Solos

Antes de qualquer prática, a CALAGEM

O calcário fornece cálcio e magnésio, melhora a disponibilidade de nutrientes e diminui a de alumínio, além de melhorar a agregação do solo, entre outros benefícios

Barbara Paquier Ventura e Matheus Fernandes, Grupo de Apoio a Pesquisa e Extensão (Gape), Engenharia Agronômica, Esalq/USP

Os solos podem ser naturalmente ácidos em razão dos seus processos de formação e pobreza do material de origem, ou devido às práticas de manejo neles realizadas, como a adição de adubos nitrogenados. A acidez do solo é quantificada pelo pH (potencial hidrogeniônico), e vai de 0 a 14. Quanto mais baixo o número, maior quantidade de H+ presente e, portanto, maior acidez. Com o aumento do pH, diminui-se a acidez e aumenta-se a alcalinidade. Os valores de pH considerados adequados variam de 5 a 6 (em CaCl2). A correção do solo é feita por meio da calagem, que neutraliza a acidez gerada pelo excesso de íons H+ na solução do solo, e da gessagem, que diminui a saturação por alumínio – tóxico para a planta – em profundidade pela troca iônica entre o Ca2+ do gesso e o Al3+ adsorvido a fração argila, seguida pela complexação do Al3+ pelo SO4 2-, que também advém da dissociação do gesso.

A calagem fornece cálcio e magnésio, aumenta disponibilidade de nutrientes, diminui a disponibilidade de alumínio, aumenta a mineralização da matéria orgânica, aumenta a fixação biológica do N2 do ar e melhora a agregação do solo. Por sua vez, a gessagem condiciona a subsuperfície do solo, promovendo maior retenção de água e fornecimento de cálcio e enxofre em profundidade e, assim, contribuindo para maior desenvolvimento do sistema radicular. Dessa forma, essas práticas garantem maior eficiência de práticas de manejo posteriores e, consequentemente, maiores produtividades.

O manejo da correção do solo por meio do calcário e gesso deve ser realizado com antecedência, cerca de três a seis meses antes da implantação de uma cultura. Ou durante seu ciclo produtivo, no caso de culturas perenes e semiperenes. Embora os corretivos tenham ação mais duradoura, suas reações variam conforme o solo e a cultura implantada, de modo que o recomendado é realizar a amostragem e a análise química do solo todos os anos. Para a correção com calcário, o cálculo da necessidade de calagem deve ser realizado por dois critérios, baseados na análise química do solo: saturação por bases e/ou teores de cálcio + magnésio (Coopersucar), utilizando a maior dose determinada entre os dois cálculos.

a) Saturação por bases NC (t/ha) = (V2 - V1) x CTC PRNT x 10 NC = Necessidade de calagem expressa em toneladas/hectare V1= V% na camada de solo 0–20cm V2= V% que se deseja atingir CTC = Capacidade de troca catiônica na camada 0–20 cm PRNT = Poder relativo de neutralização total do calcário b) Teores de cálcio e magnésio Divulgação A GRANJA | 43 Coopersucar: NC (t/ha) = [30 - ( Ca + Mg )] x 10 PRNT x 10 NC = Necessidade de calagem expressa em toneladas por hectare Ca = teor de cálcio em mmolc dm-3 Mg = teor de magnésio em mmolc dm-3 PRNT = Poder relativo de neutralização total do calcário

A aplicação de gesso é recomendada quando, em subsuperfície, a saturação por bases for menor que 35%, quando o solo apresentar mais que 5 mmolc dm-3 de alumínio ou quando a saturação por alumínio (m%) for maior que 20%. A dose de gesso pode ser calculada pelo critério da saturação por bases (Vitti et al., 2004).

NG (t/ha) = (50-V) x CTC 500 NG = Necessidade de gessagem expressa em toneladas por hectare V = saturação por bases atual do solo em subsuperfície CTC = capacidade de troca catiônica em subsuperfície em mmolc dm-3

Equívocos — Erros cometidos desde a amostragem do solo até a aplicação dos corretivos comprometem a qualidade da operação, de modo que não sejam atingidos os resultados esperados. Os principais equívocos cometidos por parte do produtor são os seguintes: amostragem incorreta do solo, anulando a veracidade dos dados da análise química utilizada para realizar os cálculos de necessidade de calagem e gessagem; desconhecimento da qualidade do calcário em valores de RN e de PRNT, resultando em aplicações com doses equivocadas; aplicação de doses fixas sem realização de análises do solo; má regulagem das máquinas aplicadoras; alta granulometria e aplicação de corretivos em condições adversas de vento, ocasionando má distribuição superficial do corretivo por causa da deriva; condições de armazenamento desfavoráveis (umidade) que implicam na depreciação do produto e dificuldades no momento da aplicação.

Atualmente, o conceito de uso eficiente de insumos na agricultura brasileira deve atentar para criteriosa avaliação dos retornos econômicos sobre os investimentos, uma vez que a tendência natural do agricultor em situações de dificuldade de crédito tem como primeira medida reduzir os gastos com esses insumos, notadamente com corretivos agrícolas e fertilizantes. A opção mais plausível é aumentar a produtividade e reduzir os custos fixos, procurando atingir a maior produtividade possível dentro do limite de investimento que se pague pela produção. Atuar nessa linha de trabalho – fazer bem feito em menor área para aumentar a produtividade, ao invés de cultivar grandes propriedades sem conseguir custear operações de base como a calagem e a gessagem, que contribuem para o uso eficiente de fertilizantes – é o caminho para aumentar a probabilidade de sucesso da nossa agricultura.