Agricultura Familiar

Importância da educação na SUCESSÃO da propriedade

Técnico agrícola Adair Pozzebon, tecnólogo em Horticultura e mestrando em Desenvolvimento Rural

São constantes e inúmeros os debates, encontros, feiras e eventos discutindo a temática da sucessão na agricultura familiar, um universo que a tempo nos assola, fruto da evasão dos jovens em busca de outras oportunidades e desafios, que não sejam o campo. Dados do último Censo Agropecuário de 2006 do IBGE apontam que, no Rio Grande do Sul, existem 378.546 estabelecimentos agropecuários de base familiar (85,7% do total) que produzem as matérias-primas mais importantes da agroindústria gaúcha, representando metade do PIB do estado e possuindo importância estratégica na soberania alimentar de uma nação, já que 70% dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros vêm da agricultura familiar. Dada essa importância, o ano de 2014 foi eleito pela ONU - Organização das Nações Unidas, como o Ano Internacional da Agricultura Familiar. O estado é composto por municípios essencialmente agrícolas, pois conforme o censo demográfico de 2010 do IBGE existem 227 municípios com menos de 5 mil habitantes, e desses, 221 possuem a maior parte da população morando na zona rural, quase a metade dos 497 municípios. Apenas 100 possuem mais de 20 mil habitantes. Isso sem considerar que o conceito de zona urbana em alguns municípios podem ser até questionados (Veiga, 2001). A maioria dos municípios gaúchos tem na agricultura familiar seu alicerce da economia e cultura

Se lançado um olhar sobre a população existente no campo, em especial ao número de jovens com idade entre 15 e 29 anos, depara-se com uma preocupação sem precedentes, pois em 2010, segundo dados do IBGE, existiam pouco mais de 336 mil jovens. Basta uma operação matemática simples para se entender o tamanho do problema. Em um universo de pouco mais de 378 mil estabelecimentos agropecuários de base familiar no estado, isto significa que, distribuindo uniformemente estes jovens, um por propriedade, hipoteticamente mais de 42 mil estabelecimentos não têm jovens para suceder as atividades dos pais.

Essa realidade vem sendo moldada há pelo menos meio século no Brasil, período em que, ao invés de haver um processo amplo de reforma agrária e de valorização do pequeno agricultor, optou-se, por meio das políticas agrícolas e também da escola, em centrar os esforços na industrialização, no emprego, no culto às cidades em detrimento à depreciação do campo e de quem ali vivia, criando antagonismos e não um sentimento de complementaridade e integração entre esses espaços. Esse processo ficou conhecido como a “modernização” do campo.

Vale à pena destacar que os fluxos migratórios (campo-cidade) vêm perdendo força, até porque já houve uma inversão demográfica no Brasil. Em 2010, estavase chegando a uma taxa de 15,6% de pessoas no campo. Mas um fator ainda preocupa. Nos últimos dez anos, cerca de 2 milhões de pessoas deixaram o meio rural, sendo que 1 milhão são jovens. O êxodo que prevalece nos dias de hoje é o da juventude. Com esse processo de “esvaziamento do campo”, não foram embora somente as pessoas, mas também a cultura, os saberes, os valores e também as escolas do campo.

Segundo a publicação do jornal Folha de S. Paulo, de três de março último, intitulada “Brasil fecha, em média, oito escolas por dia na região rural”, traz à tona essa questão, apontando que, nos últimos dez anos, são 32,5 mil escolas a menos no campo. No Rio Grande do Sul, no período de 2007 a 2010, foram extintas mais de 200 escolas do meio rural, fruto de uma política de nucleação em nome da eficiência na gestão. A educação não deve ser vista como um custo e sim um investimento necessário e essencial. Para muitas comunidades, o único braço vivo do estado era a escola, que hoje já não existe mais.

Movimento contra a lógica da “modernização” — Na contramão desse processo histórico de “modernização do campo” surgem no Brasil as Escolas Famílias Agrícolas (EFAs), em 1968, no Espírito Santo, por meio do Movimento de Educação Promocional do Espírito Santo (Mepes), e hoje estão distribuídas em 17 estados, totalizando quase 150 EFAs. As escolas envolvem, articulam e mobiliza os agricultores(as), a juventude, as entidades e os poderes públicos municipal, estadual e federal nos lugares onde atuam em prol de uma educação do campo contextualizada e que defenda os interesses da agricultura familiar e camponesa.

Os alunos das EFAs utilizam-se da metodologia da Pedagogia da Alternância, pela qual o conhecimento é construído a partir da realidade, do saber popular, na comunhão entre a família/comunidade e a escola

As EFAs utilizam a metodologia da Pedagogia da Alternância, na qual o conhecimento é construído a partir da realidade, do saber popular, fazendo a comunhão entre a família/comunidade e a escola, em um vai e vem de saberes ininterruptos, através de uma série de instrumentos pedagógicos que tornam este processo contínuo de aprendizagem, mesmo na descontinuidade de tempos e espaços. O jovem alterna entre tempos na escola e na comunidade, mantendo o vínculo com o meio onde vive.

Atualmente, existem três EFAs em funcionamento no Rio Grande do Sul: a Escola Família Agrícola de Santa Cruz do Sul (Efasc), fundada em 2009; a Escola Família Agrícola da Serra Gaúcha (Efaserra), inaugurada em 2013 e com sede em Garibaldi; e em 2014 surgiu Escola Família Agrícola de Vale do Sol (Efasol), em Vale do Sol. E está em pleno processo de implantação de mais uma EFA em Canguçu. A Efasc desenvolve tanto o ensino médio como o curso de Técnico Agrícola (Técnico em Agricultura), enquanto a Efaserra e a Efasol possuem o ensino médio e estão em processo de credenciamento do curso técnico, porém, desenvolvem os ensinos integrados – os estudantes, ao final da formação, recebem o certificado de ensino médio e técnico. As escolas envolvem mais de 200 famílias no processo de formação em 25 municípios. Todas são filiadas à Associação Gaúcha Pró-Escolas Famílias Agrícolas (Agefa), que as representa em nível estadual. O grande mérito dessa proposta de educação do campo não está em apenas trabalhar com a busca da permanência do jovem no campo, mas sim em mediar um processo educativo que traz a realidade como principal objeto de pesquisa, envolvendo a família, resgatando a história, valorizando a cultura do campo, a comunidade, enfim, (re)conhecendo, por meio de uma leitura crítica e histórica, a realidade como ela é, intervindo para melhorá-la. O jovem, nessa perspectiva, tem a liberdade de escolha entre permanecer ou ir embora, mas com elementos suficientes para tomar esta decisão de forma consciente e não ser vítima do “fatalismo” de ficar por ser a última opção existente. Hoje, mais de 80% dos jovens formados na Efasc, de Santa Cruz do Sul, permanecem no campo, desenvolvendo seus projetos produtivos elaborados durante a formação.

Está claro que apenas políticas de crédito e uma educação produtivista e tecnicista não dão conta de trabalhar as problemáticas em torno da sucessão na agricultura familiar. É certo que a educação do campo, a exemplo da que é desenvolvida pelas EFAs, valorizando a cultura do campo, sua história e as pessoas que lá vivem, pode ser uma possibilidade concreta de inserção do jovem no mundo do trabalho. Não apenas como mero coadjuvante, mas como sujeito capaz de construir novas possibilidades e oportunidades no campo.