Eduardo Almeida Reis

EMOÇÕES

O plural de emoção não é privativo de Roberto Carlos. Também os jumentos estão sujeitos às emoções, desde que ajudados pela pimenta, designação comum a diversas plantas do gênero Capsicum, da família das solanáceas, nativas da América tropical, muito cultivadas pelos frutos, que são bagas com numerosas sementes, de coloração verde, amarela ou vermelha, usadas como condimento picante.

Além de picante, condimento emocional que faz o jumento chorar feito criança contrariada. Antes que o leitor d’A Granja pense que fiquei maluco, acho bom explicar bem explicado o choro do jerico. Deu-se que um comerciante mineiro, esperto como todo bom comerciante, comprou um haras bem localizado.

Na crise que vai por aí e por aqui, a compra de um imóvel não envolve dinheiro, meio de pagamento, na forma de moedas ou cédulas, emitido e controlado pelo governo de cada país. De um lado há um sítio com boa perspectiva de valorização, chamado haras porque tem uma porção de cocheiras bem construídas alugadas a um idoso rico, que nelas mantém diversos cavalos caríssimos e um jumento. O interessado na “compra” tem uma porção de carros usados, pequenos imóveis urbanos, garruchas e gramofones que valem como peças de decoração.

O idoso rico, que aluga as baias, não se interessa pelo jumento, que acaba entrando no rolo por R$ 2 mil. Fechado o negócio, temos o comerciante dono de um sítio-haras e um jegue, com as baias ainda alugadas ao dono dos cavalos por R$ 10 mil mensais.

Jumento azurra, zurra, orneja, orneia, vozes não muito simpáticas para o comerciante, que o levou para a fazenda em que passa os finais de semana com a família. Se o sujeito não gosta do ornear e não precisa do jumento para produzir burros e mulas, a solução mais inteligente continua sendo tentar vender o animal, providência que não é fácil.

Mexi com fazendas durante séculos e nunca tive um jumento. Adoro cavalos, que sempre tive, não só na hípica do Rio como também nas diversas fazendas em que vivi. Sei que os jumentos zurram, porque já ouvi o azurrar nas fazendas dos outros, mas é o tipo do ornejar que só interessa aos produtores de híbridos ou de jumentos.

Vimos na tevê que esses equídeos têm sido causa de muitos acidentes nas rodovias do Nordeste. Os Departamentos de Estradas de Rodagem de diversos estados nordestinos recolhem jumentos e não sabem o que fazer com eles, até porque os pastos escasseiam com a seca de 2014. Nosso comerciante mineiro, que ainda tem pastos, não queria o jumento e não é homem de vender pelo mesmo preço um animal que lhe custou R$ 2 mil.

O Google está cheio de jumentos da raça pêga à venda por R$ 10 mil em cinco vezes no cartão. Difícil é abrir os vários sites de vendas, que devem ter sido feitos por jumentos em informática, mas presumo que se vendam jumentos por muito mais que R$ 10 mil. O jerico do comerciante mineiro não tinha papéis e credenciais de reprodutor da raça pêga, mas passou a pertencer a um sujeito esperto. Naquela emergência, assoprou um líquido apimentado no olho do jegue e viu que o animal começou a chorar. Pronto: meio caminho andado.

Em seguida, telefonou para o velho rico, que mora noutro estado e possui próspero templo evangélico, avisando: “Acho bom o senhor pegar o jumento de volta, porque ele não para de chorar”. Emocionado com a notícia, o pastor prometeu aparecer na segunda-feira seguinte, quando teria culto em um templo próximo da fazenda do comerciante.

Escusado é dizer que, ao aparecer na fazenda, encontrou o jumento chorando sem parar. E foi logo dizendo: “Não chora, meu filho, que o vovô vai te levar de volta”. Negócio fechado em dinheiro vivo por R$ 30 mil, 15 vezes o valor do jerico no primeiro rolo, provando que bom comerciante consegue passar a perna em pastor evangélico, o que não é fácil.

Os santos homens de Deus descobriram meios de ficar pessoalmente muito ricos. Igrejas não pagam impostos. Se bem sucedidas, como quase todas, ficam riquíssimas. Aí, o pastor compra em seu nome uma ou duas rádios, que são baratíssimas. E vende horários de suas rádios, ou de suas emissoras de televisão particulares, para a igreja que comanda. Vende a preços de Globo, de ABC, de NBC, horários em uma tevê com duas dúzias de telespectadores. Paga os impostos – afinal, a tevê não é da igreja, mas é dele pessoa física – e garante a fortuna da família, mulher, filhos e namorada.

Negócio fechado em dinheiro vivo por R$ 30 mil, 15 vezes o valor do jerico no primeiro rolo, provando que bom comeciante consegue passar a perna em pastor evangélico, o que não é fácil