel, passando dos atuais 6% para 7%, a partir de novembro, chamado de biodiesel B7. Essa decisão vai alterar o mercado brasileiro de biocombustíveis. A mistura de 7% vai estimular o aumento das áreas cultivadas com espécies bioenergéticas no País e ao mesmo tempo otimizar o uso das unidades processadoras de óleo, que se encontram com mais de 60% de sua capacidade ociosa.

A produção do biodiesel B7 vai reduzir a importação de diesel em cerca de 1,2 bilhão de litros, que deverão, então, ser fornecidos pela cadeia nacional de biocombustíveis. Esse setor atualmente é responsável pela produção de cerca de 3 bilhões de litros. A demanda excedente de processamento pode ser atendida pelas indústrias processadores de biodiesel, que têm capacidade de industrializar aproximadamente 8 bilhões de litros anuais de biodiesel.

Dentre as fontes utilizadas para produção de biodiesel, predomina a soja, que responde por cerca de 70% da matéria-prima. Mas a crescente demanda do mercado interno para a produção de biocombustível, aliada ao aumento das exportações de soja, uma vez que o mercado internacional tem preferido o grão de soja in natura, pode gerar competitividade entre setores, quanto à destinação da produção de soja.

A canola apresenta-se como opção para suprir parte da demanda que surgirá com o biodiesel B7. É uma planta originada de regiões de clima temperado que vem, à cada safra, conquistando novas áreas de cultivo na Região Sul. Mas não somente nessa região, pois após intensos trabalhos de avaliação realizados pela Embrapa Trigo, pelo doutor Gilberto Omar Tomm, e por empresas do setor privado, foram selecionados materiais genéticos adaptados às regiões de baixa latitude (inferiores a 20°S) e temperaturas mais elevadas, que são predominantes nas Regiões Centro-Oeste e Sudeste. Como parte dessa iniciativa de expansão da cultura, foi criado o Grupo de Estudos e Pesquisas em Canola (Gepca), no Instituto de Ciências Agrárias (Iciag), da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), para auxiliar nos estudos e nas análises para introdução técnica dessa cultura na região do cerrado mineiro.

Os grãos de canola podem apresentar de 34% a 40% de óleo, tornando a cultura um atrativo aos produtores, devido ao seu alto rendimento. Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indicam que a área cultivada com a oleaginosa na safra 2013 foi de 45.500 hectares, 95% distribuídos entre os estados da Região Sul, mais 5% no Mato Grosso do Sul, com uma produtividade média de 1.300 quilos por hectare. As estimativas da safra 2014 indicam manutenção da área cultivada, mas com leve incremento na produtividade, que pode alcançar 1.500 quilos/hectare.

Vantagens técnicas e econômicas — A principal vantagem na utilização da canola é o fato de sua adequação no sistema de rotação de culturas, em segunda safra, alternando soja, milho e outras culturas da primeira safra. Além disso, a rentabilidade do grão pode ser um grande estímulo que permitirá a expansão da cultura, pois seu preço de comercialização é atrelado ao mercado da soja, com facilidade de comercialização, possibilidade de lucros elevados e alta liquidez.

Apesar de todo o potencial da cultura da canola, seu óleo, considerado nobre e com alto valor agregado, ainda é pouco destinado para a indústria de biocombustíveis. Mas a necessidade de aumento na produção nacional de biocombustíveis e, por conseguinte, das áreas cultivadas com culturas bioenergéticas, gerada pela aprovação da MP do Biodiesel, pode viabilizar o uso dessa oleaginosa para a produção de biodiesel.

Os grãos de canola têm o dobro de óleo que os da soja e a transformação da cultura em biocombustível ainda permite aproveitar grãos que sofreram excesso de chuva na colheita, seca ou outros fatores que normalmente comprometem a qualidade para a produção de óleo para consumo humano. Com relação ao rendimento em óleo, a canola necessita de dois hectares para a produção de uma tonelada de óleo, em média, equiparando-se ao rendimento da soja, mas com a vantagem de possuir menor custo de produção e de se enquadrar nos sistemas de rotação em segunda safra, sem competir com o cultivo da soja no verão.

Apesar de todos os avanços técnicos já ocorridos na cultura, como a expansão para áreas de baixa latitude, a canola ainda tem um longo caminho a percorrer. Caminho esse que tem sido comparado àquele percorrido pela soja, quando do avanço das fronteiras agrícolas para a região central do Brasil, e que tem lhe rendido a denominação de “soja de inverno”. Mas a definição que melhor descreve o estado atual de desenvolvimento da cultura no País é a expressão “tropicalização da canola”.

Desafios — No momento, já são conhecidos híbridos e variedades de canola com aptidão de cultivo em regiões de baixa latitude. No entanto, alguns pontos ainda necessitam melhor entendimento, como a oferta de sementes que possa abastecer o mercado, pois mais de 90% delas são produzidas na Argentina. Além disso, fazse necessário o zoneamento agroclimático da cultura para as novas regiões produtoras, como as do cerrado, que permitirá ao produtor o acesso ao crédito agrícola e ao seguro rural.

Característica outra que necessita ser desenvolvida é um programa de assistência técnica ao produtor rural, principalmente na semeadura, colheita e pós-colheita. O grão da canola é extremamente pequeno, em média, mil grãos pesam de três a seis gramas. Assim, a regulagem do maquinário requer rigor para garantir a plantabilidade, reduzir as perdas de colheita e as de pós-colheita. Nesse aspecto, dentre as atividades previstas no Grupo de Estudos e Pesquisa em Canola está a divulgação da cultura da canola aos produtores da região, treinamentos, dias de campo e orientações diversas contribuindo para a introdução técnica do cultivo da canola na região dos cerrados. A cultura da canola tem pela frente excelentes perspectivas de se consolidar no mercado nacional de processamento tanto de óleo para consumo humano, mas principalmente como matéria-prima para produção de biodiesel.